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“É PRECISO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PARA A VIDA URBANA”

27/05/2015

A vida nas grandes cidades brasileiras só vai melhorar com o engajamento da população nas políticas públicas. Para o arquiteto e urbanista Nestor Goulart Reis Filho, não adianta ir para a rua apenas para protestar. É necessário dar um segundo passo e assumir responsabilidades como cidadão, desde o respeito às regras no trânsito até a fiscalização das obras e serviços públicos.

Em uma época em que metrópoles de todos os tamanhos crescem e se espalham pelo país, os governantes devem adotar programas administrativos arrojados e integrados para melhorar a vida da população. "A vida urbana no Brasil é extremamente precária", diz o professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e autor de mais de 30 livros sobre urbanismo no Brasil.

Valor: Quais as principais mudanças no processo de urbanização no Brasil nas últimas décadas?

Nestor Goulart Reis: A principal delas é a explosão urbana. Em 1940 o Brasil tinha 13 milhões de habitantes morando nas cidades. Hoje são 170 milhões. A população se urbanizou e se concentrou em polos. Primeiro em nove ou 10 regiões metropolitanas. Depois, nas regiões metropolitanas formadas ao redor de cidades de 100 mil, 200 mil habitantes que, apesar de menores, apresentam modos de vida que podemos chamar de metropolitanos.

Valor: O IBGE mapeou recentemente agrupamentos urbanos com forte integração populacional e que ocorrem em razão da migração, do emprego e da educação.

Reis: O estudo procura ver as relações cotidianas entre dois ou mais municípios. Mesmo que eles sejam menores, digamos com 50 mil habitantes, existem casos de duas ou três cidades que mantêm uma relação cotidiana intensa. Muitas pessoas moram em um município e trabalham em outro, indo e vindo todos os dias, formando um sistema complexo. O IBGE identificou 938 municípios com essas características e que englobam 56% da população brasileira. Portanto, mais da metade da população vive em municípios com esse tipo de relação cotidiana intensa. E eles não estão apenas na região Sudeste.

Valor: Qual o impacto da dispersão urbana na vida da população?

Reis: Aumenta a intensidade do tráfego. As coisas ficam mais complicadas. O custo nos serviços urbanos é maior, pois é preciso estender linhas elétricas, melhorar as linhas de transporte rodoviário etc. A cidade dispersa é mais cara do que a concentrada. Esse é um dado econômico. Mas não quer dizer que vai deixar de existir por causa disso.

Valor: Podemos citar uma pessoa que mora em Campinas e trabalha em São Paulo todos os dias como uma característica dessa dispersão?

Reis: Sim. É um modo de vida que se dispersa. Você tem diferentes funções em diferentes áreas, que é o que o IBGE está estudando. Outro bom exemplo: na Cidade Universitária há cerca de 45 linhas de ônibus que ligam a USP a outros municípios. No fim da tarde há três linhas para a Baixada Santista. E a linha de ônibus que liga a USP à Unicamp, em Campinas, tem três horários diferentes por dia, nos dois sentidos.

Valor: Como devem ser direcionadas as políticas públicas diante desses novos arranjos populacionais?

Reis: A política brasileira, há muito tempo, se faz por meio de processos eleitorais e não há preocupação com as políticas públicas. Isso me preocupa muito. Creio que os protestos que correm por aí têm muito a ver com isso. As pessoas se frustram. É preciso ter quadros técnicos permanentes que definam as políticas públicas de curto, médio e longo prazo. Isso vale para o ensino, para a saúde pública etc. As pessoas hoje em dia discutem muito mais finanças do país do que as práticas administrativas. E os governos não foram feitos para gerir apenas finanças; têm também de gerir o cotidiano da população. É preciso rever todos os critérios de serviços públicos, em especial de infraestrutura. Isso inclui os serviços prestados pela iniciativa privada, como o sistema de telecomunicações. O problema é que no Brasil quase tudo se faz mal feito. A vida urbana no Brasil é muito precária.

Valor: Precária?

Reis: Extremamente precária. O pedestre anda onde bem entende e reclama dos motoristas. O motorista faz o que quer e reclama dos pedestres. Todos reclamam e ninguém assume responsabilidades. É preciso um programa de educação para a vida urbana. A mortalidade no trânsito é imensa. Os serviços são horríveis. Todos temos que ser educados. É claro que os políticos e servidores públicos em primeiro lugar, mas a população também. Precisamos de políticas públicas modernas. Administramos grandes metrópoles como pequenas cidades.

Valor: Quais seriam os caminhos em termos de políticas públicas?

Reis: Primeiro elas têm de ser integradoras. É o caso da energia elétrica. Antes, eram usinas municipais, depois elas passaram a ser regionais. Hoje tende-se a integrar o sistema elétrico em escala continental, como na Europa. Isso vale para o uso da água também. O problema é que as pessoas não enxergam porque não conseguem compreender a natureza dos problemas que enfrentamos. População, governo, técnicos. Estão todos com soluções de 50 anos atrás.

Matéria publicada no jornal Valor em 24 de abril de 2015 por Marcus Lopes.