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NA ROTA DA MADEIRA: O CAMINHO DA ILEGALIDADE DA MATÉRIA-PRIMA

14/07/2017

Ainda há muito a ser feito para reduzir a clandestinidade das toras e seus danos. Você já parou para pensar que pode ser parte dessa hitória?

A Floresta Amazônica está mais ligada a nós do que a geografia pode sugerir. Ela é hoje o principal alvo de exploração madeireira no Brasil, já que seus maiores consumidores – as regiões Sul e Sudeste do país – esgotaram suas vegetações nativas (de peroba-rosa e pinho-do-paraná, sobretudo) e recorrem ao território para suprir a demanda.

Sim, há ainda matas plantadas, especialmente de eucalipto e pínus, mas grande parte delas abastece empresas de celulose e papel e siderúrgicas.

Do piso da sala às fôrmas empregadas na obra… Difícil encontrar quem não tenha madeira em casa. Por isso mesmo, combater a derrubada criminosa e as fraudes hoje envolvidas nessa cadeia é tarefa de todos: significa manter a floresta de pé em tempos de mudanças climáticas e não apoiar via consumo um negócio bilionário que envolve corrupção, trabalho escravo, conflitos fundiários e sonegação de impostos.

“Cerca de 80% da produção amazônica é ilegal e isso torna enorme o risco de uma pessoa levar esses cortes para casa”, afirma Aline Tristão, diretora executiva do Conselho de Manejo Florestal (FSC), a principal entidade certificadora no país, que atesta a origem responsável da matéria-prima florestal, do cultivo à venda – indo além da chancela da legalidade.

O primeiro passo é entender esse complexo mercado

A produção brasileira de madeira é monitorada pelo Documento de Origem Florestal, o Sistema DOF, e pelo novo Sinaflor (em implantação até dezembro deste ano), do governo federal, além de duas versões do sistema Sisflora, usadas pelos estados do Pará e Mato Grosso.

“O controle é bastante sofisticado, mas os fraudadores sempre descobrem meios de ‘lavar’ a madeira”, diz Mauricio de Moura Costa, diretor da Bolsa de Valores Ambiental (BVRio, plataforma para compra e venda de madeira legal rastreada). Ele se refere a um efeito perverso da informatização: possibilitar que os lotes ilícitos cheguem ao consumidor com documentação aparentemente regular.

“Para evitar riscos, muitas construtoras substituíram o material por cerâmica no revestimento e alumínio e PVC em portas e janelas. Mas isso mata a economia da floresta, a qual precisa se fortalecer para combater o desmatamento, arrecadar impostos e gerar empregos”, alega Moura Costa, autor de um relatório recente da BVRio que traça um diagnóstico amplo e propõe bancos de dados para inibir a clandestinidade.

Matéria publicada por Arquitetura e Construção em 12 de julho de 2017

1° FOTO. Já pensou que você pode ser parte dessa história?

2° FOTO. Autor da obra, o Studio MK27 adotou as regras ecológicas pautadas pelo Green Building Council Brasil para a construção deste refúgio em Catuçaba, no interior de São Paulo.

4° FOTO. O que você tem a ver com isso: a concorrência desleal do mercado ilícito é responsável por desmatamentos e condições precárias de trabalho. Na base da história está o cidadão. “Madeira ilegal tem fornecedor, mas também consumidor”, diz o arquiteto Marcelo Aflalo, de São Paulo. Alguns pontos onde comprar itens certificados pelo FSC: Leroy Merlin, Leo Madeiras, Mart Madeiras, Ecolog, Flaviense, Indusparquet, Madeiras Goede.

5° FOTO. O barato que sai caro: a madeira ilegal não assume diversos custos criados no caminho entre a floresta e o consumidor, explica Aline Tristão, do FSC. “Ela não paga impostos, não oferece direitos aos trabalhadores, gera impactos socioambientais etc.” Já a certificada, além de cumprir a legislação, inclui vantagens sociais e ambientais que, embora custem mais, incentivam o desenvolvimento sustentável do setor.

6° FOTO. O aplicativo da BVRio é fácil de usar: basta inserir o número do Documento de Origem Florestal (peça ao lojista) e ele analisa os riscos de ilegalidade daquele lote.

7° FOTO. Em março, começou a implantação no país do Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor), que será combinado ao atual Documento de Origem Florestal (DOF), além de outros bancos de dados de modo a rastrear a cadeia da madeira. “Essa mudança tende a ser um marco, pois tudo ficará digital”, avalia Aline Tristão.