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PORQUE VOCÊ NÃO PRECISA DE UM SMARTPHONE NOVO.

18/06/2015

Você pode ficar aliviado ao descobrir, como eu fiquei, que há uma razão matemática do por que nem sempre é necessário comprar o melhor e mais recente dispositivo eletrônico. O princípio não tem um nome, mas é comum a um grande número de coisas criadas pelo homem, como as médias de rebatidas de beisebol, o mercado de ações e o desempenho relativo da economia e os carros de luxo.

Veja Ted Williams, que em 1941 se tornou o último rebatedor da liga profissional dos Estados Unidos, a Major League Baseball, a ter uma média de rebatidas superior a 40% em uma temporada. O biólogo evolucionista Stephen Jay Gould observou que a razão simples para ninguém ter se equiparado a Williams nos últimos 60 anos é que todos os jogadores de beisebol desde então se tornaram uniformemente mais habilidosos — inclusive os lançadores.

Com melhores práticas de treinamento e recrutamento se espalhando, todo mundo ficou melhor, e a diferença entre o desempenho do melhor e do pior jogador diminuiu. Em termos estatísticos, como o desempenho dos jogadores melhorou, a variação de suas médias de rebatidas caiu, ano após ano.

Depois, eu perguntei a Mauboussin se o princípio se aplicava ao desempenho relativo das coisas produzidas pelo homem — como nossa tecnologia. Claro, disse ele, e ressaltou que em termos de funcionalidade, a diferença entre veículos de luxo e os econômicos nunca foi tão pequena.

O mesmo acontece até com a tecnologia de consumo e a empresarial. Considere os smartphones. A diferença funcional entre as gerações mais recentes dos dispositivos Android e dos iPhones nunca foi, pelo menos subjetivamente, tão pequena. Isso porque, da mesma forma que os notebooks e os carros, os smartphones se tornaram uma tecnologia mais madura.

Como resultado, seus fabricantes estão com cada vez mais dificuldade de nos mostrar não apenas quais são as diferenças entre os modelos mais novos e os mais antigos, mas quais as diferenças entre as várias marcas. Isso levou a “indústria de smartphones a um estranho narcisismo das pequenas diferenças”, escreveu John Herrman no blog “Medium”.

Uma consequência é o crescente mercado para eletrônicos usados de todos os tipos. “Nós estamos tentando educar os consumidores sobre [o custo total da propriedade dos] smartphones, e como a decisão financeira inteligente seria pular a experiência de “tirá-lo da caixa””, diz Sarah Welch, diretora de marketing da Gazelle.

O principal negócio da Gazelle é comprar telefones usados de consumidores, fazer os ajustes necessários e vendê-los.
A diretoria diz que a Gazelle pretende se transformar na “CarMaxKMX +0.54% de eletrônicos usados para consumidores”. (A CarMax é uma das principais revendedoras americanas de carros usados.)

O aparelho mais popular vendido pela Gazelle é o iPhone 5, que custa US$ 219 — um terço do preço de um novo vendido pela Apple nos EUA ou um desbloqueado adquirido em uma operadora no país.
É uma opção que faz sentido para consumidores que mais do que nunca estão rejeitando planos de celulares caros que subsidiam o preço de um telefone novo.

E, falando como alguém que é contra trocar os aparelhos mais de uma vez a cada dois anos, posso dizer a você que ele é um dispositivo perfeitamente funcional e comparável ao Samsung Galaxy S4, que a Gazelle vende por US$ 249.

Outro caminho que os consumidores estão tomando é consertar aqueles dispositivos supostamente difíceis de consertar. Recentemente, quando a bateria do meu iPhone de um ano de uso começou a acabar rápido, chamei um técnico da iCracked em meu escritório para substituí-la. O custo total, incluindo as peças, foi de US$ 40. Pelo preço de um jantar razoável, paguei por um ano adicional de serviço do dispositivo mais essencial da minha mesa de trabalho.

AJ Forsythe, fundador e diretor-presidente da iCracked, criada há quatro anos, me disse que a demanda por seu serviço de conserto de telefones está crescendo tão rápido que ele está contratando de 400 a 500 novos técnicos por mês. A empresa também lançou um programa de seguros para telefones chamado Advantage, que garante um novo aparelho do mesmo modelo se a iCracked não conseguir consertar o antigo.

Outras empresas, como a Glyde, permitem que os consumidores vendam seus telefones usados diretamente para terceiros.

Tudo isso é possível porque nossos notebooks, PCs, smartphones e tablets acabaram se tornando, independentemente do fabricante ou do sistema operacional, mais ou menos igualmente utilizáveis. Não é difícil notar se você olhar ao redor no seu escritório ou em uma lanchonete pessoas usando dispositivos de todas as marcas e tempo de uso variado.

Pode ser liberador notar que cada dispositivo personalizado e peculiar é tão válido quanto o próximo. Rejeitar o culto do “novo e brilhante” e adotar a tecnologia do “bom o suficiente” não é uma questão de comprometimento. É simplesmente o reconhecimento de que todas as tecnologias maduras mais cedo ou mais tarde se tornam, em geral, muito boas.

matéria publicada no jornal Valor em 14 de abril de 2015.