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NAVIO? BALEIA? NÃO, É UM MUSEU

25/02/2015

Há décadas, desde o Centro Georges Pompidou (1977), a pirâmide do Louvre (1989) ou o Instituto do Mundo Árabe (1987), Paris não tinha um novo prédio tão excepcional e revolucionário quanto a Fundação Louis Vuitton, que abre as portas para o público na segunda-feira. Se forem consideradas as proezas técnicas da construção, essa é a maior inovação arquitetônica da capital francesa desde a Torre Eiffel, inaugurada em 1889. O novo museu parisiense, projetado pelo arquiteto Frank Gehry, o mesmo que construiu o Guggenheim de Bilbao, é por si só uma obra de arte.

Navio, nuvem, iceberg e até baleia branca alada: não faltam denominações para ilustrar a recente criação de Gehry, um dos maiores arquitetos da atualidade, vencedor em 1989 do Prêmio Pritzker (o mais importante da área). O prédio é recoberto com 12 placas de vidro imensas que lembram velas marítimas (ou folhas vegetais, dependendo da interpretação), cada uma delas com formato e curvatura distintas, que parecem flutuar sobre a construção central com ares de casco de barco.

No total, são 3.600 painéis de vidros, todos diferentes, sustentados por vigas de aço ou madeira que formam, no interior da obra, um sofisticado sistema de ramificações. Isso pode ser realizado graças a softwares (utilizados na aviação) que calculam a resistência de cada elemento e as ondulações complexas das estruturas de vidro externas, as chamadas "velas de um grande navio", como diz o arquiteto de 85 anos, que gosta de velejar.

"Pela primeira vez consegui fazer um prédio com uma pele dupla, com um envelope de vidro. Eu já havia tentado várias vezes, mas até então não tinha conseguido", afirma Gehry, americano nascido no Canadá. Não é à toa que o projeto passará a fazer parte do ciclo de estudos de arquitetura da Universidade de Harvard.

Gehry se recusa a ser chamado de "arquiteto estrela", mas afirma que a Fundação Louis Vuitton é um de seus prédios "mais revolucionários". Isso não o impediu (na sexta-feira da semana passada, quando o museu foi apresentado à imprensa) de afirmar que gostaria de fazer algumas mudanças na construção. "Eu o desenhei há sete anos e desde então tive novas ideias."

Fã do escritor francês Marcel Proust (18711922), Gehry diz ter ficado emocionado ao descobrir o Jardin d'Acclimation (jardim da aclimatação), mencionado em romances do autor, e diz ter se inspirado na estufa que havia no local, no século XIX, e também no Grand Palais, em Paris, que possui um imponente telhado de vidro, para realizar a obra. O projeto levou 12 anos para ser concretizado, entre eles quase seis anos de obras. As pesquisas duraram dois anos de estudos e mobilizaram uma centena de engenheiros. Trinta patentes de inovação foram registradas nesse prédio de 11 mil m2 (7 mil m2 abertos ao público), situado no Jardin d'Acclimation, no Bois de Boulogne (bosque de Bolonha), uma vasta área verde no Oeste da capital francesa.

Na parte interna do prédio, os espaços em branco imaculado foram projetados especialmente para não interferir com as obras exibidas. Por quase todos os lados há entrada de luz natural. Há vários terraços que permitem admirar a vegetação do Bois de Boulogne e monumentos como a Torre Eiffel e o Arco de la Défense. São 11 galerias de exposições para apresentar o acervo de arte contemporânea da Fundação Louis Vuitton, do bilionário Bernard Arnault. O 15º homem mais rico do mundo é dono do grupo LVMH, líder do luxo com dezenas de marcas, como Dior, Givenchy, Veuve Clicquot ou Bulgari. Obras de sua coleção pessoal também serão apresentadas no local. Arnault aprecia artistas como os americanos Jeff Koons e Basquiat (19601988) e o alemão Gerhard Richter.

Algumas obras de arte foram encomendadas especialmente para a fundação, como a do dinamarquês Olafur Eliasson: um percurso de 43 colunas com espelhos de larguras variadas, instalado em um espaço banhado por luz amarelada onde há também um leito de água. O resultado é um caleidoscópio que reflete tudo à sua volta, inclusive a imagem do visitante que interage na instalação. A obra parece estar integrada ao próprio prédio e por isso será mantida ali por um bom período. Nas proximidades há ainda uma mini-cascata de água que se insere na paisagem do Jardin d'Acclimation.

A programação de inauguração vai durar até junho, com três ciclos de eventos. O primeiro deles, que vai até o fim de novembro, é voltado à descoberta do prédio de Gehry. Em razão disso, o número de obras exibidas é restrito e várias delas são encomendas inspiradas na construção, com o objetivo de valorizar os espaços do local, diz Suzanne Pagé, diretora artística da Fundação Louis Vuitton, que comandou o Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris por mais de 30 anos. Por isso, há ainda uma exposição sobre o arquiteto (que também já é tema de uma mostra atualmente no Centro Georges Pompidou).

Há também obras do acervo da fundação, dos anos 60 aos dias de hoje, que continua sendo formada. Entre elas obras de artistas como o americano Ellsworth Kelly, os franceses Pierre Huyghe, Christian Boltanski e o alemão Thomas Schütte, que englobam audiovisual, esculturas e pinturas. Nas cinco primeiras semanas de inauguração há diversos eventos nas áreas de música, dança, poesia e performances. Uma das atrações é o grupo alemão

Kraftwerk, pioneiro da música eletrônica nos anos 70. Na segunda fase de apresentação da coleção, que começará em 17 de dezembro, um dos destaques será o escultor suíço Alberto Giacometti (19011966).

A Fundação Louis Vuitton é uma grande revanche para Arnault. Diferentemente de seu rival François Pinault (do grupo de luxo Kering, ex-PPR), que preferiu, em razão de problemas administrativos franceses, largar a toalha e criar, em 2005, sua fundação em Veneza, no Palazzo Grassi, o dono da LVMH conseguiu concretizar seu "sonho", como ele define o projeto, em Paris. Em 50 anos, o prédio será da prefeitura, o que facilitou as negociações. Houve ainda recursos de moradores da área na Justiça.

Fortemente criticado quando houve suspeitas de que iria transferir seu domicílio fiscal para a Bélgica para escapar dos impostos na França, desta vez Arnault foi elogiado pela imprensa. O espaço é uma forma de marketing ao associar o museu e seu emblemático prédio à marca Louis Vuitton, carro-chefe das vendas de seu grupo. Pinault, por sua vez, preferiu colocar seu nome em sua fundação.

O montante da obra não foi divulgado. Estima-se que ela tenha custado pelo menos €100 milhões, financiados pelo grupo LVMH. A Fundação Louis Vuitton que possui ainda um restaurante, Frank (em homenagem ao arquiteto), comandado pelo chef Jean Louis Nomicos (que possui uma estrela no Guia Michelin) prevê atrair 700 mil visitantes por ano. E já projeta-se que ela representa um dos mais importantes eventos culturais e arquitetônicos em Paris nos próximos anos.

Matéria publicada no jornal Valor em 24 de outubro de 2014.