English Version

ARTESANATO PARA FAZER RENDA

23/10/2015

Executiva cria plataforma virtual para conectar artesãos com consumidores e impulsionar a atividade no Brasil

Sonia Quintella de Carvalho diz que "vem do mercado" enquanto brinca com as bolinhas do colar de crochê. A administradora de empresas com pós-graduação em marketing foi diretora de unidade de negócios da Alpargatas, diretora-geral da Triumph e diretora-geral da Gucci no Brasil, mas não faz o estereótipo da executiva de tailleur. "Sempre fui apaixonada por isto aqui", diz, beliscando o vestido vermelho de renda renascença das artesãs de Poção, em Pernambuco. "São dez mil rendeiras ali", entusiasma-se, enquanto conta planos para fazer que o artesanato ganhe valor no Brasil.

Sonia e sua equipe lançam hoje a Rede ArteSol, uma plataforma virtual para conectar artesãos com consumidores e impulsionar a atividade. A rede apresentará o trabalho e o perfil de cem grupos de artesãos no primeiro ano de funcionamento. A intenção é chegar a mil grupos em 2020. A ArteSol dará acesso livre a quem quiser conhecer os artistas, seus métodos de trabalho e história, materiais e endereço. "Não cobraremos nada pela gestão de negócios de cada grupo, além de fazer a ponte com lojistas, galeristas, ONGs e instituições", diz.

A paixão pelo artesanato brasileiro vai além da renda e dos colares de fibra de tucum ("Com tingimento natural feito por um grupo indígena de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas"). Na sala de seu apartamento em São Paulo, bonecas de barro do Jequitinhonha estão aninhadas no canto ensolarado, há belas mantas de tear sobre o sofá e mamulengos esparramados na mesinha. "Veja a riqueza que temos e que o Brasil não valoriza", afirma, inconformada. "Como pode ter milhões de brasileiros que complementam sua renda do Bolsa Família com artesanato e não existem políticas e incentivos para impulsionar a atividade?"

A Artesol - Artesanato Solidário começou em 1998 como um programa de governo idealizado por Ruth Cardoso para combater a pobreza em regiões de seca. Em 2002, o projeto tornou-se Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, uma Oscip. A antropóloga ficou à frente do organização até morrer, em 2008.

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2009, havia 8,5 milhões de artesãos no Brasil. O artesanato movimentaria mais de R$ 50 bilhões e em 64% dos municípios brasileiros há artesãos. "Estamos falando de uma economia muito informal, não há dados atuais. Mas achamos que é um mercado muito maior", diz Sonia. "Nosso artesanato é lindo e tem potencial econômico incrível", afirma.

Ela lembra que 90% dos artesãos são mulheres que fazem suas peças para complementar a renda que recebem com o Bolsa Família. "O artesanato no Brasil não é valorizado como identidade cultural, não tem política pública nem crédito especial", diz. Segundo ela, os problemas são variados. O artesão pode emitir nota sem recolher imposto, mas para isso tem que ir à Secretaria da Fazenda mais próxima, mas muitos vivem em zonas rurais e a mobilidade é complicada. Alguns incentivos a produtores rurais ou microempreendedores, embora interessantes, são mal divulgados ou têm limites de renda que deixam o artesão inseguro.

"Eles temem entrar em um programa e perder, por exemplo, o direito ao Bolsa Família", afirma a presidente da ArteSol. "O governo tem interesse em migrar pessoas do Bolsa Família para atividades empreendedoras. O artesanato já está pronto. É só valorizar e desenvolver políticas e programas que incentivem o trabalho dos artesãos. Mas esse tema não entra sequer nas campanhas eleitorais. Os artesãos estão completamente perdidos. É de uma miopia..."

A ArteSol tem vários projetos com a Unesco para alavancar o artesanato brasileiro. A entidade trabalha com antropólogos para estudar as raízes dos grupos e desenvolver toda a identidade cultural das regiões. Já capacitaram 120 grupos de artesãos no Brasil.

Outro trabalho é ajudá-los a formar associações ou cooperativas e depois fazer a gestão do produto. Designers ajudam no acabamento, mas não interferem na produção das cerâmicas, tecelagens e bordados. "Toalhas de renda podem ser caras, então pedimos que as artesãs fizessem também jogos americanos, para ter mais diversidade", conta Sonia. "Mas o primeiro jogo americano que chegou, cada um era de um tamanho. Ajudamos a padronizar."

Depois é preciso ajudar os artesãos a dar às peças um preço justo que valorize seu trabalho. O custo da matéria-prima, a mão de obra e a margem própria devem ser computadas para montar o preço ao lojista ou consumidor. "Eles não sabem o valor que seu trabalho tem e isso é triste. Quando falamos a eles o preço, às vezes temem não conseguir vender." Uma toalha de renda renascença, por exemplo, leva dois meses para ficar pronta. "Não faz sentido cobrar por essa peça menos que dois salários mínimos, fora a linha", diz Sonia.

A ideia da plataforma virtual é criar integração entre todos os artesãos espalhados no país e os poucos lojistas de artesanato. A intenção é dar saltos e conseguir comercializar os produtos em eventos de moda, lojas de decoração e de artigos utilitários. Na próxima edição do São Paulo Fashion Week, o artesanato será o mote. "O artesanato colombiano, chileno e mexicano são fortes porque os governos promovem. Em países africanos acontece um forte incentivo, isso estimula os artesãos, que fazem coisas lindas. Temos que seguir esses passos aqui também."

Nos próximos meses a ArteSol lança quatro produtos. A plataforma virtual é o primeiro deles. Uma loja será aberta em São Paulo e outras em centros históricos como Paraty, Olinda, Ouro Preto e Tiradentes. A outra iniciativa será lançar viagens culturais. Uma delas será pela Amazônia, em barco com conforto e que valorize a culinária regional, os ingredientes, os peixes e as populações locais. "Queremos que as pessoas voltem encantadas pelo rio Tapajós ou pelo rio São Francisco, conhecendo esses lugares maravilhosos e as comunidades que vivem ali", afirma.

O plano ideal da ArteSol (que é mantida pelo grupo Iguatemi) consiste em mapear toda a cadeia produtiva do artesanato brasileiro e chegar até o monitoramento das entregas aos mercados e fortalecer os artesãos. "Imagine um grupo onde 60 famílias produzem cem banquinhos e vendem apenas para um lojista. Se ele parar de comprar, sem nenhum aviso, aquele grupo ficará sem renda", explica Sonia. "Nossa ideia é montar um ciclo virtuoso. O mais importante é o desenvolvimento econômico desses grupos de artesãos."

Matéria publicada no jornal Valor Econômico

FOTO - A artesã Isabel Mendes da Cunha e Sonia Quintella, no Vale do Jequitinhonha