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PARA CONECTAR OS POBRES À INTERNET, EMPRESAS SE CONCENTRAM EM EDUCAÇÃO.

10/06/2015

Quando Sumarni, uma mulher de 39 anos de uma vila rural da Indonésia, pegou um smartphone pela primeira vez, reagiu dizendo “bingung,” que significa “confusa” em indonésio.

Olhando para superfície preta polida do telefone Android, ela perguntava: “Onde estão os botões?” Ela teve medo de segurar o aparelho, que custou muito mais que sua renda mensal de cerca de US$ 60, que obtém vendendo biscoitos e salgadinhos num cômodo de sua casa.

Agora, Sumarni é uma participante entusiástica da economia digital mundial. Ela usa o navegador do smartphone com competência, o serviço de mensagens WhatsApp e o site de rede social do Facebook Inc., FB -0.07% onde ela tem 40 amigos e lançou uma loja on-line de roupas e acessórios femininos.

Sumarni é a realização do sonho das empresas de tecnologia, que tentam alcançar os cerca de 65% da população mundial que ainda não têm acesso à internet. A possibilidade de conectar esses 4 bilhões de pessoas ao resto do mundo tem levado as empresas a agir e ajudado a elevar às nuvens o valor dos aplicativos e aparelhos preferidos dos investidores.

Fabricantes de aparelhos na China e na Índia estão produzindo em massa dispositivos de baixo custo, enquanto o Google Inc. GOOGL +0.36% e o Facebook têm chamado a atenção com um trabalho com drones e balões de alta altitude que transmitem a internet.

Na pequena vila onde Sumarni mora, a cerca de duas horas de Jacarta, e em zonas rurais no mundo todo, a realidade é menos animadora. Barreiras sociais que fogem ao controle das empresas estão mantendo as pessoas off-line. A corrida para colocar o próximo bilhão de pessoas on-line pode demorar mais do que muitos executivos preveem.

“É fascinante dizer: ‘Eu vou aos mais distantes rincões do mundo para conectar pessoas.’ Mas há tanta gente que tecnicamente poderia acessar a internet e não o faz”, diz Ann Mei Chang, ex-diretora sênior para mercados emergentes do Google, hoje diretora executiva do Laboratório de Desenvolvimento Global dos EUA, parte da Agência para o Desenvolvimento Internacional do governo americano.

Apenas 16% dos 250 milhões de habitantes da Indonésia acessam a internet regularmente, segundo o Banco Mundial. Os principais obstáculos são os salários baixos, falta de conhecimento digital e de conteúdos atraentes para a população.

Muitos usuários podem pagar pela internet, mas têm dúvidas sobre se vale a pena.

A introdução da web na vida de Sumarni levou três anos com estímulo e apoio financeiro da Ruma, uma “startup” de Jacarta que tenta tirar as pessoas da pobreza através do uso de dispositivos móveis.

Em 2013, Eric Schmidt, presidente do conselho do Google, previu que o mundo todo estaria on-line até o fim da década. Mas a expansão da internet para novos usuários está na verdade caindo.

Até 2017, 900 milhões de pessoas devem se conectar à internet, o que elevaria o total para 3,6 bilhões. Isso ainda deixaria cerca de 4 bilhões de pessoas off-line.

Kara Sprague, executiva da McKinsey que conduziu a pesquisa, diz que inicialmente esperava encontrar um grande número de pessoas muito pobres e sem educação e conhecimentos para acessar a internet. Mas isso se aplicava apenas a uma pequena fração das pessoas que optam por permanecer off-line. O estudo foi realizado em conjunto com o Facebook.

O diretor-presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, pensava que a pobreza era a principal barreira quando lançou a Internet.org dois anos atrás. A entidade pretende ampliar o acesso mundial à internet.

Representantes da Internet.org fizeram pesquisas em mercados emergentes, indo de casa em casa na Índia para conhecer os hábitos tecnológicos das famílias. “Perguntávamos: ‘Qual é o seu plano de dados?’”, lembra Zuckerberg. “A resposta era muito simples, mas meio arrebatadora”, diz ele. A maioria das pessoas respondia: “O que é um plano de dados?”

Agora, Zuckerberg diz: “Eu achava que, para conectar todo mundo, era preciso uma nova tecnologia e uma mudança na estrutura econômica. Ao contrário, é tudo uma questão de conteúdo e conscientização.”

A Indonésia personifica a vasta oportunidade e os desafios complexos de conectar as pessoas.

Anos atrás, o Google fez uma pesquisa na Índia com pessoas que nunca tinham usado a web, diz Chang, a ex-executiva do Google. A empresa mostrou a uma mulher o site do Google e disse que ela poderia procurar qualquer coisa escrevendo no campo de busca. A mulher respondeu: “Eu queria saber o que o futuro nos reserva.” A lição, diz Chang, era: “Precisamos ajudar as pessoas a partir do nível [de entendimento] em que elas se encontram.”

O esforço para conectar as pessoas é altamente fragmentado. No Google, as iniciativas de acesso à internet estão espalhadas em diversos grupos. O projeto Loon, o programa do Google para enviar balões pelo mundo para levar acesso à internet, é parte do laboratório de pesquisa Google X. Outros projetos de conectividade são tocados por equipes de mercados emergentes e escritórios regionais.

A Internet.org calcula que já ajudou a 7 milhões de pessoas a usar a transmissão móvel de dados pela primeira vez.

Zuckerberg, do Facebook, diz que nos próximos anos a Internet.org vai enfatizar a educação de campo, embora os esforços devam ser eclipsados por drones e satélites. A iniciativa de educar “não é um tema tão sexy” quanto o de conectar as pessoas, diz ele.

matéria publicada no jornal Valor em 23 de abril de 2015 por Evelyn M.Rusli.