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CRIATIVIDADE DEVE SER ESTIMULADA MESMO EM TEMPOS BICUDOS, DIZ JOHN HOWKINS

15/10/2015

Para o consultor John Howkins, não é possível deixar a estratégia de lado até que a economia comece a se recuperar

Em um cenário de crise dominado pelo pessimismo, uma das primeiras vítimas dentro das empresas é a disposição para assumir riscos. Termos como criatividade e inovação, que por muito tempo tiveram lugar de honra no discurso de executivos, passam a ficar em segundo plano enquanto a companhia promove ajustes e os funcionários temem pelo próprio emprego. Embora comum, essa perspectiva precisa ser combatida.

Essa é a opinião de John Howkins, autor do livro “Economia Criativa: como ganhar dinheiro com ideias criativas” e um dos maiores especialistas do mundo no tema. “Em uma economia fraca, é mais difícil incentivar a criatividade, pois as pessoas têm menos apetite por risco. Mas é justamente nesse momento que isso se torna mais importante”, diz. Para ele, setores tradicionais da economia hoje precisam desenvolver a criatividade se quiserem ser competitivos e, para isso, podem aprender com indústrias criativas como artes e entretenimento.

O britânico Howkins, que atua como consultor em diversos países, estará no Brasil na próxima semana para um evento no Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo, e conversou com o Valor por telefone. O especialista foi nomeado “mentor criativo” da instituição de ensino, para a qual vai dar aulas, promover workshops e agir como consultor junto a alunos e professores.

Na definição do especialista, a economia criativa é a aquela que usa ideias para agregar valor. Apesar de ser mais visível em setores como o da produção cultural, já faz algum tempo que usar a criatividade para gerar inovação está entre os objetivos de empresas de diversos setores. “Para ser competitivo e crescer de forma sustentável, é precisa usar a criatividade das pessoas de todas as maneiras possíveis, em todos os segmentos da economia privada e do setor público”, diz.

Em um mundo que muda em ritmo intenso, não é possível deixar essa estratégia de lado para retomá-la apenas quando a economia melhorar. “Você terá ficado tão para trás que será difícil alcançar os outros”, diz. Em sua opinião, as empresas mais bem-sucedidas hoje são aquelas que buscam se imergir em criatividade e inovação criando novos ativos, vendendo para novos mercados e desenvolvendo novas estratégias de preço. “Não é só uma questão de usar a criatividade para melhorar produtos e serviços e sim para mudar a forma de trabalhar e pensar”, diz.

Para isso, um tipo diferente de gestor é necessário. Howkins destaca uma frase de um estudo realizado pela empresa de tecnologia IBM: “Os líderes do futuro precisam se sentir confortáveis com a ambiguidade”. “Isso não é algo que normalmente se associa aos executivos do passado, que eram muito dominantes e quase arrogantes na sua visão do que é melhor para a companhia”, explica. Para sobreviver no mercado atual, é preciso estar mais ciente das diferenças de opinião dentro da empresa. “Também é necessário mais ênfase na colaboração entre pessoas com diferentes formas de pensar”, diz.

O clima organizacional é fundamental para fomentar esse tipo de atitude, da mesma forma que o ambiente cultural e social de uma cidade propicia o desenvolvimento de ideias. É o que Howkins chama de “a ecologia certa”. “Você precisa estar em um lugar onde ter ideias é considerado normal e esperado, mas também onde muitas outras pessoas também estão fazendo isso.”

Na opinião do especialista, todos nascemos criativos, basta observar uma criança brincando com um amigo imaginário para perceber isso. “Normalmente, a criatividade é reprimida quando vamos para a escola. Algumas pessoas a mantêm, mas para usá-la é preciso trabalhar duro e adquirira habilidades técnicas.”

Em uma organização, mais do que simplesmente ter diversidade – de gênero, etnia e pontos de vista – Howkins defende que é preciso saber administrá-la para se adaptar a uma economia que se transforma com rapidez. “Os recursos necessários para o trabalho mudam o tempo todo e novos desafios exigem diferentes conjuntos de habilidades”, enfatiza. Ser mais aberto para profissionais de fora da organização, que possam trabalhar de forma temporária em projetos, também é uma alternativa.

A ênfase em colaboração, porém, não significa que a competição se torna menos agressiva. “A economia criativa é intrinsicamente mais competitiva do que as outras”, diz. Um profissional criativo sempre estará em busca de melhorar o próprio trabalho e precisará entregar algo inovador para satisfazer o mercado.

Um ambiente com esse perfil, que lida com ativos intangíveis, exige capacidade de negociar constantemente. “Como pegar uma ideia que é basicamente nada e convencer os outros de que ela tem valor, mas sem abrir mão do controle?”, exemplifica. Atualmente, ele está trabalhando com uma escola de negócios americana no desenvolvimento de uma disciplina sobre o tema.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em setembro de 2015