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NO PAÍS EM QUE LOUIS VUITTON É REI, NÃO SE ESCREVE “LUXO” EM OUTDOOR

01/09/2015

Histórias sobre a china e sua dualidade de riqueza e autoritarismo.

Três décadas depois de enveredar, à sua maneira, pela trilha do livre mercado, a China ainda não definiu com clareza em que tipo de sociedade quer se transformar. Essa é a impressão que fica após a leitura de “A Era da Ambição”, do jornalista americano Evan Osnos, que viveu em Pequim entre 2005 e 2013.

Sem ser totalmente comunista ou capitalista, o país se situa numa fronteira pouco nítida entre os dois regimes antagônicos por natureza e definição. Numa metáfora feliz, Osnos resume a contradição: “Para sobreviver, o Partido Comunista Chinês abandonou o evangelho, mas se apegou aos santos”. Ou seja, embora tenha rejeitado na prática a teoria de Karl Marx, manteve o retrato do camarada Mao Tsé-Tung (1893-1976) em locais públicos.

Tal contorcionismo ideológico se manifesta, na vida cotidiana, na discrepância entre realidade e retórica, como o fato de o maior mercado mundial da Louis Vuitton coexistir com tentativa de proibição do uso da palavra “luxo” em outdoors.

O autor deixa claro que, apesar de não ser possível vislumbrar o desfecho dessa história, estamos diante de uma das mais intensas transformações já registradas no mundo. Em sua comparação, trata-se de um fenômeno cem vezes maior e dez vezes mais rápido do que a Revolução Industrial, que criou a Grã-Bretanha moderna e as fundações do capitalismo.

Osnos não cansa o leitor com uma enxurrada de estatísticas, que seriam supérfluas, pois apenas reforçariam a ideia que se faz da China contemporânea: a de um país relativamente pobre que em poucos anos de crescimento exponencial se transformou em motor da economia do mundo.

Apenas dois exemplos dão conta do recado: entre 1978 e 2013, a renda média anual dos trabalhadores foi multiplicada por 30, passando de US$ 200 para US$ 6.000; e em 2012 o país se tornou mais urbano do que rural, depois de construir o equivalente a uma Roma a cada duas semanas.

A prosperidade, combustível da “era da ambição” a que Osnos se refere, tem como contraponto o autoritarismo.Quanto mais os chineses ascendem economicamente, mais liberdade demandam, sobretudo a liberdade de criticar o governo. E quanto maior essa pressão popular, maior o esforço do Partido Comunista para contê-la. Até o momento, as lideranças políticas têm contornado a situação, ao combinar força bruta e propaganda persuasiva. A incógnita é até quando será possível abafar a voz de dissidentes e descontentes em geral.

A internet vem se revelando um dos principais ambientes onde se disputa esse cabo de guerra. Em meados dos anos 2000, a China ergueu uma muralha virtual que impede os usuários de acessar reportagens estrangeiras desfavoráveis a políticos ou denúncias de abusos de direitos humanos. Além disso, emprega um exército em atividades de propaganda, com um funcionário para cada cem cidadãos.

O grande achado de Osnos foi ter contado a história a partir da perspectiva de pessoas, fossem funcionários públicos, estrelas dissidentes, líderes estudantis, novos empresários e, sobretudo, anônimos com quem ele cruzava o caminho. Dessa maneira, o autor conseguiu o distanciamento necessário para criticar a China sem cair na tentação de “julgar o país com severidade excessiva em questões que se opõem aos meus valores”.

Foi uma decisão acertada porque, caso contrário, o livro poderia soar tão chato e previsível quanto a propaganda liberal ou, o que seria pior, tão ingênuo e apologético quanto a obra de um autor disposto a ver na exuberância chinesa um caminho ideológico aceitável.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em abril de 2015 (por Oscar Pilagallo)