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LINHA DO TEMPO

25/04/2016

Passado e presente se entrelaçam na seleção apresentada pelo setor Design da SP-Arte

Algumas características saltam os olhos quando observamos o mobiliário produzido no Brasil entre as décadas de 1930 e 1970. Além de sua evidente qualidade construtiva e material, coexistem em diferentes móveis, de diferentes autores, elementos que apontam para uma identidade comum. Para uma convergência de procedimentos quanto ao desenho e ao uso possível de determinadas matérias-primas, especialmente da madeira, que, com o passar do tempo, acabou dando origem à denominação móvel modernista brasileiro.

“Apesar da proposta internacional do modernismo, os móveis produzidos no Brasil no período denotam padrões inéditos de concepção e execução. Não me surpreende, portanto, que eles tenham se fixado com tanta força na memória coletiva”, afirma o historiador e crítico de design Jayme Vargas.

Considerada hoje uma das mais relevantes no cenário internacional, é um recorte consistente desta produção, tão bem expressa na obra de designers como Sergio Rodrigues, Oscar Niemeyer, Jorge Zalszupin, Joaquim Tenreiro e Lina Bo Bardi, entre outros, que ocorreu do dia 7 á 10 de abril na 12ª edição da SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, agregando, a partir desta edição, uma seleção de galerias brasileiras do segmento.

“Existe sim muito de modernismo. Mas também de contemporâneo. Essencialmente, o que mais pesou na seleção dos participantes foi a veiculação ao conceito de desenho de autor. Com raras exceções, em geral peças vinculadas a algum período específico, a maioria das peças apresentadas possui criadores claramente identificados”, pontua Fernanda Feitosa, idealizadora e promotora da feira.

Satisfeito este requisito essencial, a organização se abriu para um amplo leque de participações. Ocupando praticamente todo o terceiro pavimento do prédio da Bienal, a mostra contempla de antiquários a lojas de móveis. De profissionais consagrados em suas carreiras solo a instituições de ensino apresentando trabalhos de estudantes recém-graduados.

Embora não se constitua objetivo primordial do evento –que, por ora pretende se ater a designers e movimentos consolidados – alguns dos participantes não abriram mão da oportunidade de aproveitar a ocasião para apresentar ao mercado seus novos produtos. A Etel, por exemplo, comparece com três novas criações de Claudia Moreira Salles, três conjuntos de mesa e um banco. Todos inéditos. A Firma Casa traz direto da galeria Friedman Benda, de Nova York, um aparador inédito de Fernando e Humberto Campana, construído a partir de tiras de metal.

Ainda na seara modernista, duas reedições prometem ser alvo de todas as atenções. Fruto de uma parceria com o Museu Lasar Segall, uma série inédita de móveis de madeira ebanizada – mesas, cadeiras e poltronas – produzida pelo pintor em 1932, acaba de ser reeditada.

“Foram modernistas, como Lasar Segall, com sua limpeza formal, que abriram caminho para o surgimento do design contemporâneo”, afirma a empresária e pesquisadora Lissa Carmona, da Etel, que também assina a reedição.

Além de contar com seu espaço de exposição, a marca paulista preparou especialmente para a SP-Arte, uma exposição institucional sobre o modernismo brasileiro, apresentando seus atores e obras primas. “Nosso objetivo foi produzir uma cronologia de fácil compreensão, para que todos os visitantes, especialistas ou não, possam entender o passado e o presente do nosso design, por meio de seus protagonistas”, explica Lissa.

Avançado na linha do tempo e chegando à década de 1970, dois produtos bastante representativos do pensamento industrial do artista plástico e designer Geraldo de Barros, a cadeira M110 e a estante MF710, serão apresentadas pela DPot em instalação especial.

Completando a programação, mas já com foco no futuro, o Centro Universitário Belas Artes onde pretende apresentar trabalhos de alunos, especialmente selecionados para a SP-Arte.

Desenho de autor

Duas características fundamentais definem a produção apresentada no setor de design da SP-Arte: primeiro, quer se trate de uma peça artesanal, ou produzida industrialmente, não há como negar uma intenção estética, por trás de cada uma das criações apresentadas pelas galerias participantes.

Depois, com raríssimas exceções, quer tenham sido elas confeccionadas em pequena ou em larga escala, todas possuem origem identificada. Ou, em outras palavras, nome e autoria reconhecidos.

Uma condição hoje tomada como referencial de compra não apenas pelo seleto grupo dos colecionadores. Um público apto a desembolsar milhares de reais por móveis produzidos nas décadas de 1950 e 1960 por designers ícones do movimento moderno.

Na forma de reedições, também presentes à mostra, esses mesmos autores começam agora a chegar às casas de um consumidor de perfil jovem, mas, ainda assim, ávido por revisitar o passado. Mais especificamente, uma época na qual a massificação parecia uma realidade distante e que todo e qualquer objeto se pretendia belo. Mas sem perder seu compromisso com a funcionalidade.

Matéria publicada pelo jornalista: Marcelo Lima do, O Estado de São Paulo em 03 de abril de 2016