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PELA REINVENÇÃO DE DETROIT

14/09/2015

Iniciativas locais e projetos de ocupação de espaços vazios vêm tentando reanimar a cidade americana, que quer deixar para trás seu desacreditado modelo urbano

Detroit é fascinante. Antes de conhecê-la, eu tinha uma imagem negativa da Motor City. Ouvia falar de lá como lugar fantasma, com prédios abandonados, casas em ruínas e regiões assombradas por altos índices de violência. Quando saí da superdensa paisagem nova-iorquina e cheguei ali, o contraste foi enorme. Encontrei vias amplas, esparramadas e silenciosas desafiando minha percepção de espaço, tempo e escala. Vi edificações imponentes, como os célebres Guardian Building e Fisher Building, ambos do final dos anos 20 e de fachada e lobby sofisticados, herdeiros do auge da indústria automobilística. Também deparei com prédios da mesma magnitude completamente desabitados e poucas pessoas passando pelas ruas e avenidas. A atmosfera vem carregada de melancolia. Por outro lado, basta um tantinho de atenção para ouvir certo murmúrio pelos cantos, como se algo estivesse para acontecer. E, de fato, está.

O motivo de minha viagem foi um projeto resultante da parceria entre a escola parsons The New Scool for Design, a consultoria Ideo e a organização Knight Foundation. A tarefa de nosso grupo de estudantes de mestrado e designers consistiu em colaborar com uma iniciativa local chamada Brick + Beam Detroit, criada para incentivar processos de revitalização para além da simples demolição. Na contramão da tendência de pôr no chão os imóveis degradados, o objetivo era levantar o tema e contribuir para a cultura do faça você mesmo. Em maior proporção, além de dar poder à população, a proposta busca preservar o altíssimo valor histórico da cidade.

Durante nossa estadia, organizamos um evento para compartilhar experiências e visitamos reformas bem-sucedidas. Há lindos exemplos, principalmente aqueles que destacam as fachadas antigas e conferem outro sentido a elementos industriais. Ficou evidente a formação de uma comunidade sólida, disposta a reviver a imagem local com base em seus patrimônios material e imaterial. O esforço principal? Ocupar pontos ociosos de forma criativa. Não é a primeira vez que o município enfrenta tempos difíceis e se reinventa. Sem romantizar, Detroit provoca e desafia a construção da própria sorte.

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em junho de 2015 (por Isabella Von Mühlen Brandalise)

Fotos: Detroit e suas construções antigas e ociosas; abaixo, o grupo Brick + Beam Detroit durante apresentação