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O MARKETING DO EMPREENDORISMO

07/05/2015

Os binoculares estão instalados na avenida Paulista e em outros pontos de grande circulação na cidade. Não há vista panorâmica com natureza exuberante, mas um outro tipo de horizonte inspirador. Quem encaixa os olhos ali pode conferir cinco vídeos eu contam histórias de empreendedores sociais. Gente como Ricardo Lima, que por meio do Worldpackers criou uma comunidade para trocar hospedagem por habilidades, ou Flavio de Almeida, que com o aplicativo de “smartphone” ProDeaf traduz o português para a língua de sinais. Ou, ainda Luiz Eduardo Rocha, do coletivo de designers Zerezes que faz óculos de sol com resíduos de madeira.

A iniciativa da marca de uísque Chivas, que tem como mantra “Vença do jeito certo”, ilustrado o movimento das empresas que para rejuvenescer estão se conectando não só com moda música, mas com empreendedorismo.

“Nossas pesquisas globais revelaram que os millennials’, jovens de 20 a 30 anos, querem encontrar seu caminho e alcançar seu caminho e alcançar o sucesso, mas com um compromisso com o entorno e com o próximo. E isso tem tudo haver com o DNA da Chivas, que é o cavalheirismo”, explica Rafael Souza, gerente de grupo de marcas “brown spirits” da Pernod Ricard.

A agência britânica de pesquisa de tendências Trendwatching recomenda que as empresas “mergulhem e se alimentem”, no que batizam de “entreprenuria” para atrair “amor e atenção” de todos os cidadãos. O termo dá conta dos consumidores que estão “criando, fazendo artesanato, inventando, reinventando, ‘crowdfunding’, conhecendo gente, desvendando códigos. São impulsionados pela capacidade, curiosidade ou necessidade, com a facilidade de novas plataformas digitais”.

A agência elenca alguns exemplos de empresas que já agarram essa oportunidade. Em março deste ano, a companhia aérea jetBlue lançou o Bluebud, um programa de orientação para as pequenas empresas o “sturps” de alimentos sustentáveis em Nova York, as escolhidas têm acesso a “mentoria” das equipes de comunicação e marketing da companhia, além de poder usar o espaço de trabalho da empresa e as salas de conferência. Em abril, a virgin, de Richard Branson, lançou o Pitch for Rich, um projeto para atrair novas ideias de negócios de “sturps”. O prêmio é 1 milhão de libras para as dez propostas mais inovadoras. Em Varsóvia, o banco Idea acoplou um “hud” à sua agência para as jovens clientes empreendedores. Ali eles têm Wi-Fi, espaço para reuniões, copiadoras e café gratuitos.

Para os chamados “sellsumers”, diz o relatório da Trendwatching, criar e vender serviços proporciona “maior satisfação, autonomia e status do que simplesmente consumir”. Mas há barreiras de entrada para se conectar com esse universo. Afinal, se esses empreendedores associam inovação com compromisso, se buscam legitimidade e transparência, uma marca não pode entrar nessa só com o brinde de fim de ano sob pena de sair chamuscada pelo oportunismo.

É um terreno delicado. Nas redes sociais são cada vez mais frequentes manifestações de revolta com iniciativas frustadas nessa área. A indignação é tanto com a “romantização” do empreendedorismo quanto com as tentativas de “especialistas” em “profissionalizar” as “startups” por meio de modelos “padronizados” e “americanizados” as “startups” por meio de modelos “padronizados” e “americanizados”. Isabela Prata, criadora da Escola São Paulo, por exemplo, recentemente fez uma pergunta aos jovens no Facebook: “Empreender para quê?”.

Criar o próprio trabalho, diz ela leva à competitividade e à aceleração da economia, que não seriam sustentáveis para o planeta. “Nossos esforços não deveriam ser para nos aproximar mais, para fazermos mais juntos (...), minimizando esforços, gastos, riscos e dinheiro?”, questiona. Foi o caminho escolhido, por exemplo, pelo grupo Co.madre que reúne 337 mulheres que querem balancear carreira e maternidade. As integrantes dessa comunidade do Facebook se aproximaram para gerar negócios e se capacitar coletivamente.

“Nosso compromisso com as ‘startups’ do bem é de longo prazo, não só uma ação para nos diferenciar da concorrência” garante Souza. A fabricante de uísque criou o curso internacional The Venture para eleger o melhor projeto de empreendorismo social com prêmio de até US$ 1 milhão para o vencedor. O finalista brasileiro, por exemplo, é a MGov, “consultoria em gestão de políticas públicas e de ações de impacto social” que utiliza o monitoramento via celular para reunir e analisar dados. O resultado será divulgado em julho.

De manhã até 3 de junho, a Chivas também comanda um espaço múltiplo no Shopping Jk Iguatemi, em São Paulo. Combina uma área para palestras com empreendedores sociais e discussão sobre economia criativa com uma lojinha. E, claro, um bar com a renda revertida para as empresas parceiras Cross Geographic, Vert, Vuelo, Zerezes e Márcia Ganem. Algo como “beba com propósito”.

matéria publicada no jornal Valor em 6 de maio de 2015.