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CALÇADA LARGA, ACESSÍVEL, ILUMINADA, DRENANTE E CHEIA DE VERDE

20/08/2015

O raio X de um passeio acessível na Casa Cor São Paulo, que drena água da chuva, resolve questões de infraestrutura urbana e funciona como ponto de convivência.

Hoje, as calçadas constituem território de importante discussão sobre a vida nas metrópoles. “A visão focada no automóvel as renegou. Agora, estamos voltando a olhar para as pessoas, como atesta o novo Plano Diretor Estratégico [PDE] do Município de São Paulo, incentivador de ciclovias e praças”, diz Benedito Abbud, o autor, em parceria com o arquiteto Felipe Abbud, do caminho de entrada da Casa Cor São Paulo. O projeto reúne, ao longo de 1,2 mil m2 (6 x 200 m), uma série de soluções enquadradas no conceito da Calçada Viva, defendido pelo escritório.

“A principal intenção é transformar a área num ponto de convivência: quanto mais gente na rua, mais segura ela se torna”. Mas não só isso. A presença da vegetação desempenha papel comprovado contra a escassez hídrica ao minimizar as ilhas de calor, aumentar a umidade do ar e reter a água no solo. Para tanto, a equipe desenvolveu o Sistema Urbano de Drenagem Sustentável (Suds). O nome comprido esconde uma ideia simples – a de embutir no piso caixas que funcionam como bolsões para o excesso de chuva, evitando enchentes e hidratando a terra. “A Casa Cor sempre teve o compromisso de representar o espírito de sua época. Essa entrada simboliza a atual necessidade de resgatar a gentileza urbana. Trata-se de um manifesto de amor à cidade”, define Lívia Pedreira, diretora-superintendente da Unidade Arquitetura e Design da Editora Abril e presidente da mostra.

O chão alterna os tons das placas drenantes intertravadas (10 x 20 cm) de concreto poroso da Intercity. Instaladas de modo reversível sobre o piso de pedra portuguesa do Jockey Club, datado de 1941, devem ser doadas, no final da mostra, para a Associação Educacional e Assistencial Casa do Zezinho. “Isso foi preciso pois o passeio é considerado como entorno do Jockey, tombado pelo Condephaat [Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico] em 2010 e pelo Conpresp [Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo] em 2013”, lembra o arquiteto Luis Magnani, consultor sobre o tema para a mostra.

O projeto reúne uma série de conceitos da Calçada Viva, formulados por Benedito Abbud. Por se tratar de um evento num espaço que é patrimônio histórico, nem todos puderam ser aplicados integralmente. “Propomos soluções que devem ser adaptadas conforme o local”, defende o paisagista.

ACESSIBILIDADE.

Esse item envolve mais do que a simples construção de rampas para portadores de deficiência: é preciso que o caminho garanta segurança às diversas faixas etárias e atenda a suas respectivas necessidades de locomoção. “Instalamos no centro de todo o percurso, 2,5 mm acima do chão, uma canaleta com fita de led [Brilia]. Trata-se de um recurso para guiar as pessoas com dificuldade de visão, que também podem se localizar com o auxílio da bengala”, explica o paisagista.

QUE TAL SENTAR E CONVERSAR?

Com 2 m de largura, a faixa de serviço junto à rua mescla às árvores bicicletário, postes de luz (Schréder do Brasil), lixeiras e mobiliário de jatobá certificado (mmcité). “Ao oferecer formas de usar o local, evita-se que ele vire terra de ninguém. Por causa da ciclovia vizinha, alocamos o parklet numa parte da calçada”, observa Felipe.

QUE TAL SENTAR E CONVERSAR?

Com 2 m de largura, a faixa de serviço junto à rua mescla às árvores bicicletário, postes de luz (Schréder do Brasil), lixeiras e mobiliário de jatobá certificado (mmcité). “Ao oferecer formas de usar o local, evita-se que ele vire terra de ninguém. Por causa da ciclovia vizinha, alocamos o parklet numa parte da calçada”, observa Felipe.

SUPERFÍCIE POROSA E RESERVATÓRIO PARA A ÁGUA DA CHUVA.

Idealmente, a faixa central de circulação tem piso permeável (1), assentado só sobre areia e britas fna e grossa (2). Assim, as placas deixam a chuva chegar à terra. O excesso escoa num reservatório temporário (3), o Suds, vendido pela Remaster. Feito de plástico reciclado, ele é coberto de manta geotêxtil e areia para a fltragem. Por estar enterrado e fechado, não oferece chance ao mosquito da dengue. “Assim, conseguimos que a água volte para o solo e, depois, para a atmosfera, retomando seu ciclo natural, tão prejudicado em cidades adensadas, vítimas de enchentes”, lembra o paisagista.

MASSA UNIFORME.

Também com 2 m de largura, a faixa de acesso ao Jockey Club, junto ao muro de pastilhas original, é a mais arborizada, com espécies resistentes à inundação (Tropical Plantas), como capins de várias cores, a exemplo do fórmio, e bambus, caso do bambu-japonês. “Pintamos o muro bege de verde-escuro. Com isso, ele desaparece ao capturar a paisagem de dentro do Jockey e fundi-la na vegetação do canteiro do lado de fora”, ensina Benedito. A tonalidade resultou da mistura de uma medida de tinta preta com duas de verde-colonial (Tintas Renner, ref. 1155).

Outros fornecedores: Alloy (Iluminação); Biomix (Substratos e fertilizantes); Helbor (Construção); e Rewood Madeira Plástica (decks).

matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em junho de 2015 por Carolina Diniz.