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DESIGN NA SELVA

22/07/2015

Palácio em Milão hospeda a mostra Objetos Nômades, da Louis Vuitton.

A poltrona pendurável Coocon, de Fernando e Humberto Campana.

Yael e Shay Alkalay, do estúdio Raw Edges, diante da mesa e cadeira Concertina.

A poltrona pendurável Swing Chair, de Patricia Urquiola, de couro trançado.

Instalação exibe luminárias do estúdio Barber Osgerby.

Os armários penduráveis Maracatu, de Fernando e Humberto Campana.

Instalação exibe vasos que reproduzem o desenho de bolsas. Design de Damien Langlois-Meurinne.

Nuca antes uma Semana de Design Milão reuniu uma programação com tantas locações ilustres como na sua última edição, em abril passado. A começar pela mostra anual do Vitra Design Museum, que se hospedou no Palácio Clerici, e da israelense Caesartone, que ocupou o Serbelloni. Mesmo endereços exclusivos, como o palácio Crespi, que até então nunca havia sediado um evento do tipo, se abriram ao design. Nenhum deles, no entanto, com tanta propriedade quanto o Palácio Boconni, que sediou a exposição Objetos Nômades, assinada pela francesa Louis Vuitton.

É a segunda vez que a marca francesa convida designers internacionais de peso para vislumbrar peças de mobiliário e iluminação para seu catálogo. Como requisitos básicos além do uso do couro e da possibilidade de serem transportáveis, tudo o que a célebre grife não abre mão de alcançar é uma inquestionável aura da exclusividade. Não por acaso, o projeto, iniciado em 2012, contabiliza apenas 6 peças, produzidas em edições limitadas ou como protótipos.

Objetos Nômades se propõe assim a propagar a firme intenção da Louis Vuitton de oferecer a seus clientes novas e sedutoras perspectivas para suas viagens. Não existem regras a conduzir as propostas. A rigor, apenas o compromisso de fazer com que cada objeto possa se converter em sua própria embalagem, de forma dobrável, modular, portátil. Ou do jeito que a imaginação mandar.

“Entregamos uma folha de papel em branco aos criadores. Tudo começa como um puro exercício de design, mas, todos anos, nos tornando best sellers”, afirmou Michael Burke, presidente da marca, por ocasião da abertura da mostra, que este ano apresentou criações inéditas, entre este ano apresentou criações inéditas entre outros, do cultuado duo israelense Yael Mer e Shay Alkalay, do estúdio londrino Raw Edges.

Leva a assinatura deles, uma das luminárias mais interessantes da safra 2015, além de dois móveis que se dobram como folhas de papel. “Gostamos de encontrar um princípio e, em seguida, aplicá-lo a diferentes objetos”, resumiu Yael, que também assina uma poltrona e uma mesa lateral para a coleção, produzidas em duas tonalidades de couro.

Igualmente portátil, a luminária Bell, desenhada pelo estúdio & Osgerby, tem cúpula de vidro soprado de Murano e invólucro de couro, costurado à mão, para propiciar seu transporte com segurança. Assim como acontece com a bolsa que contém outra luminosa criação, a Surface Lamp, do estúdio Nendo.

Veteranos na coleção, os brasileiros Fernando e Humberto Campana levaram à mostra Casulo, uma poltrona de linhas orgânicas, que, pendurada no teto, ocupava o centro de uma das salas da mostra. Concebido pelos designers como um escudo protetor para envolver e tranquilizar, Casulo é um produto que, ao contrário do que sugere sua radical simplicidade, lança mão das mais alta tecnologia.

Com concha obtida por uma forma avançada de impressão 3D e posteriormente acolchoada, ela é revestida de couro de bezerro e oferece um toque e reconfortante. Além dessa recente criação, grande destaque foi dado também ao projeto anterior da dupla para a série: os armários pendentes Maracatu, posicionados no hall da entrada da exposição.

Nesse sentido, o rigor da montagem conduzida pela equipe de criação da marca foi digna de nota. De um lado, os interiores neoclássicos do palácio, em perfeita sintonia com a imagem de sofisticação da marca. De outro, a abordagem anárquica da cenografia, de colorido tropical, na qual pequenas ilhas, repletas de plantas, pedras e elementos alusivos à vida na selva, colocavam em evidência toda a ousadia – e a contemporaneidade – da coleção.

“Somos uma casa inspirada pelo design. Não queremos ser uma marca de móveis”, resumiu Burke, diante da natural expectativa gerada pelo lançamento de uma próxima linha de objetos nômades. “Nos agrada sentir que somos hóspedes. Convidados a participar dessa grande festa que é a Semana de Design.” Festa para a qual, sem nenhuma dúvida, a centenária marca francesa faz questão de comparecer a rigor.

matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 16 de maio de 2015.