English Version

PARECE UMA LOJA COMUM, MAS NÃO É

26/11/2015

Livros – Livraria em Seattle é o novo laboratório de testes da Amazon

Céu Azul, carimbado com nuvens brancas. Cena rara em Seattle, famosa pelo clima chuvoso e dias cinzentos. Na semana passada, com um sol suave batendo no rosto, o tempo convidava para uma caminhada pelas ruas frias até a livraria da Amazon, instalada em um pequeno shopping horizontal ao lado da University of Washington. A loja, aberta há duas semanas, é o mais novo projeto-piloto da maior varejista de livros on-line do mundo. Parece uma livraria tradicional, mas não é.

A loja, pequena para padrões americanos, é acolhedora. Tem prateleiras em madeira clara e colunas de ferro preto, chão de tábua corrida e enormes vidraças, que deixam o sol e o verde da calçada entrar. Música clássica, em baixo volume.

São 10h30. Circulam pela loja, de 15 a 20 pessoas. São jovens, com jeito de estudantes, casais idosos, mães com filhos de colo, homens e mulheres de meia idade falando em seus celulares, que perambulam por entre as prateleiras recheadas de revistas, livros de culinária, best-sellers, clássicos. Alguns circulam bebendo café da Starbucks, outra grife famosa que nasceu em Seattle, ao lado de Amazon, Microsoft e Boeing. No fundo da loja há uma área reservada para crianças, equipada com mesas baixas, cadeirinhas, brinquedos.

Todos os livros são exibidos de frente, em vez de mostrar a lombada, para que o consumidor veja a capa do livro, que vem acompanhando de uma etiqueta, preta escrita em branco, com dados sobre a obra.

O acervo, de apenas uns 5 mil livros – uma fração do portfólio vendido pela Amazon na internet – pode decepcionar o leitor acostumado a frequentar livrarias de grande porte como as americanas Barnes & Noble e Strand ou mesmo as brasileiras Cultura e Livraria da Vila.

Também não é possível encomendar o livro na loja e buscá-lo depois. A recomendação é que você pegue o celular, entre no site da Amazon, faça a compra e receba a encomenda em casa, no Brasil, ou no hotel.

Nenhum livro ou revista exposto tem o preço impresso – ele muda ao ritmo dos valores cobrados pela empresa na web. Há equipamentos de leitura óptica espalhados na loja – o consumidor aproxima o código de barra estampado na contracapa e a máquina informa o preço.

Mesmo com um acervo que lembra o de uma livraria de aeroporto, ainda que mais parrudo, a loja tem atraído gente e a atenção da mídia. Quando foi aberta, formou-se longa fila na porta e foi assunto discutido por jornais e revistas nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

O próprio Jeff Bezos, fundador e maior acionista da Amazon, disse em 2001 que gostava de zanzar por pequenas livrarias – algo cada vez mais difícil nos últimos anos. A Amazon, com seus preços baixos e entrega rápida, fez com que o mercado de livros fosse virado de cabeça para baixo, levando pequenas e grandes livrarias e encolherem ou fecharem as portas.

Matéria publicada pela jornalista Cynthia Malta do Valor Econômico em 18 de novembro de 2015