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UNIDOS PELA MOBILIDADE

16/09/2015

Imersos no brilho de pequenas telas, os usuários de redes móveis participam ativamente das transformações sociais e econômicas trazidas pelo avanço da mobilidade em todo o mundo. O número global de acessos à telefonia sem fio ultrapassa os sete bilhões. Só no Brasil são 282 milhões de celulares ativados. De acordo com a União Internacional das Telecomunicações, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), o serviço de banda larga móvel já é utilizado por 2,3 bilhões de pessoas. A estrutura sem fio tem sido responsável pela rápida disseminação de ferramentas, sistemas e serviços, encorpando o número de habitantes conectados à internet. É ela quem liga à sociedade da informação desde executivos até agricultores instalados em locais ermos e populações urbanas em áreas de risco.

A capilaridade da rede é o principal fator para a expansão da mobilidade. Na economia, a conectividade resultante do processo tem aberto portas para empreendimentos inéditos, criado ruptura em modelos de negócios, melhorado o controle corporativo, a produtividade, o engajamento da sociedade e modificado a relação entre empresas e consumidores. "A comunicação móvel é conveniente e atrai usuários em todas as classes sociais. É um fator importante para a democratização da tecnologia e estímulo à inovação", diz Tiago Spritzer, líder de mobilidade da IBM para a América Latina.

O alcance da tecnologia é primordial para obter os ganhos da sociedade da informação. Entre eles, a melhor gestão e agilidade para criar estratégias eficientes em políticas públicas e ações comerciais. "Além de conectar pessoas, os dispositivos ligados às redes sem fio permitem que empresas e governos tenham acesso a elas, saibam onde estão", resume Guilherme Lichand, sócio da MGov Brasil, consultoria em gestão de políticas públicas e ações de impacto social.

A startup brasileira é um exemplo de negócio que surgiu com a mobilidade. A empresa desenha soluções baseadas no uso das redes celulares, incluindo tecnologia de segunda geração (2G) e redes analógicas. Entre os clientes estão a Fundação Lemann e fundos de investimento social ligados à Fundação Bill e Melinda Gates. "A ampla adoção do celular criou um canal de comunicação rápido e de baixo custo", diz Lichand.

Entre março e junho, a MGov analisou - sob coordenação de pesquisadores das universidades norte-americanas de Harvard e de Warwick - os impactos da estiagem para os agricultores familiares do sertão do Ceará. A ação envolveu a captura de dados e envio de informações para quatro mil famílias que sofrem com a seca na região. As análises municiam estratégias de assistência na região.

A coleta e envio de informações foi realizada por meio de ligações telefônicas automáticas - realizadas por unidades de resposta audível (URAs), as mesmas máquinas utilizadas em larga escala, por exemplo, nos atendimentos telefônicos do setor financeiro. Programados para obter respostas e disseminar informações, os equipamentos substituem os pesquisadores no campo. "O uso da voz nos ajuda a chegar aos agricultores analfabetos, incluindo as demandas dessa população nas estatísticas", diz Lichand.

Sem o avanço da rede de telefonia celular, a MGov não chegaria ao sertão cearense, também não desenharia ações como as de avaliação de serviços públicos em favelas e o engajamento dos pais de alunos de escolas públicas - ambas em andamento na empresa. "O custo da pesquisa em populações distantes, ou em áreas de risco, é muito grande. Nossa estimativa é que o uso da telefonia móvel reduza os gastos com entrevistas em mais de 50%", diz Lichand.

Para as empresas, o alcance da mobilidade também traz informações valiosas sobre seus clientes. "Com o apetite voraz dos consumidores por maior comodidade e conectividade, será possível transferir cada vez mais funções de atendimento ao cliente", descreve Nuno Gomes, sócio da consultoria Strategy&. Além de reduzir custos operacionais com a oferta de aplicativos para autosserviço, as empresas coletam dados sobre a localização, hábitos de consumo e preferências dos usuários.

O acesso corporativo a essas informações está rompendo com modelos de negócios, como é o caso do mercado de mídia. "A internet móvel captura o orçamento publicitário, antes destinado à TV, para as telas dos celulares", explica Renato Carneiro, presidente da 2S, integradora de soluções de tecnologia. Segundo ele, a conectividade total - e o auto-serviço - são iscas para que o consumidor entregue aos departamentos de marketing informações sobre seu perfil, hábitos de compra, navegação na internet e consumo. "Em São Paulo, quando um usuário acessa a rede sem fio disponível gratuitamente nos ônibus, está se conectando a um sistema de coleta de dados."

As empresas são capazes de conhecer melhor seus clientes e direcionar as ações de marketing e vídeos de propaganda. "Para acessar a internet, o consumidor precisa assistir a um vídeo em seu celular e, se ele é usuário habitual daquela linha de transporte, a empresa já sabe do que ele gosta e o que apresentar em sua tela", diz Carneiro.

Para ele, essa aparente invasão de privacidade não incomoda quem valoriza a conectividade total. "A nova geração gosta de compartilhar, de informar onde está e de estar presente nas redes sociais. Estamos diante de um novo conceito de privacidade e as empresas terão de ser cuidadosas para achar os novos limites nas relações com seus clientes", avalia Carneiro.

Marcia Ogawa, sócia-líder para o atendimento à indústria de tecnologia, mídia e telecomunicações da Deloitte no Brasil, lembra, no entanto, que a mobilidade também traz desafios importantes: "Como o poder está nas mãos do consumidor, ele utiliza o serviço, compra um produto, avalia e compartilha suas impressões imediatamente, de onde estiver".

Segundo ela, a transformação nos modelos de negócios será tão profunda que as empresas terão de buscar novas formas de atuação. Já os governos devem agir para regulamentar rapidamente os serviços que surgirem. "A vantagem competitiva das empresas e do país depende de capacidade de absorção da tecnologia. As inovações sociais e econômicas comandarão a ruptura e promoverão desenvolvimento sustentável", afirma.

Em uma sociedade altamente conectada, tentar deter serviços como o Uber, que estabeleceu novos padrões para os serviços de táxis, sempre será uma tarefa árdua, uma vez que os usuários das redes móveis têm liberdade para compartilhar informações de localização, baixar aplicativos e utilizar ferramentas que facilitem suas vidas. Os especialistas não entram na polêmica sobre a proibição do aplicativo, mas avisam que o surgimento de novos modelos de negócios é inevitável em todas as áreas. O uso do Uber tem sido questionado em vários países. Para eles, em vez de simplesmente proibir, é preciso avaliar como a tecnologia pode melhorar o serviço de transporte para o usuário final. "O setor tem de ser ágil para se adaptar a essa demanda por qualidade, sinalizada pelo próprio consumidor", aconselha Gomes, da Strategy&.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em agosto de 2015 (por Ediane Tiago)