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“INTERNET DE TUDO” COMEÇA A GANHAR FORMA

26/08/2015

O mundo hiperconectado da "internet de tudo" começa a se tornar realidade, afirma a União Internacional de Telecomunicações (UIT). No relatório "Tendências na Reforma das Telecomunicações 2015", divulgado em julho, a organização observa que há uma proliferação de dispositivos inteligentes e serviços, paralelamente à adoção crescente da banda larga pelas pessoas. A constatação é que não só os seres humanos estão cada vez mais conectados via web, mas também as coisas.

Segundo a UIT, a "internet das coisas" (IoT, que conecta diferentes dispositivos à internet), e as comunicações de "máquina para máquina" (M2M) através de redes celulares móveis já emergem como os serviços de tecnologia da informação e comunicação (TIC) de mais rápido crescimento em termos de tráfego na rede.

Haverá cada vez mais dispositivos "wearable" - criados para ser "vestidos" por seus usuários - fazendo a interação entre computador e consumidor. Por exemplo, lentes de contato, relógios, monitores de atividade física, aparelhos para medir pressão, equipamentos de monitoramento da fertilidade das mulheres - todos eles se conectando ao smartphone ou tablet.

Os dispositivos de vestir podem ter alcançado 109 milhões de unidades vendidas globalmente em 2014. A expectativa é que um bilhão de dispositivos sem fio relacionados à "internet das coisas" sejam vendidos neste ano, um salto enorme em relação ao ano passado, totalizando uma base instalada de 2,8 bilhões de equipamentos conectados até o fim do ano.

A projeção é que 25 bilhões de dispositivos em rede estejam conectados até 2020, impulsionados sobretudo por coisas conectadas ao consumidor (comércio, hospitais, autoridades locais etc), seguidas por indústrias e transportes. Para a UIT, tudo isso vai transformar de maneira irreversível o conceito de internet e de sociedade conectada.

Segundo a organização, o faturamento do mercado de "internet das coisas" pode crescer para US$ 1,7 trilhão até 2019, tornando-se o maior mercado global de dispositivos.

A demanda por tablets está crescendo em ritmo menor, com previsão de alcançar 234,5 milhões de unidades vendidas neste ano. Espera-se um declínio nas vendas globais de PCs e de laptops nos próximos quatro anos.

Além disso, 1,4 bilhão de smartphones poderão ser vendidos globalmente neste ano, superando as vendas conjuntas de PCs, aparelhos de TV, tablets e consoles de videogame, tanto em unidades como em faturamento. O total de smartphones no mundo chegará a 2,2 bilhões de aparelhos em 2015. Isso significa que, para muitos consumidores de países em desenvolvimento, a primeira experiência com a internet deverá ser por meio desses aparelhos.

A expectativa é que as vendas de smartphones cresçam nos próximos cinco anos, sobretudo nos países em desenvolvimento, onde muita gente ainda não está conectada à internet. Basta ver que 3 bilhões de pessoas usavam a web no fim de 2014, mas 4,3 bilhões ainda estavam sem conexão.

Com a proliferação de dispositivos móveis, os telefones e os computadores de vestir vão fazer parte de um ambiente de computação expandido, provocando um aumento enorme do tráfego na rede.

Pelas projeções da UIT, o mercado global de banda larga fixa vai crescer 3% ao ano. As operadoras móveis vão tentar gerar retorno sobre os investimentos a partir de suas redes de 3G e 4G, oferecendo novos serviços e pacotes de preços diferenciados para tornar mais eficiente o uso de suas redes.

A expectativa é que as operadoras venham a investir até US$ 1,7 trilhão na infraestrutura 4G entre 2015 e 2020. A China Mobile tornou-se, em janeiro, a maior operadora móvel no mundo, superando a americana Verizon.

O relatório destaca também que a proliferação dos aplicativos está transformando os usuários em "consumidores digitais sociais". Em janeiro, havia 2,07 bilhões de contas ativas nas redes sociais. Um usuário médio gasta duas horas e 25 minutos por dia nesses sites, e o impacto econômico desse tipo de uso não tem passado despercebido de profissionais de marketing e publicitários.

Ao mesmo tempo em que têm novas oportunidades, os consumidores enfrentam novos desafios. Por exemplo, de privacidade. Cresce o número de pessoas que foram rejeitadas para uma vaga de emprego por causa de seu perfil ou de comentários feitos na rede social. Daí, para a UIT, a importância de o usuário poder apagar seu histórico nas redes.

A UIT sublinha igualmente o "dilúvio" de dados. A cada hora, mais de 100 milhões de fotos são publicadas no Facebook. Dados cujo custo para ser estocados eram de US$ 150 mil em 1970 são, hoje, armazenados por um centavo de dólar.

CONTEXTO

No mundo digital, há um debate sobre o significado de dois novos conceitos: a "internet das coisas" e a "internet de tudo". A confusão é ainda maior em inglês: "internet of things" (IoT) e "internet of everything" (IoE). Para alguns, que consideram a questão meramente semântica, ambos os termos tratam da mesma coisa. Para outros, há diferenças importantes, embora as duas expressões estejam ligadas a um fenômeno único. A "internet das coisas" seria a interligação de objetos, via rede, por meio de sensores. Por exemplo, uma geladeira que identifica a falta de leite e manda um aviso para o celular do morador. Essa conexão entre objetos, no entanto, seria apenas uma parte da "internet de tudo" ou "de todas as coisas". As outras dimensões envolvidas são pessoas, processos e dados.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em julho de 2015