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NÃO ESQUEÇA A IMPORTÂNCIA DE LEMBRAR E SER LEMBRADO

15/06/2015

Lucy kellaway.

Faça um teste. Pegue uma caneta e um papel e desenhe a logomarca da Apple. Fácil, não? Agora compare o esboço que você fez com a logomarca de verdade. Se você for como eu, ou como 89,8% de uma amostragem recentemente testada por um psicólogo da Universidade da Califórnia (UCLA), você falhou.

Quase todos colocaram a mordida no lado errado da maçã, desenharam duas folhas em vez de uma, ou de alguma forma não conseguiram realizar a simples tarefa de reproduzir uma imagem que todos já vimos milhares de vezes.

Não só somos incapazes de desenhar as logomarcas mais famosas do mundo, como a maioria de nós não consegue sequer identificar qual é a verdadeira em uma série de imagens parecidas. Por que isso acontece? Os pesquisadores mencionam a "saturação de atenção" e a "amnésia da desatenção", mas eu acho que a coisa é mais simples do que isso. Não conseguimos memorizar porque não temos necessidade disso.

Para mim, o logo da Apple se enquadra em um grande número de coisas das quais não preciso me lembrar. Cada vez mais praticamente tudo se enquadra nessa categoria. Em casa, há poucas coisas das quais preciso me lembrar, como comprar mais xampu quando ele acaba e preencher um formulário para uma viagem de meu filho organizada pela escola.

No trabalho, posso me esquecer de quase tudo. Além disso, a maioria das coisas pode ser apagada. Isso porque nos escritórios a memória foi totalmente terceirizada para o computador. Em tese, isso significa ter de lembrar apenas minha senha de acesso, embora na verdade o pessoal da informática sempre me ajude quando me esqueço dela.

Não há necessidade de lembrar de fatos graças ao Google, todos os compromissos estão anotados on¬line e tudo o que alguém já disse pode ser facilmente encontrado em algum e¬-mail que está por aí.

Uma possível exceção é a chamada memória corporativa, que tende a ser armazenada na cabeça das pessoas, em vez da computação em nuvem, mas poucas corporações ainda mostram uma demanda por isso. Hoje, os tomadores de decisão não veem com bons olhos os protestos de "coroas" de que certas coisas foram testadas antes e não deram certo. O ontem é uma coisa irritante.

Então, quais são as duas coisas das quais precisamos nos lembrar no trabalho?

A primeira é o crachá. Tento facilitar isso colocando o meu em um cordão e pendurando no pescoço, embora essa não seja uma solução definitiva, pois às vezes tiro o crachá do cordão, esqueço de coloca-¬lo de volta e fico tentando me lembrar onde o deixei.

A segunda é quem são as pessoas. Certamente é uma vantagem lembrar o nome de alguém, mas também como é comum esquecer, a consequência é menor. A coisa mais importante a respeito disso é lembrar dos rostos e de detalhes corriqueiros sobre essas pessoas.

Recentemente fui assistir "Para Sempre Alice", o filme em que Julianne Moore representa uma professora de linguística nos estágios iniciais do Alzheimer. O esquecimento de uma palavra em uma aula provoca um embaraço breve, mas ela faz uma brincadeira e se recupera rapidamente.

Ficar desorientada em uma corrida é pior, mas o verdadeiro horror é quando ela não consegue se lembrar da namorada do filho, 15 minutos depois de ser apresentada a ela. Você não precisa ter Alzheimer para se esquecer de um rosto, e quando isso acontece no trabalho é algo importante. Recentemente, estive em um evento corporativo com um homem que estudou junto comigo na universidade e parecia saber muita coisa da minha vida. Não lembrar nada sobre ele me colocou em desvantagem, ao ponto de quando ele me pediu um favor, fiquei sem jeito de dizer não.

Do mesmo modo, não muito tempo atrás encontrei-me com um executivo graduado com quem tive uma reunião de uma hora há cinco ou seis anos. Quando o cumprimentei de forma calorosa, ele me devolveu um olhar vazio, evidentemente certo de que nunca havia me visto antes. É provável que isso signifique apenas que ele tem uma memória fraca, mas levei para o lado pessoal ¬ conforme inevitavelmente a gente faz. Pensei: será que envelheci tão mal em cinco anos ao ponto de estar irreconhecível? Ou será que fui tão maçante ao ponto de ser esquecida?

A capacidade de lembrar das pessoas é, para mim, um ativo maior no trabalho do que a inteligência emocional. A maioria de nós não almeja especificamente a empatia no mundo corporativo, mas todo mundo quer ser lembrado.

Quanto maior a capacidade de alguém lembrar detalhes de conversas amenas antes das reuniões, mais inclinado você fica a confiar nessa pessoa. Não se trata apenas de uma habilidade característica dos políticos. Todos a tem.

Algum dia, provavelmente muito em breve, a tecnologia vestível fará o trabalho por nós, reconhecendo rostos e relacionando-¬os a um banco de dados de coisas triviais. Mas quando isso acontecer já será inútil. A razão pela qual queremos que as pessoas se lembrem de nós é porque isso é difícil. Se o computador fizer isso, desvaloriza o processo. Queremos ser lembrados porque isso é um sinal de que outro humano nos vê como um valor individual, e não como outro funcionário que pode ser trocado.

matéria publicada no jornal Valor em 11,12 e 13 de abril de 2015.