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PARA QUE COMPLICAR?

26/02/2016

Atingir o simples – sem ser simplista – é o objetivo perseguido pelo designer francês Ito Morabito

Simplexity, para o designer francês Ito Morabito, é arte de se tornar simples coisas muitas das vezes complicadas. Combinando duas palavras em inglês – simples e complexo -, consiste, basicamente, em perseguir o essencial até as últimas consequências, mas nunca de forma simplista. “O que, nem de longe, pode ser considerado algo fácil”, adverte.

Filho de um joalheiro francês, Pascal Morabito, desde muito cedo ele teve a oportunidade de conviver com as artistas, designers e arquitetos. “Nunca me interessei em saber quem estava conhecendo. Mas, sim, pelo ímpeto, pelo estilo de cada um deles. A fôrma sempre me interessou mais que o bolo”, brinca o designer, que em 2000, ainda durante o curso de desenho industrial, abriu seu estúdio próprio.

“Ninguém precisa adicionar mais complexidade à vida. Muito pelo contrário. Cabe a mim, enquanto designer, oferecer aos usuários de meus produtos o menor índice de complicação possível”, afirma Morabito, que tem se notabilizado pelo aspecto depurado, atemporal de suas criações, voltadas, sobretudo, para a produção em larga escala.

Objetos que, avessos a excessos de toda ordem, mas igualmente a qualquer código de conduta minimalista, se pretendem, antes de mais nada, universais. “Quanto mais fácil de usar for um objeto, mais intuitiva e natural será a relação com o seu usuário”, defende o designer, citando como exemplo um de seus mais recentes trabalhos, o castiçal Árvore, feito de metal prateado.

Uma peça de leitura imediata, com nada menos que 1,20 m de altura e múltiplas ramificações, que expõe duas de suas mais recorrentes inspirações: a natureza e a arquitetura. Além de ser uma das poucas produzidas em tiragem limitada que leva a assinatura do designer. Numerada e assinada, a produção, a cargo da Christofle, não ultrapassou os 20 exemplares.

“Ocorre, no entanto, que nem sempre os objetos mais simples visualmente são os mais fáceis de se realizar do ponto de vista industrial. Em alguns casos, chego a trabalhar por mais de um ano apenas para encontrar uma solução minimamente satisfatória”, comenta o designer a propósito de um de seus mais bem-sucedidos projetos, a luminária One Line, desenvolvida para a marca italiana Artemide.

O artefato de mesa, direcionável, lançado no Salão do Móvel de Milão de 2014, do ponto de vista formal se resume a uma canaleta contínua e esguia, que abriga uma faixa de luminosa de LEDs. “O que não fica aparente é a enorme complexidade interna do objeto. Em outras palavras, tudo o que é preciso ser feito para se atingir simplicidade”, afirma Morabito, que considera o trabalho referencial na sua carreira.

“Além de explicitar meu trabalho aos olhos da crítica internacional (à convite da curadora de arte Marie-Laure Jousset, no ano seguinte ele fez sua primeira mostra individual, no Centro Cultural Francês em Milão), a One Line me abriu as portas do mercado internacional”, conta o designer, que desde então tem colaborado com frequência para marcas de peso, como as italianas Zanotta, Guzzini e Frighetto, além das francesas Roche Bobois e Christofle.

Anagrama derivado de Morabito, Ora-Ito é a expressão que hoje dá nome a seu estúdio e à sua marca própria, lançada em 2013, com uma coleção de fones de ouvido, alto-falantes e proteções para smartphones e tablets.

Reconhecido dentro e fora de seu país, o designer, que vai proferir conferência em São Paulo no próximo dia 1°, durante a Expo Revestir, foi condecorado em 2011 com a medalha Chevalier des Arts et des Lettres, por Frédéric Mitrerrand, ministro francês da Cultura e Comunicação, e, no anos passado, recebeu nada menos que três prêmios iF Design Award, um dos mais concorridos no cenário internacional, considerado o Oscar do Design.

Em menos de duas décadas de atuação, seu portfólio nas áreas de arquitetura, instalações e interiores também não deixa nada a desejar. Com mais de mil realizações, sobretudo na região parisiense, seu estúdio é um dos mais requisitados da França, tendo realizado, apenas para citar os projetos mais recentes, a discoteca The Cab, o Hotel Odyssey e o restaurante Nano.

Matéria publicada pelo jornalista Marcelo Lima do O Estado de São Paulo em 21 de fevereiro de 2016