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MESMO CARA, PRODUÇÃO BRASILEIRA ATRAI ESTRANGEIROS

26/05/2015

A moda praia brasileira continua no radar do mercado internacional. O "life style", que vai muito além de maiôs e biquínis, ainda enche os olhos dos varejistas estrangeiros - e encantam o consumidor que vive longe dos trópicos. Compradora do e-commerce multimarcas Net-a-porter (www.net-aporter.com/br/en/), a executiva Maria Williams esteve em São Paulo para a 39ª edição da SPFW.
Ela se encantou com a variedade de estilos que pôde ver em apresentações de marcas como Lenny Niemeyer, Adriana Degreas, GIG Couture, UMA e Têca. "Quando as pessoas pensam em moda praia, elas pensam nos biquínis brasileiros", diz a executiva.

Responsável por selecionar peças que serão vendidas pelo Net-a-porter, Maria veio ao Brasil a convite do Texbrasil - o Programa de Internacionalização da Moda Brasileira, da Associação da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) em parceria com a Apex. "Há muita oportunidade para exportar", afirma. Criado em 2000, o Net-a-porter é um dos maiores e mais conceituados e-commerces de moda do mundo. Desde 2010, ele pertence ao grupo Richemont, da Suíça. A executiva falou com exclusividade ao Valor.

Valor: Quais desfiles e marcas chamaram a sua atenção?

Maria Williams: Eu já havia assistido a lançamentos de moda praia em Miami, mas nada parecido com o que vi no Brasil. Os desfiles aqui são inacreditáveis. O único problema é que atrasam demais, alguns quase 1h30! Visitei os showroons de Adriana Degreas, Animale, PatBo, Água de Coco, Lilly Sarti, Pedro Lourenço, Cartel 011, Têca por Helô Rocha, Intensify Me e Fabiana Milazzo. E vi alguns desfiles, como os de Vitorino Campos, GIG Couture, Colcci e Gloria Coelho. Adorei a coleção de Lenny Niemeyer, que tem exatamente o que a nossa consumidora procura. E não me refiro apenas às peças de banho, mas também às roupas da marca, incrivelmente elegantes. Dá para imaginar a consumidora usando as peças, de inspiração marinheira, em alguma praia, com a brisa soprando.

Valor: E entre as marcas de moda casual?

Maria: Gostei muito do desfile da Têca. A designer Helô Rocha se afastou da estamparia, optando pelos tons de preto e 'off-white', com pitadas de vermelho. Na passarela, era possível notar a diferença de texturas entre a renda, o macramê e o bordado. O resultado ficou dramático, como um conto de fadas! Também gostei muito da coleção da GIG Couture, inspirada nos anos 1970, com muitas cores e padronagens. Outro destaque foi a grife UMA, com roupas mais discretas, de estética limpa, que têm muito a ver comigo. O desfile, incluindo o casting de modelos e a sequência da apresentação, foi maravilhoso.

Valor: Você comprou peças de algumas dessas grifes?

Maria: Ainda não, porque as coleções ainda não estavam prontas para serem comercializadas. Mas, atualmente, compramos de duas marcas brasileiras de moda praia: Adriana Degreas, cujas peças devem estar disponíveis no site até julho, e Vix. Esta última é vendida no Net-a-porter há uns sete anos. É uma marca muito boa, com peças que vestem muito bem.

Valor: O que o site busca, em termos de estilo?

Maria: Quando se fala em moda praia, o que buscamos, no Brasil, são as estampas. A gente já compra muita peça lisa em outros lugares. Mas não pode ser qualquer estampa, porque o cliente do site vai ver a peça em fotos pequenas. Por isso, as estampas com contraste, grandes e gráficas, como as de Adriana Degreas, funcionam melhor. E vale dizer que os nossos consumidores não são do tipo atlético. Portanto, não querem usar peças de corte brasileiro, que são pequenas demais.

Valor: Em qual quesito a nossa moda ainda peca?

Maria: No preço. Não tem sentido uma marca brasileira, que não é conhecida lá fora, chegar ao mercado custando o que custa a Chanel. É preciso pesquisar o mercado, ver o que há de similar com o seu produto e fazer cálculos em cima disso. Todo mundo tem problemas com a flutuação do câmbio. Mas se quiserem exportar, é essencial saber precificar os produtos. E, claro, entender que uma marca pode ser percebida de forma diferente lá fora e fazer o que for preciso para se adaptar.

Valor: E o que fazer para nos tornar mais competitivos?

Maria: Como eu disse: primeiro é uma questão de precificação correta. Depois, de investir nas coisas certas para poder crescer. Não é preciso gastar dinheiro, por exemplo, fazendo um 'look book' de papel supercaro e nada ecológico. Mas é essencial investir em mídias sociais. Atualmente, várias marcas fazem muito sucesso no Instagram, onde crescem criando demanda pelos seus produtos.

Valor: O que achou do desfile de despedida de Gisele Bündchen, para a Colcci?

Maria: Foi inacreditável viver essa experiência e poder ver tanta emoção no rosto da modelo. Nunca senti um clima tão eletrizante e é algo que eu nunca vou esquecer. Sobre a coleção em si, eu gostei da forma como mostraram os sutiãs. Eu também costumo comprar lingeries, para o site, e é muito bom ver essa peça íntima sendo usada de forma mais aparente, com vida. Também gostei dos vestidos brancos e do jeans.

matéria publicada no jornal Valor em 28 de abril de 2015.