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DA COR AO DESIGN, UM JATO AO GOSTO DO FREGUÊS

21/08/2015

Para conquistar os pilotos, que têm influência significativa na decisão de compra, a Dassault Falcon está transferindo tecnologias militares dos caças Rafale, como um joystick no lugar do manche.

Para fugir ao calor de 35 graus, as pessoas andam rapidamente entre os prédios onde a Dassault Falcon monta o interior de seus jatos executivos, um complexo de 93 mil metros quadrados localizado em Little Rock, a capital do Arkansas. Mas dentro dos galpões e hangares, a salvo do sol quente, dá para ver que ninguém tem pressa. Em uma grande sala branca, com pé direito altíssimo, uma senhora de luvas verdes estende cuidadosamente um tecido sobre uma superfície vazada, cujas reentrâncias ela recobre com a ajuda de uma pinça. Em outro espaço, um homem com uma lanterna se demora em examinar uma peça de madeira que acabou de ser envernizada. Não muito longe dali, um carpete é submetido a luzes idênticas às do jato que vai equipar, para que se saiba exatamente o que o cliente verá quando o avião estiver pronto.

Como em qualquer mercado de luxo, esse trabalho artesanal tem seu preço. O jato mais barato da Dassault Falcon, o 2000 S, custa US$ 27 milhões. Para comprar o mais caro, o 8X, ainda em processo de certificação, o cliente tem de desembolsar US$ 58 milhões.

Os jatos vêm prontos da França, de onde voam para os Estados Unidos. Chegam sem nada dentro. Nem pintura têm. É no complexo de Little Rock, onde trabalham 1,7 mil pessoas, que a parte interna é composta e o avião ganha as cores escolhidas pelo dono. A maioria fica com a cartela padrão sugerida pela empresa - branco com duas listras coloridas. Mas de vez em quando surgem pedidos que fogem do comum, como uma aeronave inteiramente pintada de preto fosco ou com um enorme olho azul retratado no leme, na parte de trás da aeronave. Em média, demora 14 dias para pintar um jato.

Só em estoque, a fábrica de Little Rock - onde está sendo construído mais um hangar - conta com o equivalente a meio milhão de dólares em material, diz Donald Pointer, diretor de marketing e desenvolvimento.

O couro, por exemplo, vem quase todo da Itália. Em uma parte das instalações, uma máquina estica o material para detectar eventuais imperfeições. A perda é grande. Cerca de 50% do couro que entra no complexo é descartado e vai para a caridade, informa Jeff Griffin, vice-presidente financeiro. Depois de escolhido o modelo da poltrona, o cliente testa a maciez. Se não gostar, são acrescentadas camadas de couro até que ele fique satisfeito.

A peregrinação para o cliente obter um avião com a sua "cara" começa em Nova Jersey, onde fica o quartel-general da companhia. Existem três opções básicas de desenho do interior, diz Pointer. O Valor voou de Little Rock para Foz do Iguaçu, no Paraná, em um jato 7X com poltronas que se reclinam até assumir uma posição quase horizontal, dois sofás e uma mesa de trabalho que pode ser convertida em mesa de refeições ou em plataforma para colocar os pés. O banheiro tem espelho de corpo inteiro.

Quanto é pedido algo muito estrutural, a mudança é feita ainda em Bordeaux, na França, porque é preciso estar perto do centro de design, diz Andrew Ponzoni, diretor de comunicações da empresa. É o caso de um incluir um chuveiro.

Feitas as escolhas pelo cliente, um software criado pela própria Dassault permite "andar" pela aeronave para ver se tudo está de acordo com o que foi pedido. Dá para ver até como fica o reflexo da luz do sol nos móveis.

Os jatos são feitos na França, de onde voam para Little Rock, no Arkansas, sem nada no interior.

Os jatos são feitos na França, de onde voam para Little Rock, no Arkansas, sem nada no interior.

Em Nova Jersey também há um centro de demonstração, onde o comprador encontra a réplica de uma cabine completa, além de modelos de poltronas e amostras de tecidos, madeiras e carpetes, tudo armazenado em uma infinidade de gavetas. Estão disponíveis até peças de cozinha - da máquina de espresso e do microondas até taças e copos.
As opções de material disponíveis chegam à casa dos milhares, diz Debra Avola-Aiellos, designer sênior da Dassault Falcon. Os padrões e as cores são ditados pelos fabricantes, com coleções que se renovam em intervalos de dois ou três anos. É possível atender a pedidos bem específicos, desde que o material sugerido cumpra as exigências de segurança. Debra já teve um cliente que pediu para aplicar mohair - uma fibra feita a partir da lã de cabras angorá - no interior do avião. E muita gente na empresa ainda se lembra de um jato produzido anos atrás, com interior prata e detalhes psicodélicos.

Em geral, porém, prevalecem padrões mais clássicos. Pedidos extras não só encarem o produto como podem tornar mais difícil a venda do avião no futuro, dependendo do que for escolhido. O preço de um jato usado depende de muitas variáveis, como o estado do interior e as horas de voo. Em média, a depreciação é de 7% ao ano, mas o preço de venda pode ser prejudicado se o avião tiver muitas extravagâncias no interior.

Antes de conquistar os clientes, muitas vezes é preciso agradar os pilotos particulares, que costumam ter uma influência decisiva na compra dos jatos. Em Little Rock, a Dassault Falcon construiu cinco simuladores de voo no qual os pilotos podem testar as inovações em seu domínio exclusivo - a cabine de controle. A cidade de Nova York foi simulada com base em imagens de satélite. Dá para avistar prédios icônicos, como o Empire State e o edifício Chrysler, e avistar a Estátua da Liberdade.

As opções de material chegam à casa dos milhares, e o cliente pode escolher entre três configurações.

Uma vantagem nesse quesito, dizem os executivos da companhia, é pertencer ao grupo Dassault Aviation, cuja divisão militar foi a criadora dos aviões Mirage e, agora, produz os caças Rafale. Com o DNA compartilhado, tecnologias criadas para uso militar estão sendo transferidas rapidamente para os jatos executivos, como o formato da asa dos aviões Falcon e seu sistema de bordo. No lugar do manche, por exemplo, os modelos mais recentes da empresa agora são conduzidos por dispositivos que lembram um joystick de videogame, bem ao gosto da era digital.

matéria publicada no jornal Valor em 14 de agosto de 2015.