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MADEEEIRA!

10/04/2015

Essa é a principal matéria-prima da Tecverde, empresa que entrega em até 90 dias e com preço fechado casas que gastam 90% menos água e geram desperdício 85% menor do que os imóveis construídos pelo método tradicional.

Guando era criança, o curitibano Caio Bonatto costumava acompanhar o pai, dono de uma construtora, em visitas aos canteiros de obras, onde tinha por hábito apanhar os pregos tortos que sobravam no chão. Chegando em casa, os endireitava para que se pudessem ser utilizados novamente, fosse nas construções ou em ripas de madeira, por diversão. Sem que soubesse, já demostrava aptidão para a engenharia civil e, em especial, para identificar hábitos antigos e pouco inteligentes do ramo, como o desperdiço, e fazer diferente.

Bonnato, 28 anos, é sócio-diretor e um dos fundadores, ao lado de Beto Justus, 28, e Lucas Maceno, 26, da construtora Tecverde. A empresa, que tem sede em Curitiba, é referência no Brasil no uso de sistema wood frame, que permite produzir paredes, lajes e cobertura com as partes elétrica e hidráulica já instaladas. A técnica está menos sujeita a atrasos e, se comparada a uma obra convencional, reduz em 90% o uso de água, em 80% a emissão de CO-2 e em 85% o desperdício de resíduos, como restos de concreto de madeira.

O grande triunfo da Tecverde é que 70% da casa é feita em uma fábrica instalada em araucária, a 30 quilômetros da capital paranaense, restando para o local de construção apenas as etapas de montagem das partes pré-fabricadas, fundação, instalação de telhas e forros e acabamento. As paredes são feitas com sete camadas de materiais, como placas cimentícias e gesso acartonado, e o que sustenta e estrutura é um painel feito de madeira. Ela vem de toras com selo de reflorestamento e pelo menos 20 anos de idade, tempo necessário para que ganhem densidade e resistência estrutural.

Adotado em larga escalem países como Alemanha, Canadá e Estados Unidos, onde existe há pelo menos um século, o wood frame teve que ser adaptado ás condições climáticas e culturais brasileiras. “Incorporamos chapas de uma madeira mais resistente para permitir a fixação de móveis e reforçamos o isolamento térmico-acústico para oferecer um conforto até maior do que o proporcionado por uma parede de alvenaria”,diz Bonatto.

Nos sobrados, uma camada de concreto é aplicada sobre a laje de wood frame para evitar que o cliente tenha a impressão de caminhar sobre a madeira. Uma espécie de película protege a casa da umidade. “A tecnologia não deixa a umidade entrar, mais deixa ela sair. É uma casa casa que respira”, explica. Depois de pronta, não é possível diferenciar uma casa comum de uma casa da Tecverde. “O objetivo é que o aspecto da casa e a sensação do morador sejam iguais aos de uma casa convencional.” A durabilidade mínima, assegura Bonatto, também é a mesma: 50 anos.

O método de construção possibilita que a Tecverde entregue a obra pronta em um prazo quatro vezes menor do que a da construção convencional – em média, levam 90 dias para fazer uma casa padrão de 200 metros quadrados. O prazo não costuma variar, já que a construção independente do clima.

“A industrialização do processo na construção civil é interessante e necessária para o setor, ainda mais se utilizando um bem renovável como a madeira”, afirma Eduardo Nardelli, presidente da associação Brasileira dos Escritórios de arquitetura (Asbea). “Mas ainda existe uma grande resistência cultural a modelos alternativos. O wood frame tem que descobrir qual é o seu nicho de mercado”, pondera.

“Como nosso sistema é preciso, e nos permite saber a quantidade e aonde vai cada parafuso da obra, oferecemos aos clientes a vantagem do preço fechado”, diz Justus, sócio-diretor responsável por novos negócios. “Geralmente, são as pessoas que tiveram algum trauma em experiências anteriores com a construção convencional”, comenta. Atualmente, a empresa dispõe de cerca de 30 modelos de casas e também trabalha com projetos personalizados.

