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UMA EMPRESÁRIA QUE APOSTA NO DESIGN

15/07/2015

Atualmente, a Firma Casa, da empresária Sonia Diniz, é uma loja-galeria que também abriga exposições, como "Cangaço", coleção dos irmãos Campana.

Desenho de sandália de cangaceiro com design de arte internacional? A empresária Sonia Diniz sentiu um arrepio ao ouvir a nova ideia dos irmãos Campana. Desde 1993, quando abriu em São Paulo sua loja-galeria de design, a Firma Casa, e viu uma luminária Estela (de autoria dos designers, feita com piso de borracha antiderrapantes) em uma feira em Milão (Itália), Sonia anteviu que aquele novo jeito de pensar e extrair mobília de materiais inusitados, diferente e brasileiro ao mesmo tempo, poderia ter apelo comercial mundial.

Na feira, Sonia conheceu os dois designers e se dispôs a comprar tudo que criassem para vender no Brasil. Sonia cumpriu a palavra e sua previsão se mostrou acertada, uma vez que os irmãos Campana se tornaram uma grife internacional.

Nos últimos tempos, Sonia teve nova intuição. Por que não ter coleções exclusivas da dupla para a Firma Casa feitas e vendidas no Brasil? Várias peças dos Campana são fabricadas no Sul e depois enviadas para a Itália, uma vez que possuem contrato com a empresa Edra. Para vendê-las, Sonia precisa importar as peças da Itália novamente e pagar impostos.

A empresária propôs à dupla a criação de coleções exclusivas, e assim nasceu no ano passado a Capacho, com peças feitas de fibra de coco - e citadas pelo escritório francês Chlorosphere em uma lista sobre itens que serão tendências em 2016 e 2017.

"Mas eu achei que, apesar de bonitas, as peças da Capacho não tinham aquele colorido e aquela alegria dos Campana", afirma Sonia Diniz.

Ela, então, quis fazer mais uma coleção, e foi atendida por Humberto e Fernando Campana. "Banquei esse projeto, que durou dois anos, para que eles criassem o que quisessem", diz Sonia. A surpresa veio na forma da coleção Cangaço, com itens como cadeira, poltrona, estante, armário e espelho - tudo recoberto com couro bordado colorido, com desenhos que poderiam ter saído de um cordel ou de uma xilogravura. A Cangaço foi desenvolvida em parceria com o mestre Espedito Seleiro, figura lendária em Nova Olinda (Ceará), cujo avô fazia as sandálias de Lampião.


"Eu fiquei com medo, vou confessar. Não da qualidade do trabalho, mas da possibilidade de minha clientela não aceitar essa estética do Nordeste, do artesanato popular", afirma Sonia. Apesar de a ideia de misturar luxo com sertanejo ser forte, o conceito não parecia muito propício para os clientes da Firma Casa, consumidores de peças de designers estrangeiros, como o francês Philippe Starck, a espanhola Patricia Urquiola e o egípcio Karim Rashid.

Sonia conta que, no fim, "todo mundo amou". O próximo passo é levar a coleção Cangaço para a DesignMiami, feira de design mundial que ocorre paralela à Art Basel Miami, em dezembro nos EUA. Será a primeira vez que a Firma Casa levará uma exposição à feira onde se reúne o fino do design. No ano passado, 35 galerias de diversos países e 35.800 visitantes participaram da DesignMiami.

Aos 63 anos, Sonia Diniz Bernardini, irmã do empresário Abilio Diniz, chegou a trabalhar no Pão de Açúcar, cuidando do setor de confecções, mas afirma se sentir mais próxima do mundo do design e da arte. "Eu era aquela criança que preferia brincar de casinha. Também sempre dei palpite na decoração do quarto e da casa. Gostava e lia muito sobre design", diz. No fim da década de 80, Sonia abriu um escritório de decoração. Só que o seu negócio mesmo era vender peças mais ousadas.

No início dos anos 90 ela vendeu suas ações do Pão de Açúcar e começou a busca por um endereço para sua loja. Achou uma casa na alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Europa, em São Paulo, atual corredor de lojas de design. Chamou o amigo arquiteto Aurelio Martinez Flores para criar o projeto e abriu as portas vendendo peças de celebrados nomes do design internacional, como os italianos Achille Castiglioni e Zanotta.

Aos poucos, com o olhar apurado, ela foi ampliando o seu papel de lançadora de design contemporâneo, tanto no exterior como no Brasil. Em determinado momento, ter uma peça da Firma Casa virou sinônimo de sofisticação. Nem todos entendiam a proposta. "A mulher de um jogador de futebol veio aqui e viu a poltrona Banquete, dos Campana [uma das mais famosas da dupla, com bichos de pelúcia costurados e se devorando], e queria comprá-la para colocar no quarto do bebê", diz.

Em 2011, Sonia olhou em volta e achou a loja "careta", acomodada. Mudou o projeto arquitetônico. Nessa altura, a casa já tinha uma estrutura ampla, com mais de 500 m2 e 30 funcionários. Ela convidou os Campana para complementar o projeto do estúdio Superlimão, gastou mais de R$ 1 milhão e buscou um foco ao apostar no design-arte (hoje um investimento entre os colecionadores), transformando o que era só loja também em galeria, com um calendário de exposições. No momento, expõe "Cangaço".

Tanto na Firma Casa como na sua outra loja, a Conceito: Firma Casa (hoje um "e-commerce"), ela apadrinhou talentosos nomes que se tornaram estrelas do design nacional, como Luciana e Gerson Brito, da Ovo; Jacqueline Terpins; o coletivo Superlimão e o Nada Se Leva.

"Através da Firma Casa, Sonia vem fazendo um importante papel na cena contemporânea do design, investindo e investigando nomes consagrados, como Claudia Moreira Salles, mas também jovens como Leo Capote, Zanini de Zanine e Carol Gay", diz Waldick Jatobá, colecionador de arte e design e idealizador da feira Made (Mercado, Arte e Design), cuja primeira edição ocorreu em 2013, em São Paulo.

Em 2007, o jornal "The New York Times" chamou Sonia de "matriarca do design", em um roteiro de galerias em São Paulo. "A Sonia foi a primeira empresária a apostar na gente. Foi por causa dela que conseguimos expor no MoMA [Museum of Modern Art, em Nova York]. Ela ajudou e bancou o catálogo, que tinha texto da crítica Paula Antonelli", diz Humberto Campana. A exposição "Projects 66: Campana/Ingo Maurer" foi realizada entre novembro de 1998 e janeiro de 1999 no museu americano, em conjunto com o alemão Ingo Maurer, e ajudou a divulgar o nome dos irmãos mundialmente.

Durante a entrevista, Humberto Campana lembra dos tempos de vacas magras e do acolhimento da Sonia. "Uma vez ela fez um almoço para o Massimo Morozzi [diretor de criação da Edra italiana] na fazenda dela, em Indaiatuba [SP], e eu e o Fernando estávamos em Brotas [SP]. Fomos até lá no nosso carro, um Gol caindo aos pedaços. Na fazenda tivemos de passar por um monte de seguranças e ali o carro pifou de vez. Nós éramos uns duros."

matéria publicada no jornal Valor em 8 de julho de 2015 Por Cristina Ramalho.