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PROJETOS PRETENDEM APRIMORAR O AMBIENTE URBANO

30/06/2015

Caminhar por calçadas planas, iluminadas, com bom espaço para circulação, vegetação e equipamentos adequados, bem posicionados e bem cuidados é sonho de qualquer pedestre. Imagine agora se, além disso, o passeio tiver um estilo de construção sustentável, com piso permeável, que hidrata o solo e um sistema de escoamento para que a água das chuvas corra para os reservatórios, ajudando a combater enchentes e a crise hídrica da cidade. Autor do ambiente "Se essa rua fosse minha", em exposição na Casa Cor, em São Paulo, o arquiteto e paisagista Benedito Abbud diz que um espaço assim é não só possível como pode melhorar muito a mobilidade e a qualidade do ambiente urbano.

O projeto Calçada Viva, de Benedito e Felipe Abbud, prevê vegetação nas chamadas áreas de serviço (junto aos muros); faixa de circulação construída de piso permeável - placas porosas desenvolvidas para absorver 1 litro de água da chuva por segundo, que podem ser assentadas sobre um sistema de coleta de água para um reservatório temporário - acessibilidade para pessoas de diversas faixas etárias e necessidades de locomoção; mobiliário com design e funcionalidade adequados, além de pista de caminhada e corrida, equipamentos para ginástica e alongamento. "Resgatamos e apresentamos diversos conceitos, como o das calçadas técnicas, que diminuem a poluição visual por serem construídas sobre galerias no subsolo, por onde passam fiações de rede elétrica, TV, fibras óticas, redes de água e esgoto - o que evita o quebra-quebra de pisos que as concessionárias desses serviços têm de fazer e depois remendar."

Mão de obra e tecnologia para tudo isso tem. "As pessoas só precisam de incentivo fazer", diz o arquiteto. Para ele, o ponto de partida está na mudança de hábito. "As pessoas entendem que as calçadas são a continuidade de seus terrenos e se esquecem de que são espaços públicos, sujeitos a muitas necessidades e a uma legislação que nem todos conhecem", argumenta. Abbud cita o exemplo da Colômbia, onde o poder público fez um grande manual que obriga empresas a fazerem peças dentro de padrões preestabelecidos. "As pessoas compram as peças que preferirem (dentro do padrão) da empresa que quiser. Isso já organiza, dá parâmetros."

A realidade observada desde 2006 em 35 cidades brasileiras pela rede de pesquisa Quadro do Paisagismo brasileiro (Quapá-SEL) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) não deixa dúvidas de que o problema é sério e tem origem não só no descaso do morador como na cultura do país, que tende a reduzir o espaço do pedestre para ampliar o espaço dos veículos. "Fazemos debates, fóruns, oficinas de conhecimento em cidades de médio e grande porte, observando vários aspectos do ambiente urbano, incluindo as calçadas - as quais são avaliadas de acordo com vários critérios como larguras, e materiais utilizados na construção", explica o professor Eugênio Fernandes Queiroga, vice-coordenador do Lab Quapá.

Para melhorar o quadro de deterioração retratado nas pesquisas, não faltam recomendações. Para novos loteamentos, por exemplo, a orientação é que as calçadas tenham largura compatível com sua hierarquia viária. Nas ruas locais deveriam ter 3 metros de largura e nas de maior trânsito, 5 metros de largura, o que facilita a circulação. "Isso já acontece em algumas cidades médias do interior de São Paulo, por exemplo."

matéria publicada no jornal Valor em 13,14 e 15 de junho de 2015.