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EATALY QUER RECEBER “DA RECEPCIONISTA AO PRESIDENTE”

29/05/2015

Primeira unidade da rede italiana no Brasil abriu prédio de três andares.

O piomontês Oscar Farinatti era um empresário bem-sucedido quando decidiu, há oito anos, dar uma guinada profissional. Desfez-se de uma rede especializada em eletrônicos e eletrodomésticos para abrir um centro comercial focado em alimentação em Turim (Itália). Foi certeiro no conceito ao congregar no mesmo espaço restaurantes com propostas variadas e gôndolas repletas de tudo aquilo que alguém precisa para preparar uma boa refeição. Sem falsa doméstia e ao mesmo desprovido de arrogância, Farinatti diz nunca ter tido dúvida de que, ao inaugurar a primeira loja do Eataly, nascia um império.

“Qualquer projeto tem duas fases, a análise e o conceito. Na análise e o conceito. Na análise, e descobri que a comida italiana era a mais desejada no mundo, descobri que a comida italiana era a mais desejada no mundo, mas dispunha da menor estrutura de varejo. Percebi que o primeiro a entrar nisso se daria bem”, diz o empresário.

“Tinha segurança de que venceria. Não tinha certeza se aguenta física e psicologicamente. Mas aí juntaram-se meus três filhos e o Luca Baffigo [CEO do Eataly Internacional]. Com eles, a armada é invencível. Vamos entrar em todos os países.”

Em oito anos, a rede abriu 29 unidades. A mais recente começa a funcionar em São Paulo amanhã. Construção com paredes de vidro apoiadas vigas de ferro vermelhas, o Eataly Fica em um prédio de três andares e dois subsolos de estacionamento, número 1.489 da avenida Presidente Juscelino Kubitschek. Só a área de loja tem 4,5 mil m² ( 9 mil m² no total). Junto a cada departamento ficam os restaurantes afins: ao lado do açougue, o La Carne e o II Crudo; perto da peixaria o II Pesce, e assim sucessivamente. São sete pequenos restaurantes, mais o Brace Bar e Giglia. Onde fica uma microservejaria com produção própria. Uma equipe com 520 funcionários, entre cozinheiros, garçons, atendentes e estoquistas, cuida do funcionamento da megaloja

Para pôr o projeto em pé, um investimento de R$ 40 milhões, a cadeia italiana associou-se aos empresários brasileiros Bernardo Ouro Preto e Victor Leal, do grupo ST Marche ( que compreende, além das 18 lojas homônimas, o Empório Santa Maria ). Na sociedade estão ainda os parceiros americanos do Eataly, os chefs Mario Batali, Joe e Lidia Bastianich e os irmãos Adam Alex Saper. Os grupos italiano e o americano estão em processo de união global. A sociedade não será mais apenas no território americano e é provável que, até 2018 a empresa abra o capital.

O grande desafio dos sócios locais, que têm 40% do negócio e vão cuidar da operação, será mais apenas no território americano e é provável que, até 2018, a empresa abra o capital.

O grande desafio dos sócios locais, que têm 40% do negócio e vão cuidar da operação, será reproduzir no Brasil a fórmula de sucesso do Eataly Internacional, que consiste em oferecer produtos de excelência italianos, praticar preços razoáveis e encontrar bons fornecedores artesanais brasileiros. O primeiro ponto aparentemente está garantido, com oferta de pastas secas Afeltra e Rigorosa : de molhos, geleias e compostas Mariangela Prunotto; das pastilhas Leone, das gasosas Lurisia e Baladin e de uma seleção de vinhos italianos. Os preços serão conhecidos apenas amanhã.

“O Eataly é democrático, foi criado para alimentar todo mundo com coisas boas”, diz Ouro Preto. “Não é ‘nichado’. Estamos rodeados de prédios de escritório. É para vir de recepcionistas ao presidente. Estamos preocupados com isso”, afirma Leal.

Já a oferta de produtos brasileiros de pequenos e médios fornecedores é, dizem os sócios, “uma enorme dificuldade”. “Pôr marcas artesanais na prateleira é dificílimo, ainda mais com as regras e imposições [dos órgãos fiscalizadores, como a Anvisa e o Mapa]” diz Leal. “Há 20 anos tomávamos [o vinho branco alemão] Liebfraumilch. Hoje temos uma adega 800 rótulos de bons produtores italianos. A gente não vai revolucionar o mundo em duas semanas. É um processo, e não vamos abrir mão disso”.

A loja abre com marcas nacionais desconhecidas (ou pouco conhecidas) pela maioria, como os sucos, conservas e papinhas orgânicas da Agreco (Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral, de Santa Catarina), os laticínios da Oikos e da Fazenda da Toca, os doces e galeias Do Pé ao Pote e da Mazé, os embutidos da Cinque, os chocolates da Mendoá, alguns queijos de leite cru mineiros e a farinha de mandioca do “seu” Bené, de Bragança, no Pará. “Nossa maneira de ir para o exterior é o profundo respeitos pelos produtos do território. Não é possível e seria burrice, importar tudo da Itália, Trazemos só as excelências, como o parmigiano-regiano e os tomates San Marzano. O grosso dos produtos usados nos restaurantes vão ser comprados aqui”, diz Farinatti.

Para encontrar e selecionar marcas pequenas e locais de qualidade, a rede conta com o apoio do Slow Food. Mas, por enquanto, dos produtos usados nos restaurantes vão ser comprados aqui”, diz Farinatti.

Para encontrar e selecionar marcas pequenas e locais de qualidade, a rede conta com o apoio do Slow Food. Mas, por enquanto, dos produtos endossados da Fortaleza do Umbu, projeto que protege ingredientes ameaçados de desaparecimento estimulando sua produção (neste caso, vindos da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauã e Curuçá, na Bahia). A parceria com a organização é de clarada e contou com a presença do italiano Carlo Petrini, presidente do Slow Food e amigo de Farinatti. Publicamente, Petrini cobrou dos sócios do Eataly a remuneração adequada de toda a cadeia produtiva, uma das principais bandeiras do movimento.

“Vocês têm um patrimônio incrível de biodiversidade e isso precisa ser reconhecido por um preço justo, valorizando os pequenos agricultores e a agricultura familiar”, diz Petrini. “Ao se praticar uma economia diferente pode-se ganhar muito mais. Agora quando se faz como a maioria dos mercados, que pagam barato e não dão valor à comida nem à biodiversidade, o resultado é a pobreza. Nossa filosofia não é a da caridade, e a da inteligência. Na economia da inteligência permite-se que toda a cadeia viva bem”.

Matéria publicada no jornal Valor em 16,17 e 18 de maio de 2015 por Janaina Fidalgo.