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OFFICINA DELL'INVISIBILE: MÓVEIS REINVENTADOS

09/11/2015

Designer italiana radicada no Rio renova peças de estilo retrô com misturas de tecidos garimpados mundo afora

Certo dia, a italiana Carlotta Oddone olhou para os seus sofás e pensou que era hora de trocá-los. O problema é que ela tinha uma história emocional com eles e não estava conseguindo se desfazer das peças. O motivo de tanto apego ela fica até sem graça de contar:

— Meu segundo filho nasceu em cima de um deles. Foi tão rápido que não tive tempo de chegar ao hospital. Difícil me imaginar vendendo ou doando algo tão importante na minha vida — conta. — O mesmo acontece com a poltrona que me leva ao tempo em que assistia à vovó costurando roupas para as minhas bonecas.

Os dois sofás continuam fazendo parte da decoração da sala da casa de Carlotta em Torino (fica em um prédio tombado do começo do século XX), mas ganharam um estofado novo e colorido. E foi assim que ela, há dez anos, começou a sua Officina Dell'Invisibile, que vende mobiliário e acessórios de artesanato sofisticado. Os tecidos usados são garimpados em pequenas produções, na maioria das vezes. Mas ela abre uma exceção para marcas como Tricia Guild (”Por conta das cores incríveis”) e Rubelli (“Por causa da qualidade e da história italiana”).

— Cada um dos meus clientes italianos me contava uma história e, assim, eu transformava a peça — explica.

O trabalho de Carlotta se espalhou quando uma amiga tirou fotos de sua casa e a revista de decoração “Grazia Casa" pediu para publicar.

— A partir disso, uma agência especializada em fotos de decoração, a Living Inside, me procurou. Foram feitas novas fotos e as coisas começaram a voar. Eu abandonei a minha profissão (era jornalista e cronista do jornal “La Stampa") e dei início à oficina — lembra ela, que, além de poltronas, sofás e almofadas, faz cortinas, toalhas de mesa, lençóis de cama e colchas.

O interesse por ambientes bem decorados vem de muito tempo. A primeira lembrança que tem de decoração a leva para a casa de campo da família, onde seus pais passaram horas pregando quadros na parede.

— Lembro de ficar impressionada com a demora e o cuidado. Mas, quando terminaram, compreendi que tudo na decoração pode ficar feio ou bonito dependendo do olho, do gosto, do cuidado, da criatividade — lembra ela, que aos 13 anos começou a brincar com tecidos. Quando ganhou uma máquina de costura antiga, daquelas de pedal, se empenhou em cortar e costurar aplicações em cortinas e na colcha do quarto. — Não ficou uma maravilha, mas eu já tinha uma ideia clara do que era personalizar objetos.

Seus móveis conquistaram Torino (até na casa do prefeito tem peças dela), foram publicados em revistas como “Elle”, “Schoner Wohnen” e “Divaani” e ainda em projetos para as empresas WhatsApp e Skype. Além de vender em lojas na Itália, os móveis da Officina Dell'Invisibile estão, agora, no Rio, onde ela montou a sua segunda casa: na loja do Luiz Salvador, em Itaipava, e na Conceito All, no Casa Shopping.

Com a vinda para cá, Carlotta selou parceria com o brasileiro Armando Assumpção, que desenha algumas peças para a marca.

— O modelo pode se repetir, mas os tecidos sempre mudam. Eu gosto muito da poltrona Libreria que tem um espaço embaixo para colocar livros. É uma das que mais vende — garante ela que fica metade do ano na Itália e montou uma equipe de artesãos também no Brasil. — Conto com estofadores em Itaipava e bordadeiras em Minas. Estou montando uma produção ítalo-brasileira que me permita ficar um pouco aqui e um pouco lá. Desejo muito levar para lá uma parte do que faço aqui. Principalmente os lençóis assinados por mim, mas costurados e bordados pela equipe. O projeto é lindo e na Itália este tipo de mão de obra não existe mais. Virou algo muito valorizado.

FOTOS: Os ambientes coloridos da Officina Dell'Invisibile, no Rio de Janeiro

Matéria publicada no jornal O Globo