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VARIEDADE DA ARQUITETURA E 'CAOS' URBANO SE DESTACAM NO JAPÃO

22/10/2015

O encanto turístico do Japão não vem de ícones como a torre Eiffel, na França, ou o Cristo Redentor, no Brasil. A inusitada mistura de caos, organização, gentileza, concreto, cosmopolitismo e exotismo é que atraem turistas. Respeitado crítico de arquitetura, o embaixador do Brasil no Japão, André Corrêa do Lago, diz que há um "caos estético" nas cidades japonesas, onde convivem obras de primeira grandeza e construções de gosto duvidoso. Para ele, entusiasta da arquitetura nipônica, o país surpreende justamente por não evidenciar o óbvio.

"Aqui, o bom é a alternância do sublime e do banal, mais surpreendente do que vemos na Europa, onde visitamos prédios lindos em bairros lindos de cidades lindas. Não existe no Japão essa ideia de conjunto onde tudo é bonito", diz Corrêa do Lago, que vive em Tóquio há dois anos. Comparável à unidade estética das cidades europeias há as ruas de Kyoto ou Kanazawa, que, segundo ele, são "para inglês ver, 'disneylândicas'".

Na região nobre de Omotesando, em Tóquio, é difícil encontrar entre os fios de alta tensão algum ângulo para fotografar os prédios da Prada e Miu Miu, de Herzog & De Meuron; da Dior, de Kazuo Sejima; da Tod's, de Toyo Ito, ou o Omotesando Hills, de Tadao Ando - obras-primas financiadas pelas grifes do luxo ocidental.

Há obras únicas pelo país, mas, pela diversidade de opções e por tantos paradoxos, visitá-las exige um bom planejamento. Não há um guia de arquitetura moderna e contemporânea do Japão, segundo Corrêa do Lago. Ele, no entanto, recomenda "Architectural Guide Japan", de Botond Bognar, que considera excelente no critério, mas menos útil para montar os roteiros. Não se devem dispensar, portanto, as exaustivas pesquisas na internet.

Entre as descobertas da arquitetura japonesa, a ilha de Naoshima tornou-se uma das mais surpreendentes por uma série de razões, entre elas a história de seu projeto de revitalização, que transformou a paisagem degradada em um imenso parque com museus a céu aberto – e as consequências evidentes sobre a vida na região, com impacto sobre a natureza e o bem-estar da sociedade local.

Para tornar a antiga ilha degradada, igual a tantas outras, em um lugar atraente para justificar o longo trajeto a partir de Tóquio ou Osaka, e mais ainda do exterior, a arquitetura tinha que se destacar. "A arquitetura de qualidade chegou na área pelo projeto. É uma mudança tão radical que no papel parecia uma loucura", diz. Há outras experiências semelhantes a Naoshima no próprio Japão. A região onde neste ano ocorre a Trienal de Arte de Echigo-Tsumari é um exemplo.

Para quem é brasileiro, não há como não pensar em Inhotim, em Brumadinho (MG), quando se fala em Naoshima e museus ao ar livre, apesar de serem projetos diferentes, em contextos e objetivos diversos. Corrêa do Lago destaca a qualidade das obras do instituto cultural brasileiro e a relação com a comunidade local. "A arquitetura [de Naoshima], no entanto, não se compara", diz o embaixador.

Nas três ilhas do conjunto de Naoshima há projetos de Tadao Ando, Kazuyo Sejima e Sou Fujimoto. Em Inhotim, ainda não há um hotel de muito destaque na área, enquanto Naoshima tem quatro hotéis projetados por Ando. Para Corrêa do Lago, há várias direções na arquitetura japonesa, com seus mestres dos diferentes materiais (concreto, madeira, metal e novas tecnologias), bons em grande e pequena escala. "É difícil de acreditar que existam tantos arquitetos bons e que tantas obras magníficas possam ser construídas em tantos lugares do país", afirma o embaixador.

FOTO: Uma das instalações de Naoshima

Matéria publicada no jornal Valor Econômico