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PREMIADO ARQUITETO REM KOOLHAAS PRESTA TRIBUTO AO PASSADO

07/07/2015

Financiada por Miuccia Prada, a Fondazione Prada, em Milão, tem projeto de remodelação de destilaria centenária em complexo privado de arte contemporânea pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas.

O mosaico original que decora uma das paredes do Garage, o recém-inaugurado complexo de artes no parque Gorki, em Moscou (Rússia), está corroído nas bordas e revela uma parede de tijolos sem acabamento. É resquício de uma era que agora parece distante, um fragmento do regime soviético.

Construído em 1968, tudo o que resta do restaurante Vremena Goda (estações do ano em russo) é o mosaico “Outono”, com uma mulher flutuando em uma nuvem abstrata de folhas. O local ficou em ruínas por 20 anos depois da queda do comunismo, um “bunker” de concreto pichado, refúgio para drogados e sem-teto.

Agora, foi reaberto como Museu Arte Contemporânea garage, imenso novo espaço de arte para a Iris Foundation, uma organização sem fins lucrativos de Dasha Zhukova. O nome deve-se à primeira sede da instituição, uma garagem de ônibus projetada pelo arquiteto construtiva Konstantin Melnikov (1890-1974).

O novo prédio é uma homenagem à outra era arquitetônica. O arquiteto do novo Garage, Rem Koolhas, teve a inspiração para seguir a profissão após uma visita (como jornalista) a Moscou em meados dos anos 60, e viu o restaurante quando estava recém-construído. Preservação não é algo esperado de Koolhaas. Na Bienal de Veneza, em 2010, ele foi curador da exibição “Cronocaos”, crítica ao alcance de conservação e à inevitabilidade do momento em que as cidades se tornariam imutáveis, já que tudo nelas seria preservado – incluindo prédios de arquitetos como o próprio Koolhaas. No Entanto, aqui está ele em Moscou, empenhado em preservar um prédio que poderia ter sido demolido.

Pergunto-lhe sobre a aparente mudança de opinião. “Foi uma intuição, que a preservação não é algo. “Foi uma intuição, que a preservação poderia ser mobilizada contra as atuais Falhas? “A expectativa na conservação nunca é obra-prima”, afirma. “A arquitetura fica restrita [nas preservações] e nunca vai ser espetacular, então isso leva a um território livre do inesperado”. Koolhaas, o grande iconoclasta da arquitetura contemporânea, escava o passado para impor-se limitações. Ele usa os restos de uma arquitetura que admirou, um tipo refinado (ainda que limitado) de modernidade, para se restringir, para impor regras para evitar a estagnação.

O lado positivo é um revigoramento e uma liberdade para criar espaços grandes e fluídos, assim como uma comunhão com o cenário público do parque, algo que um prédio novo não teria permitido. O lado negativo é que, nesta maravilha do saguão central e dos espaços de galerias, a arte parece ter sido demovida a uma espécie de função secundária. O andar superior está repleto om um pouco de tudo, desde uma instalação interativa de Rirkrit Tiravanija até uma exibição de bens de consumo soviéticos. Ainda há arte suprematista, uma sala pontilhada decorada por Yayoi Kusama e uma linda exibição de “avant-garde” russa dos anos 60 e 70, época em que a “arte não estava acontecendo apenas em Nova York”, como diz Koolhaas. As exibições estão espremidas, de forma um pouco desconfortável, e é difícil imaginar como esses espaços poderiam acomodar uma grande exibição de pinturas ou de esculturas.

Koolhaas também completou recentemente outro museu privado financiado por uma mulher influente, a Fondazione Prada, de Miuccia Prada, em Milão. Também um projeto de preservação, trata-se da remodelação de uma destilaria centenária em um quarteirão industrial da cidade para transformá-la em um amplo complexo de arte contemporânea.

No estranho conjunto de prédios herdados da antiga fabricante de conhaque Cavallino Rosso, é possível encontrar arquétipos industrial/espacial, desde imensos barris de armazenamento até um grande galpão tipo hangar. É como se fosse uma destilação da ideia de arte moderna enquanto produção em escala industrial.

A Fondazione Prada cria um espaço protetor para a arte a imaginação na periferia mais mal cuidada da cidade do “estilo”. O Garage deleita-se modernidade aberta e otimista de sua função anterior, o café no parque. Pergunto a Koolhaas se ele chegou a comer no café em 1968. “Não”, responde, impassível. “A ideia de comer algo na Rússia era muito...Nós nos alimentávamos com barras [de chocolate] Mars”. Algumas vezes, a memória supera a realidade. Os produtos e as políticas podem ter fracassado, mas suas arquiteturas ainda têm papéis significativos e desempenhar nas cidades.

matéria publicada no jornal Valor em 17 de junho de 2015.