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ME MOVE E ME COMOVE

29/04/2015

Seu livro, Móvel Moderno no Brasil, que acaba de ganhar uma segunda edição, foi fundamental para a consolidação do que hoje é reconhecido, internacionalmente, como mobiliário moderno brasileiro. Como nenhuma outra, a obra contempla os momentos, personagens e questões que foram fundamentais para a afirmação do design nacional, da década de 1950 do século passado, até os dias de hoje. “É a imensa paixão que sinto pela pesquisa na área que move e me comove”, declara a sua autora, a filósofa e professora titular do Departamento de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Maria Cecília Loschiavo dos Santos, que, nesta entrevista exclusiva ao Casa de nosso design. Mas também comenta a sua cena contemporânea.

Fundamentalmente, quais questões foram determinantes para o processo de modernização do móvel brasileiro na década de 1950?

Trata-se de um processo multifatorial. Nosso patrimônio artesanal remonta à carta de Pero Vaz de Caminha, onde existem referências aos olhares curiosos dos nativos, observando dois carpinteiros talhando a madeira. Passa necessariamente pela vanguarda modernista da década de 1920, pela modernização de mossas artes e arquitetura e pela interrupção das importações decorrentes das duas guerras. Nos anos 50, a aceleração da industrialização trouxe condições propícias para um experimentalismo maior, que culminou com a construção de Brasília. Uma manifestação de excepcional ousadia e inteligência de projeto, que influenciou, sobremaneira, a evolução de nosso design.

A senhora tinha consciência, a época da primeira edição de seu livro, da dimensão que o interesse pelo móvel moderno brasileiro assumiria nas próximas décadas?

Sempre acreditei na nossa inteligência de projeto, enorme capacidade criativa dos brasileiros no campo de design. Não me surpreende, portanto, que nossos móveis tenham alcançado tamanha notoriedade. Hoje, os tempos são outros, o consumo se expandiu e coexistem no mercado forças autônomas e conflitantes. Mas acredito que isso tudo só enriqueça nossa cena.

Namoradeira de madeira juerana, de José Zanine Caldas. Década de 1980.

Professora titular do Departamento de Design da Faculdade de Arquiteta e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Maria Cecila Loschiavo dos Santos.

Cadeira Três Pés, de jacarandá e amendoim, de 1947. Design Joaquim Tenreiro.

matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 5 A 11 de abril de 2015.