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ENTRE NOTAS E CURVAS

15/05/2015

IRMÃOS FAHRER

Da observação e da necessidade, Sérgio cria móveis que chamam a atenção pelas linhas orgânicas e inovação de materiais, levando o design brasileiro ao topo quando o assunto é mobiliário.

Um dos nomes mais expressivos do design de mobiliário contemporânea brasileiro, Sergio Fahrer, leva a assinatura verde e amarela para Paris, Londres e Nova York através de suas peças.

O mais curioso é que sua intenção nunca foi criar móveis. Entretanto, o primeiro que inventou, por pura necessidade, rendeu-lhe prêmios internacionais e uma nova carreira pela qual de apaixonou.

Depois de se formar em Engenharia e comandar uma empresa de eletrônicos em São Paulo por dez anos, no início dos anos 1990 foi para Los Angeles estudar música no MIT [Musician Institute of Technology]. Lá, parou no laboratório de luthiera, lugar onde são confeccionados instrumentos. Em um banquinho desconfortável e sem encosto, sentia dor nas costas ao manusear o contrabaixo. Observando a maneira com que a laminação do corpo dos instrumentos era feita [intercalando as lâminas com cola], teve a ideia de uma cadeira funciona. Inspirando no Cajon [instrumento de percussão], a Blues, como foi batizada, ganhou o primeiro lugar no Woodcraft Design Award, em 1993, e rendeu a Sergio um conite para desenhar as peças da Dpot no Brasil. Assim, voltou-se para o design. Com seu conhecimento de engenharia, desenvolveu um insumo inédito para a Blues e, hoje, a marca Fahrer é referência mundial quando o assunto é madeira curvada. A técnica da multilaminação, que foi panteada e obteve registro de tecnologia nos mercados nacional e internacional, é usada como alternativa à madeira maciça.

A sustentabilidade, aliás, sempre foi uma preocupação na empresa – pioneira no uso do alumínio de aviação e naval em suas peças -, que desde 2007 agregou o irmão Jack na criação. Também músico, tem formação na área de moda e experiência com HQ. Desde então, os irmãos desenham e criam juntos, cada qual com seus pressupostos.

Gostamos de materiais e seus desafios. Adoramos a madeira e em seguida vem o alumínio naval e aeronáutico, vidro, fibra de vidro, aço, entre outros.”

Quais suas rotinas de trabalho?

Fazemos uma coleção anual que varia em número de peças. Na média são 15. Não temos uma rotina muito rígida e, dependendo da semana, mais tempo desenhado ou indo à fábrica.

Vocês são referência no Brasil quando o assunto é madeira curvada e inventaram uma nova técnica da multilaminação.

Inicialmente, lâminas de 0,7 mm foram intercaladas com cola de componente e mantas de tecido.

Hoje o material que utilizam é feito da mesma maneira?

As peças de madeira curvada levam esta técnica, porém quando utilizamos outros matérias ou a própria madeira maciça as técnicas variam, o que adoramos em nosso trabalho.

Por que curvas em vez de linhas retas?

As linhas curvas são mais desafiadoras, tanto ao olhar como tecnicamente.

A busca por novos materiais é uma constante no trabalho de vocês.

Quais foram os que mais gostaram de trabalhar?

Gostamos de materiais e seus desafios. Adoramos a madeira e em seguida vem o alumínio naval e aeronáutico, vidro, fibra de vidro, aço, entre outros.

Estão pesquisando algo novo?

Neste momento estamos desenvolvendo uma linha de acrílico com impressão NANO.

Qual a importância da sustentabilidade para o design hoje – tanto quando se pensa na responsabilidade de quem produz quanto na receptividade do produto no mercado?

Somos formentadores do uso correto e ecológico de todas as matérias – primas. Fui um dos primeiros designer a apoiar o selo do FSC no Brasil. Considero uma obrigação trabalharmos de maneira sustentável.

Quais são suas referências?

As minhas vêm da minha família e da minha vida. A informação está disponível, mas o que fazemos com toda a diferença.

Houve um tempo em que vocês tinham peças deferentes no exterior e no Brasil e no Brasil, certo? Isso ainda acontece?

Hoje todas as coleções no Brasil. Há alguns anos tínhamos uma política de exclusividade que impedia termos as peças no Brasil e no exterior.

Vocês veem diferença de perfil no consumidor de design europeu, americano e brasileiro?

Sem dúvida, cada mercado tem sua particularidade. Temos peças que vendem mais na Europa que nos EUA e assim por diante.

O que uma peça de mobiliário Fahrer tem que ter?

Design, ergonomia, ser benfeito á mão e durar por vidas.

Das peças criadas por vocês, quais são suas preferidas e por quê?

São várias, entre elas a Blues, a cadeira Charles Miller, a mesa de centro Tapajós, a poltrona Cariaí e a chaise longue Paso Doble.

Conselhos para os estudantes de design?

Não tenhan medo de arriscar e errar.

A arquitetura moderna do conhecido Edifício Louveira, na Praça Vilaboim, é a assinado por Jack. As linhas retas, o jogo entre simetria e assimetria, as cores e o desenho da fachada foram recriados nesta peça de mobiliário, com especial atenção para o conforto e composição das diferentes almofadas.

A mesa de centro Bela Cintra foi desenhada por Sergio tendo como estímulo os prédios antigos da conhecida rua paulistana.

O banco Copan, de Sergio Fahrer, acentua a quebra dos ângulos retos, tão fortemente presente na arquitetura de Oscar Niemeyer. As chapas de concreto horizontais eu cruzam a fachada do edifício foram referência para a construção do banco.

Sergio Fahrer e Jack Fahrer criaram a cadeira Charles Miller estimulados pela arquitetura do Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940. Os pés torneados são influência direta das peças de Joaquim Tenreiro. O encosto tem linhas curvas, fazendo referência ao desenho do estádio visto acima.

A cadeira Blues tem encosto maleável e é livre de braços. O detalhe é que é feita com palhetas de guitarra [1.500 especialmente], material inédito em mobiliário. Existem apenas 72 peças numerados no mundo.

A poltrona Cariaí, símbolo do trabalho do designer com a madeira curvada.

Matéria publicada na revista abc Design em julho, agosto e setembro de 2014 por Rafaela Sabatowitch.