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VITACON INAUGURA USO DE FUNDO COLETIVO PARA OBRAS

19/11/2015

Construção - Companhia vê novo modelo com potencial de transformar vizinho em investidor e projetista

“O grande negócio é inventar e pensar novos formatos.” É assim que o empresário Alexandre Lafer Frankel, de 36 anos, se desafia para gerir sua companhia, a construtora e incorporadora Vitacon. E para enfrentar o cenário difícil deste ano, ele ampliou a aposta em inovação. “As crises exigem que a gente pense diferente.”

Neste último trimestre de 2015, a Vitacon vai testar duas novidades em termos de financiamentos e de atuação estratégica. Nesta semana, lança um compacto residencial que contará com recursos de “crowdfuding” (financiamento coletivo) no orçamento da obra.

E, no correr do mês, coloca na praça um ultra-compacto no bairro do Bom Retiro, na capital paulista, para marcar a estreia da linha ‘Vita’, para um público de menor renda que o atual da companhia.

Quando considerados os empreendimentos, totalizando sete. A companhia, criada em 2009 pelo triatleta e cicloativista, já tem fama de “inventiva” no setor de construção. Frankel fundou o negócio em meio ao “boom” das imobiliárias. Teve de criar uma identidade para concorrer com as grandes, experientes e capitalizadas empresa do setor – mais de 20 tinham lançado ações na BM&FBovespa e estavam de bolsos cheios. O foco escolhido foi conforto e mobilidade urbana, com estilo. Daí, os compactos que são hoje a cara da companhia, embora tenha feito projetos com unidades de 250 metros quadrados.

Para a Vitacon, a aposta em espaços pequenos significava oferecer localização a um preço acessível (em valores absolutos), com serviços e condomínio próximos aos de hotelaria e uma filosofia de compartilhamento de espaços e bens – como carros, bicicletas, ferramentas, entre outros.

O modelo têm funcionado. Enquanto a Vitacon prevê quatro lançamentos no ano, nomes tradicionais como Rossi Residencial e PDG Realty não farão nenhum. A Gafisa, com atuação em dezenas de cidades do país, vai encolher drasticamente a oferta de novidades. A maioria das empresas do setor – as mesmas do boom das aberturas de capital – cresceu demais em terrenos e cidades atendidas e agora vive profunda reestruturação.

Dono, Alexandre Frankel inaugura novo segmento, de R$ 99 mil, com compactos de 14 m no bairro Bom Retiro

Mas para enfrentar 2015 só seguir a receita de sempre, na visão de Frankel, seria pouco. Na Vila Olímpia, bairro paulista onde a construtora começou sua história, o Próximo Lançamento será um compacto voltado para família.

A novidade desse projeto, contudo, não está tanto no formato do empreendimento. Mas no orçamento. Com esse lançamento, a Vitacon inaugura no Brasil o uso de uma estrutura de “crowdfuding”, ou financiamento coletivo, no custeio da construção. Será uma fatia pequena: de R$ 1 milhão a R$ 2,4 milhões, no máximo. O valor representa entre 6% e, no máximo, 10% do custo da obra.

O plano, contou Frankel ao Valor, que é daqui para frente todo empreendimento da Vitacon para venda conte essa estrutura, ainda que com valor reduzido.

A ideia surgiu dentro de um time de jovens profissionais da Vitacon, provocados por Frankel a “inovar”. Foi uma turma de quatro profissionais, todos com pouco mais de 20 anos. A inspiração veio do uso desse formato fora do Brasil. “Eles que viram, tiveram a ideia e trataram tudo com a CVM para conseguir realizar. Ficaram dedicados a isso durante um ano.”

A Urbe.Me fará a captação do fundo, totalmente online. Para Paulo Deitos, um dos sócios da empresa, há dois ganhos com esse modelo: a atração de mais e novos investidores e sua integração ao debate da convivência urbana.

Na estreia do ‘crowdfunding’, a Vitacon preferiu usar um projeto já pronto. Nesse empreendimento, por exemplo, há um café aberto ao público no que seria o andar térreo do prédio. No ideal de Frankel, o “crowdfunding” é também uma forma de promover a participação da comunidade vizinha no debate do projeto. “No lugar de uma cafeteria, o próximo [prédio] pode ter outra coisa que os moradores já sabem que falta no bairro.”

“Eu sou apaixonado por esse modelo. Além de envolver a comunidade, é algo muito transformador porque é totalmente privado e sem intermédio de instituições.” E segue: Lá fora [do Brasil], é possível encontrar modelos em que os moradores de um bairro financiam benfeitorias para a região, que atendam as suas necessidades. Você imagina não depender de bancos? Apesar do entusiasmo, sabe que a prática é que mostrará se faz mesmo sentido esse modelo.

O “crowdfunding” mantém o frescor da inovação no modelo de compactos, em que a empresa se consolida. Para quem tinha dúvidas sobre a crença de Frankel nesse formato, o empresário vai testar novas fronteiras. Até agora, o menor de seus apartamentos residenciais têm 19 metros quadrados.

“O modo de vida que nós propomos não é exclusivo de uma classe social”, explica Frankel. As menores unidades poderão ser compradas a partir de R$ 99 mil.

É com essas novidades que Frankel espera tornar o ano menos difícil. “Não é que não sentimos a crise. Claro que sentimos. A meta previa oito lançamentos e devemos realizar só a metade.”
Mas ele espera, com as inovações, manter em 2015 a sua média histórica de velocidade de vendas – 50%. No ano passado, mesmo já difícil, a companhia conseguiu: lançou R$ 450 milhões e vendeu R$ 220 milhões.

Poucos dias após comprar o terreno em que o projeto será erguido, a apenas dez metros da faculdade, Frankel recebeu uma mensagem pelo Facebook do vice-presidente da ESPM, interessado em conhecê-lo, para uma simples conversa, uma troca de ideias.

O dono da Vitacon respondeu prontamente e brincou dizendo: “na vida nada é por acaso”. E falou da compra do terreno vizinho, pensando só me deixar a conversa descontraída. Tudo seguiu naturalmente. Marcaram um almoço e a empatia foi instantânea.

Antes do tradicional café, Frankel contou sobre o sonho de fazer um projeto universitário. O vice-presidente da ESPM gostou da ideia e rapidamente fizeram a coisa acontecer.

Inspirado no modelo das universidades americanas, onde os jovens moram, o prédio terá espaços planejados para pesquisa, áreas de convivência, trabalho, estudo e desenvolvimento de projetos. Os moradores terão acesso apenas com crachá da universidade, pois será exclusivo para esse público.

Matéria publicada pela jornalista: Graziela Valenti do Valor Econômico em 10 de outubro de 2015