O investidor imobiliário e cliente da empresa Maurício De Chiaro, 45, optou por um dos modelos prontos. “O preço [R$2,100 por metro quadrado], à primeira vista, é parecido com a de uma casa convencional, mas, no final, tende a ser mais barato, já que as de alvenaria sempre reservam surpresas por conta de atrasos”, afirma De Chiaro. Ele aproveitou a abertura do escritório da Tecverde em Vinhedo, no interior de São Paulo, em julho no passado, para construir na região uma casa de 400 metros quadrados com investimento de 800 mil.

“Quem entra na casa nem desconfia que ele não é feita de tijolo”, conta.

Apesar da vocação demostrada com os pregos tortos na infância, Bonatto quase desistiu do ramo. Ao concluir o primeiro ano de ano passado, para construir na região de uma casa nem desconfiança que ela não é feita de tijolo, conta.

Apesar da vocação demostrada com os pregos tortos na infância, Bonatto quase desistiu do ramo. Ao concluir o primeiro ano do curso de engenharia civil, em 2004, se viu desanimado com a baixa qualidade dos projetos e da mão de obra. Trancou o curso e partiu para a nova Zelândia, onde a sustentabilidade já era um tema forte na construção civil.

Voltou um ano depois cheio de ideias e as compartilhou com os colegas de faculdade Justus e Maceno. Eles também haviam morado no exterior – nos estados Unidos e no Canadá, respectivamente – e além de estarem igualmente descontentes no Brasil, haviam tido contato com outros sistemas construtivos. Em 2009, depois de dois anos pesquisando novos modelos abriram a empresa.

Sem curso financeiros, recorreram á Federação das indústrias do Paraná (Fiep) e por meio dela e do Senai-PR participaram de uma viagem à Alemanha que rendeu um convênio com o ministério da economia do estado de Baden-Württemberg. Com a transferência de tecnologia subsidiada pelos alemães e com aporte de R$ 350 mil obtido por meio de investidores-anjo-pessoas que investem seu próprio capital em empresas com alto potencial de crescimento – e de R$120 mil da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), inauguraram a primeira fábrica no final de 2010, em São José dos pinhais, região metropolitana de Curitiba.

Um ano depois da fundação, tinham mais de três sócios e 34 empresas fornecendo matéria-prima e equipamentos, o que criou uma robusta cadeia produtiva local. Com o apoio do Banco Santander, conseguiram alterar a regulamentação nacional casas feitas com estrutura de madeira.

A nova regra para financiamentos entrou em vigor em 2011, época de aumento nas vendas de casas de média e alta renda – entre R$500 e R$1 milhão. Em paralelo, adequaram o sistema para construir casas de baixa renda (45 metros quadrados) e, em 2013, depois de homologada a tecnologia, conseguiram a autorização do Ministério das Cidades para produzir moradias do programa Minha Casa Minha Vida.

Hoje, cerca de 40% do faturamento da empresa, que cresce em média 300% ao ano e espera faturar R$ 40 milhões em 2015, vem do programa do governo, por meio do qual já realizaram projetos no Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de janeiro. Para este ano a previsão é construir 2 mil casas, o dobro do ano passado.

Outra parcela ganhos da empresa vem do modelo de licenciamento da tecnologia, adotado em 2012, pelo qual fornecem a expertise do wood frame a outras construtoras e atuam como cogestores de seus projetos.

Nesses moldes, planejam fechar o ano em fábrica própria para 5 mil casas por ano, incluindo os parceiros.

O próximo grande passo da empresa é construir um prédio com a tecnologia. “Temos o projeto arquitetônico pronto”, diz Bonatto.

“A expectativa é botá-lo em pé e no mercado em 2016.”

Matéria publicada na revista Gol Linhas aéreas inteligentes em março de 2015 por Heiton Flumian.