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UMA NOVA PARIS

10/09/2015

Brasil participa de concorrência para operação de urbanismo na capital francesa, cuja palavra de ordem é inovação

Prédios totalmente construídos com materiais reciclados, o que inclui o cimento, ou que integram o conceito de "agricultura urbana", com estufas, que permitirão aos moradores terem sua horta. Esses são apenas alguns exemplos dos inúmeros projetos apresentados por arquitetos do mundo todo, inclusive do Brasil, na concorrência lançada pela prefeitura da capital francesa para "reinventar Paris", como é chamada a nova operação de urbanismo, na qual a palavra de ordem é "inovação", o principal critério na escolha dos vencedores.

"Os projetos serão selecionados em virtude da inovação e de sua utilidade e não em relação ao preço oferecido. É a primeira vez que é lançada uma concorrência desse tipo, em que as novas ideias são mais importantes do que quem vai pagar mais", afirma Jean-Louis Missika, adjunto da Prefeitura de Paris - equivalente a secretário municipal -, responsável pelo urbanismo, arquitetura e desenvolvimento econômico da capital francesa. Na prática, foi dada carta branca aos interessados para "inventar o urbanismo do século XXI" na cidade. "Os modos de vida mudam em grande velocidade e os prédios devem se adaptar a isso", diz Missika.

O Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem), organização não governamental sediada em São Paulo, é um dos concorrentes do projeto. Com parceiros da iniciativa privada, o Urbem é o único competidor brasileiro no evento, entre grupos de 15 países, como Alemanha, Japão e Holanda (leia mais na pág. 20). A concorrência foi lançada em 23 áreas em Paris, localizadas em nove distritos, os "arrondissements". A oferta de áreas, que totalizam cerca de 150 mil m2 de construção, é bastante variada: subestação de energia, estação ferroviária abandonada, prédios históricos que eram antigas residências de nobres (os chamados "hôtels particuliers") e também terrenos vazios, que ainda existem em zonas mais periféricas da cidade. O consórcio brasileiro coordenado pelo Urbem apresentou propostas para 12 áreas.

"Não há uma cidade no mundo que tenha ousado o que estamos fazendo agora. Estamos vivendo um momento histórico", declarou a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, ao apresentar o projeto Réinventer Paris a cerca de 200 arquitetos e empreendedores imobiliários em novembro. Na primeira fase, em janeiro, foram apresentadas 815 candidaturas e 650 foram aceitas.

Desse total, 372 passaram à ação, em maio, com propostas oficiais. A seleção final será feita por um júri internacional, que anunciará os vencedores em janeiro. As obras poderão começar em seguida, segundo a prefeitura.

Críticos costumam dizer que diferentemente de cidades como Londres, por exemplo, Paris se tornou ultrapassada, congelada no tempo, com muitos prédios históricos e monumentos emblemáticos, sem grandes inovações arquitetônicas desde a Torre Eiffel, há mais de um século. No ano passado, foi inaugurada a Fundação Louis Vuitton de arte contemporânea, realizada pelo arquiteto Frank Gehry. O prédio é considerado o mais revolucionário construído na capital nas últimas décadas, depois da pirâmide do Louvre.

Com Reinventar Paris, a prefeitura quer criar "modelos da cidade do futuro" em termos de arquitetura, de novas utilizações do espaço urbano e de inovação ambiental. "Esse projeto se baseia na ideia de que é necessário transformar Paris, uma cidade de patrimônio histórico. É preciso dar uma segunda vida a certos prédios e para isso é preciso inovar do início ao fim do processo de construção ou de renovação do local", afirma Missika.

Na visão da prefeitura, o campo da inovação é "imenso" e vai desde as formas para levantar recursos, como o financiamento coletivo ("crowdfunding"), aos materiais e uso de espaços como telhados e subsolos e inclui, claro, o desempenho energético, com prédios que consomem pouca energia, e ambiental.

A utilização dos prédios também requer inovação, observa Missika. "Hoje existem novas maneiras de trabalhar, a distância ou em espaços de coworking [escritório compartilhado]. Também na área comercial há mudanças, como os showrooms compartilhados por diferentes empresas", afirma. Isso se aplica ainda a novas formas de moradia, onde jardins, hortas e dependências da casa podem ser divididos entre os residentes ou ainda a "habitação participativa", onde os moradores definem com os arquitetos o futuro projeto do prédio, acrescenta.

Por isso, a prefeitura privilegia projetos que sigam as mudanças do modo de vida urbano, com prédios inteligentes que possam ser compartilhados, ter sua utilização transformada e vários tipos de uso ao mesmo tempo - moradia, comércio, escritórios e atividades culturais. Um dos exemplos que se inserem nesse objetivo, entre as propostas recebidas, é o de criar uma residência para estudantes que se transformaria em hotel durante as férias escolares.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em junho de 2015 (por Daniela Fernandes)

01 - Projeto do escritório franco-brasileiro Triptyque, integrante do comércio formado pelo Instituto Urbem, para o prédio Morland: imóvel de 40 mil m² está entre as áreas mais cobiçadas

02 - O Morland visto de outro ângulo: às margens do Rio Sena, esse edifício com ares soviéticos entre a Île Saint Louis e o Marais oferece uma panorâmica excepcional da cidade.