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POÇO ARTESIANO: SIM OU NÃO?

03/06/2015

Antes de decidir por esse tipo de abastecimento, conheça os prós e os contras.

Embora algumas cidades brasileiras, a exemplo da capital paulista, tenham percebido sutil melhora no nível dos reservatórios em função das chuvas de fevereiro e março, a falta d’água não pode mais ser desprezada. “No ano passado, o estado de São Paulo apresentou o menor índice pluviométrico da história”, afirma Carlos Eduardo Giampá, conselheiro da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), entidade que promove ouso racional do recurso armazenado no solo. A crise hídrica sofrida especialmente na região Sudeste gerou repentina demanda de poços artesianos. O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), o responsável pelas licenças (outorgas) em Minas Gerais, registrou aumento de 53,8% nos pedidos de captação entre 2012 e 2014. De 2013 a 2014, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), do estado paulista, marcou evolução de 10% nas solicitações. “Diante do quadro atual, trata-se de um reforço”, acredita o físico Délcio Rodrigues, vice-presidente do Instituto Vitae Civilis, de São Paulo. “Mas, para resolver de verdade o problema, temos de somar várias fontes. Além do volume das companhias de saneamento e do poço, vale considerar o reúso da chuva”, pondera. Se, para alguns, o poço artesiano se mostra uma alternativa, outros o veem como a pior solução possível. “Isso por vários motivos. Um deles é transferir às pessoas a responsabilidade do fornecimento, um serviço público pago”, justifica o arquiteto Gabriel Kogan, mestre em estudos de águas urbanas pelo Institute for Water Education da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco-IHE). “Convenhamos: uma residência ter de buscar água por meio da exploração do subsolo evidencia a incapacidade gerencial dos governos municipal, estadual e federal. O acesso a esse bem figura entre os direitos mínimos do cidadão”, aponta Célio Bermann, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade São Paulo (IEE-USP). Para ajudar você nessa controversa decisão, ouvimos profissionais, empresas e instituições especializadas e traçamos o panorama a seguir.

POR DENTRO DO SISTEMA

Chamado tecnicamente poço tubular profundo, conta com diversos itens para captar a água do subsolo, que pode jorrar ou não. O primeiro caso se dá quando o aquífero é confinado e possui pressão natural. Quando essa última não basta, entram em cena os equipamentos de bombeamento.

Cavalete. Conexões e instrumentos instalados na boca do poço para monitorar sua operação.

Cimentação sanitária. Após concluir a perfuração, realiza-se a cimentação do espaço entre as paredes do poço e o tubo de revestimento. Na sequência, faz-se a laje de proteção sanitária para isolamento.

Solo. Areia e argila na parte superior da terra.

Filtros. Materiais aplicados nas rochas arenosas e conectados aos tubos lisos nos poços construídos nas rochas sedimentares.

Aquífero. Rochas que armazenam o recurso natural infiltrado no solo entre grãos de areia, cavernas calcárias e fissuras.

Pré-filtro. Trata-se da areia grossa entre as paredes do poço e do revestimento, impedindo a entrada de areia fina no filtro.

Laje de proteção sanitária. É construída com 1 m2 de concreto em torno do poço e inclinada do centro para as bordas.

Cabo de alimentação. Condutor que interliga a bomba no interior do poço ao quadro elétrico.

Tubo de revestimento. Em geral de aço, isola a obra da camada superficial, evitando desmoronamento e possíveis contaminações.

Tubulação edutora. De aço galvanizado, PVC ou mangueiras flexíveis, liga a bomba ao cavalete, por onde sai a água.

Eletrodos. Protegem a bomba.

Bomba submersa. Equipamento colocado no fundo para bombear o líquido.

Hora de mudar os hábitos. Não resta dúvida de que esse precioso volume subterrâneo pode desempenhar importante papel para a segurança hídrica da população, principalmente em momentos de escassez. “Porém, não acreditemos em soluções milagrosas. Furar o terreno não resolverá a situação de São Paulo”, afirma Gabriela Yamaguchi, gerente de comunicação do Instituto Akatu, ONG voltada ao consumo consciente. “Os poços até ajudam, mas a prioridade vai em direção à utilização racional, à diminuição do gasto”, acrescenta. Não há mais volta: precisamos mesmo mudar de vez a maneira como nos relacionamos com nossos recursos naturais. Na opinião de Délcio Rodrigues, a arquitetura ajudará. “Pensar um projeto que explore diferentes fontes de água é um dos caminhos”, garante.

Dois prédios em São Paulo contam sua experiência:
No Condomínio AllegriTatuapé, na zona leste, o projeto, que aguarda o aval do Dae e, atenderá a 168 apartamentos. “Fizemos três orçamentos e consultamos referências para escolher um nome”, diz a síndica, Ana Paula Queiroz. Os condôminos preferiram chamar um assessor técnico, o qual participou desde a contratação da perfuradora. Já gastaram R$ 98,2 mil sem contar os materiais de obra, como a tubulação de 220 m de profundidade.

No Condomínio Residencial Maison Jardim do Phoenix, na zona sul, o poço de 143 m de profundidade obteve a renovação de outorga, necessária a cada cinco anos. “Limpamos a tubulação a cada dois anos e meio”, revela o gerente do lugar, Mauro Hayacibara. O poço gera 4 mil litros por hora. Os 220 moradores dos 44 apartamentos também bebem a água. Para isso, a Maxiágua cuida do tratamento, e, mensalmente, a DH Perfuração de Poços a analisa. O custo mensal é de R$ 3,7 mil.

Matéria publicada na revista arquitetura & construção em abril de 2015 por Dan Brunini.