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O MELHOR DE DOIS MUNDOS

04/05/2015

No buffet objetos trazidos da Ásia e África A escultura de flor de ferro foi comprada na Itália.

Viver e trabalhar na capital do design: sonho transformado em realidade pelo arquiteto brasileiro Ricardo Bello Dias

Milão é uma cidade excepcional. Sou apaixonado pelo seu senso estético inato, pela atenção que o milanês reserva ás pequenas coisas no cotidiano. Impossível viver por aqui e não se deixar levar por sua intensa contaminação entre moda e design”, declara o arquiteto brasileiro Ricardo Bello Dias, recifense, radicado na capital lombarda há mais de duas décadas.

Graduado em 1990 pela Universidade Federal de Pernambuco, foi para lá que ele se dirigiu, pouco depois de formar em 1990, movido, a princípio, pelo desejo de aprofundar seus estudos (ele concluiu licenciatura plena cultuado instituto Politécnico dede Milão), mas, igualmente de estabelecer na cidade.

No estar, sofá de Piero Lissoni para a Living Divani. Serigrafia de Mark Rothko, a escultura de Nacho Carbonell e espelho de Ricardo Bello Dias.

Mesa de jantar com tampo de vidro Helix, de Ricardo Bello Dias para a former.

O candelabro é assinado pelo designer Tom Dixon e o quadro Azul, apoiado no chão, por Marco Currò. Ao lado poltrona de piet Hein Eek.

“Segundo a sabedoria zen, quem é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre seu trabalho e seu tempo vago”, argumenta o arquiteto, para quem o esforço laborativo não pode, e não deve, distanciar o profissional de seu cotidiano. “Milão me deu a exata dimensão do que isso significa em termos práticos. Do quanto indissociáveis são estas duas facetas da vida”.

Acalentado por ele desde o início, o desejo de viver e trabalhar na cidade só começou mesmo a tomar forma definitiva em 1996. Mais precisamente quando o arquiteto se deparou com as instalações de uma oficina mecânica desativada, na região sul da cidade e decidiu dar início à sua carreira solo.

“Percebi que meu sonho estava em vias de se transformar em realidade. Aquele edifício oferecia todas as condições de se converter em minha casa-estúdio”, lembra Bello Dias, que não poupou esforços para empreender uma radical reforma no imóvel.

Convertido em um loft de 350m², com três pavimentos e pátio interno, hoje o pouco, ou se nada, no edifício remete sua ocupação original. “Da antiga oficina tudo o que restou foi a memória do contínuo fluxo entre seus dois pavimentos” considera ele.


Ocupado pelo escritório do arquiteto, o pavimento térreo conta também com um pátio de acesso comum. No primeiro andar, Ricardo posicionou um living aberto diretamente para a cozinha. No segundo, as dependências privadas da casa. Interligando todos os níveis, u grande volume reina a céu aberto.


“A criação de um pátio interno foi a chave desse projeto. Visualmente, ele pode ser acessado de qualquer pavimento, além de funcionar como uma espécie de espinha dorsal do prédio, o inundando de luz” resume o arquiteto.

Ventilador do designer alemão Maarten Bass e pufe branco de Giullio Cappelini.

A essencialidade perseguida pelo arquiteto encontra seu ponto alto neste trecho, monocromático. De seu living.

Em sua cozinha minimalista, cadeira Wishbone, de Carl Hansen. À Foto Á cima., Ricardo Belo Dias em sua sala de estar.

De onde decorre, por certo, a dificuldade de vincular os interiores do loft a algum estilo específico. Definitivamente contemporâneo em termos de decoração, denota influência da escola minimalista italiana (Ver box, na pag.6), estilo que ele conheceu bem de perto, durante a década que atuou à frente do departamento de arquiteta do escritório de Piero Lisoni. “Creio que nosso denominador comum seja a abordagem inovadora”, pontua o arquiteto que prefere, no entanto, não se limitar a um enquadramento estrito.

“Fundamentalmente, me agrada viver ao lado de objetos desenhados por pessoas que respeito, que fazem parte da minha trajetória”, destaca ele. “Sou um homem de gostos simples é preciso de poucas coisas, entre elas, uma casa cheia de memórias afetivas”.

Ricardo Bello dias em sua sala de estar.
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Não surpreende, portanto, o protagonismo de certos objetos caros ao arquiteto (fragmentos de viagens, esboços d antigos trabalhos, recordações de carácter emotivo) acabam por assumirem em determinados setores da casa. Mesmo em face de móveis ícones, assinados por pesos pesados da indústria italiana. “Na minha casa amo cultivar o essencial, a flexibilidade entendida como a capacidade de mudar sempre, mas sem perder a personalidade. Assim com a cidade que escolhi para viver”, conclui.

O terraço com cadeiras de Junya Ishigamig.

Matéria publicada no jornal o Estado de S.Paulo em 29 de março a 4 de abril de 2015.