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PAIXÃO PELA FÍSICA LEVA À LUMINÁRIA ITELIGENTE

22/05/2015

Fundador da Luminae cria modelo de negócio em que o forte é a garantia de redução de consumo de energia.

André Ferreira gosta de física e também de ensinar física. Toda sexta-feira, entre as 7h e as 13h, pode ser encontrado no cursinho Anglo da Granja Viana e, depois, no de Alphaville, em São Paulo. Gosta tanto, que em 2003 chegou a dar perto de 50 aulas por semana, quando ele e um colega com quem cursou engenharia elétrica na Universidade de São Paulo eram donos de um pequeno cursinho: "Imagina: eu com 19 anos entrevistando professor de biologia, de história...".

Mas agora o tempo é curto: Ferreira chega a sua fábrica de luminárias, a Luminae, no bairro da Casa Verde, por volta de 7h e raramente sai antes das 22h. Filho de um físico e de uma filósofa, apaixonado pelas ciências exatas, o engenheiro acabou se tornando fabricante de um objeto dos mais exatos.

A lista de multinacionais e de grandes varejistas em sua relação de clientes não deixa dúvidas de que ele conseguiu construir um diferencial em seus produtos conceitualmente simples.

Uma luminária de luz fluorescente em geral é um dispositivo muito simples, formado por apenas três peças: a lâmpada, o reator (que fornece eletricidade sem grandes oscilações) e um perfil metálico que serve de estrutura para ser fixado ao teto. Simplicidade e preço baixo fizeram com que ela se tornasse a preferida nos projetos de iluminação para grandes espaços como armazéns, escolas, fábricas e hospitais a partir de 1938, quando a lâmpada fluorescente foi lançada no mercado mundial. Com exceção dos reatores eletrônicos, surgidos no final dos anos 1970, mais silenciosos e que fazem a lâmpada acender instantaneamente, nada mudou muito nesses objetos nas últimas décadas.

Mas André Ferreira conseguiu inová-las. Ele trabalhou em duas frentes: primeiro, na seleção dos materiais e no projeto das luminárias; segundo, num modelo de negócios no qual o que ele vende são projetos que levam a uma economia de energia e a uma melhora na iluminação. Ao final de cada um, ele entrega ao cliente o relatório contendo tabelas, gráficos e fotografias do "antes" e do "depois", sempre com um "luxímetro" (aparelho que mede a intensidade da luz) no primeiro plano da imagem. Só em economia de energia, os números dos relatórios indicam reduções que oscilam entre 40 e 70%.

Os luxímetros são instrumentos pequenos, pouco maiores do que um celular, e em 2008 André Ferreira carregava um no bolso para medir a luz em supermercados: "Cheguei a ser levado para fora de algumas lojas pelos seguranças, porque não sabiam o que eu estava fazendo e naturalmente eu poderia ser alguma espécie de risco", relembra. "Eu percebia que a área de iluminação era pouco desenvolvida em termos de eficiência energética, embora estivesse muito bem no que se refere a design e decoração - havia um campo gigantesco de atuação e eu não via ninguém fazendo isso", comenta.

As observações de Ferreira indicaram que era possível criar uma luminária muito melhor do que as vendidas nas lojas, se ele conseguisse descobrir duas coisas: como aproveitar a luz desperdiçada e também qual era a melhor combinação de lâmpada e reator, para render o máximo de luz a cada watt consumido. A resposta exigia, primeiro, a compra de lâmpadas e reatores de todas as marcas disponíveis e de espelhos metálicos - os refletores - de diferentes fabricantes, já que era obrigatório utilizá-los para reduzir o desperdício. Depois, foi preciso improvisar um laboratório para medir a intensidade da luz obtida de cada combinação. No ajuste final de cada luminária, podiam ser variados também a curvatura do espelho e a distância entre a lâmpada e ele, conforme a aplicação planejada exigisse luz mais direta ou mais espalhada. Em outras palavras, André Ferreira aplicou nas suas luminárias os princípios elementares da óptica dos espelhos.

Mesmo assim, foi difícil conseguir o primeiro cliente: "A parte técnica é difícil, mas entrar no mercado é muito mais", lamenta. "O difícil é você conseguir marcar uma apresentação com alguém. Eles perguntam se você tem clientes e onde já fez uma obra, e a gente não tinha nem uma coisa nem outra", relembra Ferreira. A primeira reunião positiva foi com o diretor de engenharia da rede Ricoy, que tem 74 lojas na capital e no interior de São Paulo, e só foi marcada porque o pai de André conseguiu falar com um dos donos, o empresário Sussumu Honda, ex-presidente da Associação Brasileira de Supermercados.

Antes do encontro, Ferreira visitou algumas lojas da rede, inclusive a mais moderna, no Guarujá, e com os números que trouxe montou uma proposta: a redução do consumo de energia alcançava 60% na loja mais nova, batia em 70% nas antigas e aumentava em 40% a iluminação: "Fechamos um contrato de 600 luminárias para uma loja que estava em construção - tive de chamar mais dois amigos para ajudar, mas entregamos no prazo", relembra.

Seis anos depois desse contrato, a rede Ricoy já tem 40 lojas equipadas pela Luminae, e desde então a lista de clientes de Ferreira não parou de aumentar. As pesquisas não pararam e as luminárias já evoluíram: passaram a usar LED no lugar das lâmpadas fluorescentes, e estão sendo montadas com máquinas automáticas, que acabam de ser importadas e ficam numa sala especial, com clima controlado.

Para André, é mais uma área da fábrica para consumir tempo com seu olhar de engenheiro. É uma das tarefas que o faz chegar tão cedo ao trabalho e sair tão tarde. Férias? Não estão nos planos. Ele relaxa nas sextas-feiras, de manhã, dando aulas de física para alunos de cursinho.

matéria publicada no jornal Valor em 30 de abril a 1 de maio de 2015 por Paulo Brito.