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PROJETO ORIGINAL UNE CASA E ESCRITÓRIO EM SÃO PAULO

21/09/2015

Embaixo: casa. Em cima: escritório. Erguido em duas etapas, este projeto em São Paulo resolve com equilíbrio e maestria o dilema entre morar e trabalhar

Pense numa casa aberta, receptiva, cheia de luz. A entrada oficial é pela lateral da garagem, mas quem leva isso, assim, tão a sério? Todo mundo costuma rumar do portão diretamente para o jardim e dali chegar à sala, escancarada por meio dos grandes painéis envidraçados de correr, quase sempre retraídos. Nos dias de festa – e eles são muitos na vida do casal Carla Meireles e Luis Pinheiro, pais da pequena Violeta – ninguém fica sem lugar para sentar. O próprio piso do térreo (um prisma de concreto armado, com laje maciça e vigas invertidas, solto a 45 cm do chão), forma uma espécie de banco de ponta a ponta. Outra parte dos convidados se esparrama pelo gramado mesmo, intencionalmente extenso. “A topografia era bastante irregular. Para deixar o terreno o mais intocado possível, elevamos a construção, marcando bem o que é residência e o que é jardim”, relata Gustavo Cedroni, autor da obra em parceria com Martin Corullon e Anna Ferrari, os três do Metro Arquitetos Associados.

Para os proprietários, essa ampla área externa em comunicação com os ambientes era tão importante como o resto. “Ocupamos apenas um terço do lote de 520 m². Sobrou um vasto recuo verde”, diz Gustavo. O trecho com estar, quartos, cozinha e lavanderia surgiu numa primeira etapa da obra, em 2012. Dois anos depois, após uma pausa para o nascimento da bebê, ficou pronto o de cima, caixa metálica que forma um T com o pavimento sob ela. “A estratégia exemplifica o conceito do projeto de volumes complementares, mas com usos independentes”, afirma Martin.
Com jeito de contêiner, o caixote abriga o escritório. O acesso se dá pela escada lateral, posicionada de maneira a não perturbar a privacidade cotidiana. Ah, e esse volume precisava ser leve a fim de minimizar o peso sobre a laje. Daí sua estrutura de aço, fechada com blocos de concreto celular revestidos externamente de chapas galvanizadas. Suas extremidades em balanço atuam como beiral para o estar (na frente) e para a lavanderia (atrás), solução que parece resumir a veia racional de todo o traçado.

“É mágico sentir a arquitetura funcionando – caso das aberturas interligadas para a circulação de ar e das entradas de luminosidade”, diz Carla. Uma destas vem dos fundos da cozinha pela superfície envidraçada voltada para o muro branco, o qual rebate a claridade para o interior. “Com essa transparência, enfatizamos a sensação de amplitude. Sem paredes, o olhar alcança maior profundidade”, explica Martin. Mérito de uma casa aberta, receptiva, cheia de luz.

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em maio de 2015

Foto 01 - Chapas de aço revestem a caixa superior, que abriga o home office dos moradores, um casal de cineastas. O trecho em balanço (1,80 m) oferece sombra e proteção contra a chuva à entrada da sala, no térreo. Projeto Metro Associados

Foto 02 - Implantação esperta: longilíneo, o térreo ocupa o trecho junto ao muro dos fundos, onde o terreno alcança o comprimento maior. Com isso, obteve-se mais área de jardim na porção da frente. Área: 190 m²; Arquitetos colaboradores: Alfonso Simélio, Bruno Kim, Luis Tavares e Marina Ioshii;Estrutura: MK Projetos Estruturais; Instalações: PKM e Usina Consultoria e Projetos; Serralheria: Camargo e Silva Esquadrias Metálicas; Marcenaria: Alexandre de Oliveira.

Foto 03 - Ponto de equilíbrio: a parte de cima se apoia no térreo. Um pilarete metálico faz a transição das vigas de concreto de baixo para o vagão metálico de cima, descarregando o peso deste. “Pensamos na modulação exata dos espaços. Com o dobro do tamanho de cada quarto, a sala conta com um pilar. Essa lógica rigorosa permitiu utilizar tal eixo de estrutura para amparar a caixa superior”, detalha Martin. 1. Pilarete metálico de transição. 2. Viga metálica do piso superior. 3. Viga invertida de concreto. 4. Laje de cobertura do térreo

Foto 04 - Os acabamentos se mostram como são: paredes e teto de concreto da própria estrutura, piso de tábuas de cumaru e caixilhos de aço. Cadeiras de jantar da Etel e objetos da Benedixt. Projeto Metro Associados.

Foto 05 - As áreas molhadas se concentram numa espécie de terceiro bloco, comprido, no fundo da planta. Cozinha e banheiros têm o mesmo piso de ladrilho hidráulico (Dalle Piagge). Projeto Metro Associados.

Foto 06 - O desenho deixa evidente a sobreposição, simbolizando a autonomia dos andares. A passagem de um para o outro se dá pela escada, isolada lateralmente. “Para reforçar essa independência, há uma pequena fresta de 15 cm de altura entre eles”, afirma Martin. Projeto Metro Associados.

Foto 07 - Vê-se nesta fachada lateral a clara divisão entre a área dos quartos (volume de concreto, à esq. do corredor) e a dos banheiros e da cozinha (bloco branco, à dir.). Projeto Metro Associados.

Foto 08 - O painel de vidro do escritório emoldura a copa das árvores. Feitos sob medida pela Camargo e Silva Esquadrias Metálicas, os caixilhos de aço são mais esbeltos do que os modelos-padrão de alumínio do mercado. Piso de concreto armado polido. Poltrona da Etel. Projeto Metro Associados.

Foto 09 - Assim como todos os ambientes do térreo, a suíte do casal dá diretamente no jardim. Resultado do trabalho artesanal de serralheria e marcenaria, o fechamento dos quartos combina perfis de aço com três folhas: de vidro por dentro, de veneziana por fora e um painel cego de freijó no meio. “Com isso, conseguimos ter quadros maiores seguindo o pé-direito inteiro, além de leveza visual”, diz Martin.

Foto 10 - No banheiro do casal, convivem o concreto moldado do forro e da bancada, o ladrilho hidráulico do piso (Dalle Piagge) e as antigas pia e banheira de demolição. Projeto Metro Associados.