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BRASIL: O MELHOR DO OUTRO

19/03/2015

O Brasil tem traços propícios á pós- modernidade. É o que diz o sociólogo italiano Domenico de Masi. Se existe uma tendência ao “menos e melhor”, talvez os brasileiros já soubessem antes de as telas de retina revelaram que o mundo desejava desacelerar – slow food, slow living, slow design – que tudo pode ser lento. Antes mesmo de os luminosos edifícios e shoppings exaurirem a rotina das cidades, e a vida urbana clamar por menos, e melhor. Menos ruído. Menos propaganda. Tudo menos. Tudo melhor.

As pessoas já não olham certos produtos com o mesmo deslumbramento: o carro, o apartamento, a bolsa cara. Talvez a discussão franca, como tende a acontecer no mundo da internet, leve–nos a perceber que não adianta odiar a indústria (rejeitá-la causaria uma pobreza terrível), mas que precisamos, sim, orientá-la a se qualificar e responder pelo lixo que cria, ao mesmo tempo em que percebemos que os valores humanos estão muito além dos produtos.

O Brasil já sabia. A tarde que não se esquece é singela. De um velho calção de banho, de uma esteira de vime, de uma água de coco. É pouco. Mas isso não é nada, aquele que o italiano encontra em casa, em seu dolce far niente. Domenico olha para cá. Uma tarde em Itapuã é rica. Não nega a ação. É erótica em pleno movimento.

O que o Brasil pode ensinar sobre o menos e melhor é que ele não precisa ser restrição economia, redução. Não é corte, apagar de pegadas, frugalidade. É exuberância. Exige solução e “arte do encontro”. Melhor com menos é o amor. Mais exato e maior quanto mais certa a escolha. Os designers do slow movement estão preocupados com a sustentabilidade, o não tóxico, o local e mais econômico – e, claro, com o elegante, tailor fitted, distinto, feito para durar.

O Brasil tem a acrescentar que o menos para cada um será o melhor no encontro com o outro. O melhor do outro lado. Apaixonado, como o poeta. O Vinicius sabia direitinho onde estava o “mar que não tem tamanho”, o jeito de estar na praia para sentir “a terra toda rodar”. Uma tarde Itapuã é um presente rico da vida, que Vinicius soube aceitar.

Eis o consumo de menos e melhor. Não é daquele tipo de aquisição que cobre um “vazio existencial” – não há vazio em quem se interessa pelo melhor do outro.

Os valores humanos não estão no produto, na riqueza do acúmulo, no preço do luxo, e si na inteligência de algo bem algo bem escolhido, no insight do design bem feito, na lógica simples para o dia a dia, na mala leve para viajar e conhecer o mundo – carregar consigo e comprar só o que for ajudar a chegar mais perto das maiores belezas, das melhores qualidades: de si, das outras pessoas e o mundo, porque a beleza deste mundo é uma grande sorte da humanidade. Basta saber sentir.

Matéria publicada na revista anuário de Tendências 2015 Casa Claudia por Andréa Naccache.