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APELO ARTESANAL MARCA 40ª EDIÇÃO DA SPFW

16/11/2015

O universo da moda - com seus desfiles, modelos e campanhas estonteantes - é um dos assuntos que mais geram desejo entre os simples mortais. Mas, criar e renovar esse desejo a cada nova estação é sempre um desafio para quem vive dessa indústria. Para o diretor criativo da São Paulo Fashion Week (SPFW), Paulo Borges, o segredo está em provocar o olhar. Afinal, a moda é feita por e para as pessoas. Foi apoiada nessa premissa que a SPFW chegou a 40ª edição, ocasião em que comemorou os seus 20 anos. Grifes e estilistas independentes apresentaram as suas coleções para a temporada de outono-inverno 2016, no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, no mês de outubro. O lema desta edição era o fazer artesanal que, de acordo com Borges, marca a nossa identidade de povo miscigenado. "É o momento de realizarmos um autorreconhecimento, colocar luz sobre os nossos processos, mostrar o nosso sotaque", diz.

A semana de moda foi aberta por Alexandre Herchcovitch, que apresentou a sua coleção na Prefeitura de São Paulo, no Viaduto do Chá. Depois, os estilistas Reinaldo Lourenço, Samuel Cirnansck e Helô Rocha apresentaram as suas criações, juntamente com as marcas Apartamento 03 e Coven.

Entre os destaques, as coleções de Herchcovitch, do estilista Ronaldo Fraga e da marca UMA. O primeiro mostrou uma coleção que contrapõe a inocência e o fetiche, com "looks" ora de apelo sexy, ora cheios de austeridade. O preto e o branco dominam na coleção. A marca UMA também apostou nos tons neutros em sua coleção para o próximo inverno. Mas adicionou pitadas de vinho, cobre e prata, além do preto e do bege rosado. A estética anos 1990, uma das marcas da UMA, puderam novamente ser vistos. Destaque para o relançamento de pochetes e mochilas - acessórios bem de acordo ao apelo urbano que propõe a marca.

Já Ronaldo Fraga apostou em tonalidades mais quentes e fortes, como vermelho e roxo, para falar de amor. A coleção é rica em estampas e texturas, contrapõe o artesanal e o tecnológico, exibindo as complicadas tramas que definem o tema.

Com características autorais, são coleções atreladas aos objetivos da moda. Para o diretor da maior semana de moda da América Latina, a moda é um desejo coletivo de transformação. E também um condutor de inovação que influencia toda a economia e o espaço urbano, além de atrair novos negócios e consumidores.

Os números da SPFW falam por si mesmos. Para a realização das 40 edições, o evento recebeu investimentos que superam R$ 1 bilhão. Mais de 3 milhões de pessoas passaram pela semana de moda, que teve o seu conteúdo transmitido por TV e internet, alcançando mais de 1 bilhão de pessoas em mais de uma centena de países.

O evento faz uso da tecnologia digital e transmite os desfiles pela internet desde 2001. Com 20 anos, no entanto, é hora de voltar a atenção para o lado oposto: o trabalho manual feito por artesãos, bordadeiras, escultores e outros trabalhadores. "O artesanal traz diversidade a um mundo onde as coisas nunca mais serão únicas", diz Borges.

Esse resgate, diz o diretor da SPFW, não tem nada de retrógrado. Pelo contrário. "Diante de um cenário econômico que sofre com o desgoverno, é preciso ajustar, adequar e olhar para frente", afirma. "É hora de investirmos nos processos produtivos, mesmo diante do fato de que nunca um governo brasileiro tenha realmente incentivado a produção de moda".

E para reforçar esse investimento, o evento exibiu mais uma etapa do TopFive, um convênio do Sebrae Nacional com o IN-MOD (Instituto Nacional de Moda e Design). O projeto começou em abril e pretende incentivar o pequeno empreendedor de moda. Cinco pequenas empresas brasileiras foram selecionadas e, durante nove meses, receberão capacitação em diversas áreas como marketing e criação. Nesta edição da SPFW, elas tiveram a oportunidade de exibir e vender os seus produtos na FFW Shop, loja armada dentro da SPFW. A marca que apresentar a melhor performance em todos os aspectos irá realizar um desfile na edição do próximo evento, em maio de 2016.

FOTO: Modelos da UMA, Ronaldo Fraga e Herchcovitch: "Diante do cenário econômico de desgoverno, é hora de investirmos, mesmo que nunca um governo brasileiro tenha realmente incentivado a produção de moda", diz Paulo Borges

Matéria publicada no jornal Valor Econômico