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ESCRITÓRIOS REFLETEM A CULTURA DA EMPRESA

20/05/2015

Marcos Schmidt, líder de desenvolvimento de pessoas para a AL da Dow, diz que a empresa adotou mesas compartilhadas e espaços para conversas informais.

Empresas mudam espaço físico para promover maior interação dos profissionais no trabalho.
Para entender os valores de uma empresa, evite os discursos institucionais declarados na “missão” da companhia e faça uma visita ao escritório dela. O espaço físico de uma organização diz muito sobre a cultura e a forma de trabalhar nela – e também revela grandes transformações pelas quais o mundo do trabalho passou ao longo dos anos.

Cientes disso, companhias que passam por mudanças de escritório aproveitam para promover amplos processos de modificação também cultural. É o caso da empresa de cartões de benefícios Alelo, que vem investindo em um processo com esse objetivo desde 2013. A ideia, segundo o CEO, Eduardo Gouveia, é tornar a empresa mais focada no cliente final e funcionário. O caminho encontrado foi o de quebrar a hierarquia e tornar a comunicação mais fluida.

Essa “missão” está norteando o projeto do novo escritório, para o qual a empresa vai se mudar em junho. O novo prédio, também no bairro de Alphaville na Grande São Paulo, onde fica a atual sede, vai reunir as seis empresas do grupo em um mesmo edifício. “Nossa crença é que o novo espaço físico vai reforçar a cultura que queremos para a companhia”, diz Gouveia, que visitou seis empresas de setores variados para buscar inspiração.

No escritório atual, as mesas estão organizadas em baias altas, que deixam os funcionários de costas um para o outro, e os diretores possuem sala própria. No novo espaço, todos sentarão em mesões coletivos, inclusive Gouveia. Algumas áreas, inclusive Gouveia. Algumas áreas não terão lugar fixo – como a comercial, que passa boa parte do tempo em visita a clientes. “É uma mudança forte de posicionamento. Hoje, os móveis causam isolamento e o conceito novo vai propiciar integração”, diz.

Haverá um andar com 42 salas de reuniões para todas as empresas do grupo. Na Alelo, existirão espaços informais com sofás e mesas para serem usadas em conversas rápidas entre os funcionários. Já os gaveteiros têm rodinha e estofado em cima, para serem usados como bancos e permitirem reuniões rápidas na própria estação de trabalho.
Para a professora Maria Stella Tedesco, que dá aulas de design e arquitetura na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), mudanças desse tipo refletem as transformações na relação pessoal que os profissionais têm com o trabalho. “As empresas estão menos preocupadas com lugares individuais e mais interessadas nas trocas entre os funcionários. Para isso, os espaços coletivos se tornaram mais acolhedores” diz.

Na sua experiência, uma grande tendência é ter espaços e móveis multifuncionais – como o gaveteiro que também serve como o banco e cafés que são usados como salas de reunião. Nos últimos dois anos, o conceito de “hot desk” – quando os funcionários não tem lugar fixo – também passou a ser mais adotado. “Com ele, há mais facilidade de variar o local de trabalho. O home office também é um reflexo disso”, ressalta.

A tendência é abrir os ambientes, e manter divisões apenas em organizações onde o trabalho exige confidencialidade, ou naquelas que ainda possuem hierarquia forte, Os espaços refletem o próprio dinamismo do mercado. “Empresas crescem e diminuem de acordo com a demanda. Desse modo, qualquer projeto do escritório hoje precisa ser flexível”, diz.

Na construção do ambiente físico, há sempre uma necessidade de equilíbrio entre valores que a empresa quer comunicar e as necessidades dos funcionários para tornar o trabalho mais eficaz possível. Para a consultora Jacqueline Resch, sócia-diretora da Resch Recursos Humanos, a organização do espaço deve representar adequadamente as necessidades de todos. “É preciso pesquisar e ouvir os funcionários antes de introduzir qualquer mudança que possa impactar o trabalho deles”, diz.

Isso fez com que a companhia química Dow, que se mudou para um escritório com espaços mais abertos em 2011, promovesse no ano passado um projeto para fazer ajustes no design da empresa. Para chegar às novas modificações, todos os funcionários responderam um questionário sobre sua relação com o espaço físico, e alguns profissionais foram selecionados para observar a rotina do trabalho nos andares.

O resultado foi a criação de mesas compartilhadas, espaços para conversas informais, uma zona do silêncio com 24 estações de trabalho isoladas do barulho e a instalação de 418 armários para os funcionários que trabalham parte da semana de forma remota e não possuem estação fixa. “É um processo contínuo para assegurar uma ocupação mais sustentável e garantir que todos os espaços sejam usados de forma inteligente”, diz Marcos Schmidt, líder de desenvolvimento de pessoas para a América Latina.

A reforma aumentou a capacidade total do escritório de 876 para 1.150 pessoas. Hoje, o design da Dow Brasil é referência para outras subsidiárias da América Latina, onde a cultura da empresa e do povo é mais parecida. “Cada região é diferente porque o projeto exige uma análise da cultura. Os latinos são mais abertos barulhentos e gostam de sustentar relacionamentos. Isso contribui para o sucesso do projeto.”

matéria publicada no jornal Valor em 2,3 e 4 de maio de 2015 por Letícia Arcoverde.