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ARQUITETO FAZ DAS CORES E IMAGENS DO RIO FONTE INESGOTÁVEL DE REFERÊNCIAS

30/08/2016

Seja em seus trabalhos de arquitetura e interiores ou no garimpo e produção de peças para sua loja, Chicô Gouvêa busca traduzir a cultura local

Chicô Gouvêa é carioca de nascença e arquiteto de formação. Ou vice-versa. Autor de projetos de arquitetura, interiores e, eventualmente, cenários, ele faz das cores, símbolos e imagens do Rio uma fonte inesgotável de referências. E do universo da casa, um permanente exercício de criação. “Munidos de imagens da nossa cultura, realizamos ambientações e também uma extensa lista de móveis e objetos. Todos impregnados de brasilidade”, conta ele, a respeito da Olhar o Brasil: loja que criou em parceria com Paulo Reis, em Itaipava, na região serrana do Rio, onde o viver carioca transparece em cada detalhe. “Sim, diria que temos um estilo próprio. Embora no passado isso tenha sido bem mais nítido”, afirmou o arquiteto nesta entrevista ao Casa.

Como é projetar casas em uma cidade tão rica de belos exemplares delas, assinadas por Niemeyer, Bernardes, Zanine Caldas? No seu entender, o que caracteriza a arquitetura residencial carioca?

Sem dúvida, o Rio como um todo, natural ou construído, permanece meu grande referencial. Acredito que mesmo inconscientemente acabo arquivando formas e imagens que mais tarde acabam vindo à tona em minhas criações. Tudo, claro, filtrado por meu olhar. Estão lá as formas curvas que Niemeyer sempre dedicou às mulheres. Todo o aprendizado que herdei de Sergio Bernardes. As formas da natureza apreendidas em meio a Zanine Caldas e a Krajckberg.

Muitos apontam uma maneira peculiar do carioca decorar suas casas. Concorda com essa visão?

Sim, embora ache que esse jeito já existiu mais. O Rio perdeu muito desse olhar particular. Ainda cultivamos coisas como a simplicidade em usar a casa, a intensa luminosidade que atravessa nossas janelas, o visual privilegiado com o qual convivemos. Porém, mais do que isso, que nos é naturalmente dado, eu diria que ao decorar continuamos a ter alma de carnavalescos antigos. Daqueles habituados em transformar materiais baratos em objetos e espaços sofisticados. E isso, sem dúvida, é bem nosso.

Você mesmo garimpa os objetos comercializados em sua loja, em Itaipava. O que leva em conta na hora de selecionar as peças?

A Olhar o Brasil nasceu do desejo de preservar nossas imagens como referências presentes e futuras. Vejo nossos produtos como tradução de nossa cultura. Por ser carioca, concentro minha atenção em objetos que reproduzem coisas daqui, o que, aliás, devo confessar, não é tarefa lá tão difícil de conduzir. Apesar de sofrer tantos maus-tratos, o Rio ainda é uma cidade linda, repleta de belas imagens. Acredito que nossos móveis e objetos são a maneira que encontrei de espalhar o que sinto em relação ao Brasil.

Matéria publicada pelo jornalista: Marcelo Lima do, O Estado de São Paulo em 30 de julho de 2016