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A DAMA E O CAVALHEIRO

10/12/2015

Delicada, curvilínea e com uma despretensiosa sensualidade, a cadeira Clad conquistou a preferência do designer Jader Almeida em sua nova coleção, que chega às lojas neste mês

Uma quarta-feira de julho. Faz-se silêncio no estúdio em São Paulo. Vestido de preto, como de hábito, Jader Almeida começa a girar lentamente a cadeira Clad diante da câmera do fotógrafo Gustavo Arrais, o autor deste ensaio. A cena improvisada me lembra da figura do cavalheiro conduzindo a dama pelo salão de baile. Mignon e com cintura fina, a peça remete às formas femininas. Embora tenha nascido no Brasil, mais precisamente em Florianópolis, onde o designer vive e trabalha, sua origem é grega. “Desenhei-a para o café do Museu de Arte Cicládica, em Atenas, a pedido dos arquitetos idealizadores do local”, conta. Para concebê-la, ele mergulhou numa pesquisa sobre o movimento que remonta a 3000 a.C. e influenciou artistas como Constantin Brancusi (1876-1957) e Amedeo Modigliani (1884-1920). Por causa da crise econômica na Grécia, a negociação entre o museu e a Sollos, fábrica na qual Jader ocupa o cargo de diretor criativo há 11 anos, não foi adiante. O exemplar, porém, incorporou-se à coleção 2015 e ganhou desdobramentos: cadeira de jantar (com e sem braços) e poltrona estofada. Criar versões do mesmo produto, aliás, é uma das características do trabalho deste catarinense, que confirmou, aos 16 anos, o desejo de infância de trabalhar com projetos. “Fiz um curso de desenho técnico e logo fui estagiar numa indústria de móveis”, diz.

“Gosto de produtos que cumpram sua função silenciosamente e permaneçam atuais apesar da passagem do tempo”. Jader Almeida, designer.

Na faculdade de arquitetura, ele ouviu de um professor a frase que o marcaria para sempre: “Quem tiver afinco e capacidade de entendimento espacial consegue projetar de caneta a cidade”. Levou essa filosofia à solos e, aos 23 anos, antes de propor desenhos autorais, reviu e organizou etapas produtivas de cada exemplar da empresa. “’Depurar’ é uma palavra que define bem o trabalho de Jader. Ele é obcecado pela forma perfeita”, afirma a jornalista Adélia Borges, autora do livro sobre a carreira do designer. À medida que nossa conversa se estende, percebo que o profundo conhecimento dos processos fabris reverteu em autoconfiança para desenvolver sua mobília, precisa e tão premiada. “Ele tem um percurso único na história do design brasileiro. A vivência no chão de fábrica o capacitou como nenhum outro de sua geração”, avalia Adélia. A preocupação de Jader com seus móveis vai muito além das questões estéticas: ele discorre sobre as especificações do parafuso da cadeira com a mesma propriedade que sugere os materiais empregados. Gosta de madeira, mas não se restringe a ela. Já experimentou aço, mármore, latão, vidro, acrílico e até cortiça. “A parceria dele com a Sollos é tão afinada que gera benefícios para o designer, a indústria e o consumidor, pois as peças chegam melhores a cada ano”, diz Baba Vacaro, diretora de criação da Dpot, loja que vende a mobília do catarinense. Aos 34 anos, com cerca de 150 itens assinados e 27 prêmios brasileiros e internacionais, Jader se mostra reticente ao ser questionado sobre o futuro. “Espero me manter curioso e com a mesma avidez dos primeiros traços.” O profissional revela a vontade de desenhar um barco e conta também que está debruçado sobre um projeto que renderá frutos daqui a um ano. Pergunto o que é, e ele desconversa. Depende-se gentilmente e parte para o aeroporto acompanhado de sua mala – preta como suas roupas.

MINIMALISMO EM PAUTA – Os itens da coleção denotam a elegância intrínseca e atemporal das criações de Jader Almeida

Matéria publicada pela jornalista: Regina Galvão da Casa Claudia em agosto de 2015