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A BELEZA DA IMPERFEIÇÃO

11/05/2015

Os sinais do decorrer do tempo ficam evidentes na arquitetura da fábrica de doces Bhering, no Rio de Janeiro. Desativada nos anos 1990, ela hoje abriga ateliês de artistas.

Quem diria?! A decoração, esse ofício tão belo e agradável, visto por alguns como frívolo e superficial, pode, sim, ser analisada e encarada de maneira séria e definitiva e com reflexo direto no pensamento e no comportamento histórico de uma sociedade. Introdução dramática á parte, o tema é tão sério e libertador que vale três minutos do leitor brasileiro. A aceitação da ação do tempo, da história, da afetividade que suplanta a necessidade dos frios móveis dos estandes de venda é a saída para uma vivência repleta de cultura, olhar para o crescimento de nossa nação e até mesmo o crescimento de nossa independência no cenário ara o próprio umbigo. Ainda não sabe mundial.

O Brasil insiste em importar costumes e ideias. Ainda não sabe olhar com amor para amar a história de seu mobiliário, seja ele manuelino ou Sergio-Rodriguiano. Ainda vive, parece, sob a sombra de um momento em que a modernidade significava estrada e caminhão, construção e tijolo. Pois não vejo dessa maneira. O Brasil é adulto grande e rico. Um novo rico. Precisava, a meu ver, aprender a viver melhor. Viver com menos e de maneira mais inteligente. Ecológica, respeitosa. É preciso valorar a história e trazer cultura para a decoração: uma mancha numa antiga mesa de jacarandá pode ser a cicatriz de uma noite bem vivida por seus avós, e o desgaste na pintura de um armário de cozinha preserva sua verve de outrora, sua alma. Esse tipo de vestígio garante á casa a sensação de pertencimento ao espaço ao espaço, á história, á localidade. Ver beleza nas marcas do tempo num móvel de família e entender o momento em que foi criado são etapas do processo que reorganiza a cidade a partir do indivíduo e da maneira como ela conduz sua casa, seu prédio e seu bairro. Faria um paralelo entre as linhas acima e uma metrópole sem senso de tica. Imagine, leitor, São Paulo sem o Theatro Municipal ou até mesmo Belém sem o mercado Ver-o-Peso! E é preciso saber produzir mobiliário que possa entrar na história também! Reúsos são soluções para o bem viver nas grandes metrópoles e não podem mais ser postergados. A concepção de ambientes que dialoguem com a simplicidade da vida, dos refúgios urbanos, é escola sobre convivência e humanidade.

O tema é vasto e pode ser analisado por tantos ângulos quanto cria um caleidoscópio. A base dele é cultural e histórica, acho, mas o ponto é uma nova maneira de decorar que seja mais intuitiva e respeitosa para com nossos novos modos de viver e com a sociedade em que estamos inseridos. Decoração cultural, arriscaria, pode ser um a nova e melhor sociedade.

Matéria publicada na revista arquitetura & construção em março de 2015 por Gabriel Valdivieso.