English Version

UNIVERSO ESTÉTICO: CONHEÇA OS AMBIENTES DA MOSTRA BLACK 2015

18/06/2015

Escolhas de cada profissional ficam evidenciadas nos ambientes em exibição na Mostra Black 2015.

Vida externa da área de exposição da mostra Black na Oca, no Parque do Ibirapuera. Projeto Prototype.

Em sua edição, a Mostra Black, exposição idealizada pela arquiteta Raquel Silveira, que acontece até o dia 21, na Oca, no Parque do Ibirapuera, reafirma sua intenção de se constituir na mostra de arquitetura de interiores mais autoral do País. Condição evidenciada este ano não só por sua locação ilustre , em Niemeyer. Mas, igualmente, por seu formato enxuto: ao todo, foram apenas 15 os escritórios convidados.

“A nós interessa a criação livre, sem qualquer tipo de intervenção”, declara sua idealizadora. Assim, reunindo nomes consagrados, mas também as novas apostas do mercado, o que a Black almeja, mais do que apresentar soluções de decoração passíveis de serem reproduzidas, é oferecer ao visitante uma clara visão do universo estético de cada participante. Objetivo para o qual eles parecem não poupar esforços. Nem recursos.

“Nossa intenção foi criar um cenário eclético e dramático. Uma miscelânea de estilos”, declaram os baianos Marcelo Borges e Arthur Athayde, dois estreantes na mostra, autores do Espaço de Convivência: um denso living de 60 m², repleto de telas, quadros, esculturas e peles, em um exercício de personalização onde tudo - ou quase – parece permitido.

Baseados menos nos acúmulo e mais na seleção rigorosa de objetos, dois outros ambientes se exercitam na mesma linguagem: o de Maximiliano Crovato que tomou a década de 1970 como parâmetro para construir uma sala de tonalidades psicodélicas, com adereços nada convencionais ao universo da decoração, mas também o de Osvaldo Tenório, que joga coma ideia da decadência, em um espaço de atmosfera dark acentuado conteúdo étnico.

“O fato de enfatizar o vazio não faz do meu projeto algo menos luxuoso. Isso para mim é luxo”, dispara outro dos recém chegados, o arquiteto recifense Ricardo Bello Dias, radicando há mais de duas décadas em Milão.

Discípulo declarado do mago do minimalismo Piero Lisoni, com quem trabalhou por assistente, Bello Dias compôs uma sala onde o espaço, praticamente para a singularidade de seus detalhes construtivos. Por exemplo, para um pilar que ele subitamente transformou em tela de projeção. Ou ainda para a textura de cimento que reveste integralmente o ambiente.

Uma linha de composição – também exercitada nos espaços projetados por João Armentano, pelo estúdio Triplex e, em certo sentido, por Camila Klein – que, se por um lado fá margem a uma leitura mais atenta dos elementos em destaque nos diferentes espaços, em especial obras arte e móveis assinados, por outro, exige disciplina redobrada por parte de seus criadores. “Do meu ponto de vista, trabalhar assim é muito mais complexo. Nada pode ser, ou parecer, aleatório”, defende Bello Dias.

Na intersecção das duas concepções do projeto, o coeso ambiente criado por Guilherme Torres e batizado de terra Estrangeira é digno de nota. Povoado por móveis ícones do design brasileiro da década de 1950, assinados por imigrantes como Jean Gillon, Jorge Zalszupin e Gregori Warchavchik – daí a sugestão do nome -, trata-se de uma sala de uso múltiplo que oferece temperatura de casa. Lado a lado com condições de exposição dignas de galeria de arte.

Traçando a ponte entre o Brasil de ontem e o de hoje, com a assinatura do arquiteto, está a mesa de linhas esculturais que domina a cena sobre a qual formas da natureza parecem brotar de vasos produzidos pela ceramista Kimi Nii. Arrematando a composição, uma foto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi desce o chão, apresentando a modernista em raro momento sorridente. Provavelmente satisfeita, por se sentir tão bem acompanhada.

Ambiente de Osvaldo Tenório investe em atmosfera dark e conteúdo étnico.

Living de Guilherme Torres passa em revista a peças icônicas do design nacional, com destaque para o mobiliário de 1950.

Living do Ricardo Bello Dias transforma pilar da Oca em apoio de tela de projeção. Ao fundo poltrona Donna, de Gaetano Pesce.

Sala exibe atmosfera 70’s. Projeto Maximiliano Crovato.

O cromatismo intenso do Living decorado por Roberto Migotto.

matéria publicado no jornal O Estado de São Paulo em 14 a 20 de junho de 2015.