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ALÔ, COMUNIDADE BANCÁRIA

13/04/2015

Mais da metade de moradores das favelas brasileiras não tem conta corrente. Para tentar quebrar o gelo, instituições financeiras mudam a linguagem, contratam mão de obra local e fazem serão. Por Luciana Seabra, de São Paulo.

“Você vai pegar empréstimo porque está precisando. Entra com uma corda pescoço e, em vez de tirar, sai com duas”. Essa é a imagem de um banco para Francisco de Assis, 39 anos, morador de Paraisópolis, em São Paulo. Ele faz parte da pequena parcela dos habitantes de favelas brasileiras que é bancarizada. De acordo com o instituto de pesquisa Data a Favela, 61% dos que têm mais de 14 anos não têm contas correntes ativas. São cerca de 5,8% milhões de pessoas segundo o levantamento realizado em fevereiro em 63 favelas, de nove regiões metropolitanas e no Distrito federal. “Qual benefício o banco traz para nós? Nenhum deixa a gente satisfeito”, acrescenta o balconista de padaria.

A parcela de não bancarizados nas favelas é bastante superior à média nacional, de 40% ao fim de 2014, segundo dados compilados pelo Banco Central, pela Federação Brasileira de Bancos (febraban) e pala consultoria Strategy&.

As instituições financeiras têm colocado em xeque seus processos para tentar mudar esse quadro e ampliar a inclusão financeira. O primeiro movimento foi de abertura de agências, iniciado em 1998, quando a Caixa instalou-se na Rocinha, e intensificado em 2011, ano em que a Caixa, Banco do Brasil, Bradesco e Santander abriram comunidades, tomando, dentre outras, a Cidade de Deus, o Cantagalo e Paraisópolis. Desde então, as favelas ganham de uma a três agências novas por ano. O complexo do alemão, por exemplo, é mais bem servido do que muitos bairros de classe alta: tem Banco do Brasil, Bradesco, Caixa e Santander.

A palavra agora não é expansão, mas consolidação, construção de relacionamento. Os bancos de relacionamento. Os bancos entenderam que as paredes não são suficientes – nem necessárias, no entendimento do Itaú Unibanco – e entra em cena a inteligência para conquistar e manter o cliente. E isso vai muito além do estereótipo de eliminar a porta giratória e tirar o terno do gerente.

Como esses microempresários muitas vezes são solitários em seus negócios e não podem abandonar o barco, o Itaú desistiu de esperá-los na agência – contratou um exército de 120 agentes para visitar a cabeleireira, o dono da lanchonete e até os feirantes da madrugada. “O horário bancário e o ambiente da agência nem sempre são muito adaptados ás necessidades deles. É comum os agentes trabalharem de 6h ás 20h, horários em que a comunidade está fluindo melhor”, diz Eduardo Ferreira, superintendente de negócios inclusivos do Itaú. Cada empreendedor ganha um caderno, que a listar em colunas receitas e despesas. A contabilidade é revisada em visitas eventuais.

Pagamento de empréstimos semanal, em vez de mensal, para coincidir com o fluxo financeiro dos empreendedores locais faz parte da fórmula do Bradesco, com 22 mil clientes e R$ 50 milhões, para selecionar bem nas comunidades. “Se deixar para o fim do mês, no meio do caminho vêm as contas de água, luz, celular, e eles começam a ficar muito espremidos”, diz Octavio de Lazari Junior, diretor-executivo do Bradesco.

Um espaço moderno, sem portas giratórias e com horário estendido – de 9h às 19h em dias de semana aos sábados – è a estratégia da Avante , que começou a oferecer serviços financeiros em favelas neste ano, começando em Paraisópolis, em janeiro, e com planos de chegar a pelo menos 30 lojas até 2018. A próxima será em Belo Horizonte. Por meio de parcerias, a empresa faz a ponte entre a comunidade e as provedoras de serviços financeiros, como fez com o banco Bonsucesso para oferecer cartões pré-pagos em Paraisópolis.

Outra estratégia com o banco Bonsucesso para oferecer cartões pré-pagos Paraisópolis.

Outra estratégia recorrente entre as instituições financeiras que abrem portas nas favelas é contratar funcionários em meio à população local. “ Eles preferem ser atendidos por moradores da favela, são pessoas me quem confiam”, diz Bernado Bonjean, sócio-fundador da Avante. Depois de conquistar a independência financeira por meio de investimentos por meio de investimentos em imóveis em 2008, o ex-sócio do Pactual decidiu diminuir a distância entre o asfalto e a favela, em suas próprias palavras. Fez um curso de empreendedorismo na Universidade de Havard e estudou investimentos de impacto social que criam valor para o acionista.

“A lógica da favela não é a mesma do asfalto. Os bancos precisam compreender o que o varejo já entende”, diz Meirelles, do Data Favela.

“A lógica da favela não é a mesma do asfalto. Os bancos precisam compreender isso. O varejo já entende”, diz Meirelles. A regra, para ele, é que o crédito seja oferecido por meio de um processo consciente, mas sem catequizar, sem juízo de valor. “A orientação financeira não pode ser concorrente do consumo”, afirma. Trocando em míudos, não dá para, do alto do seu carro com ar condicionado, dizer a quem passa quatro horas no ônibus que não deve comprar uma moto em parcelas a perder de vista. Nem para a mulher que trabalha o dia todo que os juros da máquina de lavar são proibitivos.

Meirelles conta a história de um executivo de multinacional que levou à favela e que ficou surpreso ao encontrar em uma das casas uma TV de 50 polegadas, maior do que a que ele próprio tinha em casa. A proprietária explicou que graças ao aparelho os filhos não ficavam na rua, mas traziam os colegas para dentro. E os casos continuam, como o da mãe que acha que o PlayStation tem valor porque faz as vezes do curso de inglês que ele não pode pagar.

O caminho da consultoria e da educação financeira, sempre informais, também cresce. A Avante promove rodas de conversas entre empreendedores. “Eles não estão a fim de entrar na sala de aula a ver ‘slides’. Eles gostam de papo reto”, diz Bonjean. O contato com a Avante também começa por duas horas de conversa com um consultor. “O contato com a Avante também começa por duas horas de conversa com um consultor. “O grande sonho do dono do bar não é ser a maior cervejaria do mundo, mas de inclusão: dar estudo para o filho, viajar, ter uma casa como a da novela”, afirma.

matéria publicada no jornal Valor em 28,29 e 30 de março de 2015.