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O CENÁRIO ARQUITETÔNICO DO ANO QUE PASSOU

20/02/2015

RESUMO A crise econômica modificou a pauta arquitetônica, deixando os edifícios espetaculares em segundo plano. Os destaques de 2014 foram para a urgência e agendas de responsabilidade social e ambiental; no Brasil afloraram movimentos como o pernambucano Ocupe Estelita e o paulistano Parque Minhocão.

No fim do último mês de outubro, Frank Gehry iniciou uma maratona de compromissos na Europa, que incluía colocar a pedra fundamental de uma ponte que terá seu nome em Bilbao, cidade espanhola que ele incluiu no mapa com o Guggenheim, e inaugurar o mais comentado edifício de 2014, a Fundação Louis Vuitton, em Paris.

CENÁRIO

A cena descreve o cenário arquitetônico de 2014: aos 85 anos, Gehry apresentava sinais de cansaço, mesma fadiga que sua obra causa em quem acompanha o setor. Como astro maior do "star system" arquitetônico, por 15 anos foi estimulado a criar um prédio espetacular toda segunda-feira e agora, com a crise financeira, assiste ao ciclo se esgotar mais rápido do que seu corpo. Mais tarde, no pátio do hotel, ele se desculpou, com a dor do herói convertido em vilão: "Não peço a ninguém que me contrate, a única coisa que quero é que me deixem trabalhar em paz".

A Bienal de Arquitetura de Veneza foi outro indício de 2014. O curador Rem Koolhaas flertou, diabolicamente, com o fim da arquitetura: de um lado, o irônico holandês desnudou a história, escancarando uma Itália vulgar e decadente; do outro, ele reduziu a criação arquitetônica a composição de componentes construtivos.

A crise modificou a pauta arquitetônica, deixando os edifícios espetaculares em segundo plano. As manchetes foram para a urgência, agendas de responsabilidade social e ambiental, ações comunitárias e pesquisas. No Brasil afloraram movimentos como o pernambucano Ocupe Estelita e o paulistano Parque Minhocão; por outro lado, esse cenário ampliou a dor da morte de João Filgueiras Lima, o Lelé, um modernista que abandonou a utopia para tratar de problemas reais.

DESARMONIA

Nos últimos dias do ano, a notícia mais intrigante não foi a desarmonia dos volumes do Museu das Confluências, em Lyon, França desenhados pelos austríacos do Coop Himmelb(l)au, ou a as imagens de mais um mirabolante projeto de Zaha Hadid. O destaque foi a descoberta de um segredo de quase 2.000 anos.

Com a ajuda de um supercondutor, uma equipe de pesquisadores de Berkeley, nos Estados Unidos, desvendou a resistência e a durabilidade do concreto romano que mantém de pé obras como o Coliseu e o Panteão: um mineral evita microfissuras, deixando a estrutura coesa. A descoberta poderá impactar o meio ambiente, pois os romanos utilizavam cinzas vulcânicas quase sem alterar a temperatura, enquanto o nosso concreto envolve aquecimento que contribui com 7% do carbono lançado na atmosfera.

Já os estádios brasileiros não envelhecerão como o Coliseu e isso não é culpa da durabilidade do concreto: delicadas obras, como a de Manaus, criada há 45 anos por Severiano Porto, foram abaixo em troca de vistosas arenas da Copa, que agora andam às moscas.

O ano do centenário de Lina Bo Bardi e do documentário sobre Sergio Bernardes marcou também a ausência de Oscar Niemeyer no cenário arquitetônico brasileiro: no rearranjo de forças, não há projetista oficial, e novas referências foram ignoradas por políticos e cartolas da Copa.

Pergunta óbvia e constrangedora: os 12 estádios foram desenhados pelos melhores profissionais brasileiros? Com honrosas exceções, como Gustavo Penna, Héctor Vigliecca e Aníbal Coutinho, a resposta é não. O fato escancara a ausência da meritocracia, principalmente em encomendas públicas. E o problema não é notável só no âmbito dos estádios: entre as dezenas de obras publicadas na mídia especializada em 2014, somente duas são frutos de concursos públicos e uma delas, criada por jovens paulistas, fica no Panamá.

Se, no atacado as arenas não atrapalharam a Copa, no varejo foi decepcionante sua irrelevância arquitetônica. Em nossa história recente, não se conhecem outros edifícios que tenham custado 8 bilhões de reais. E é triste imaginar que esse montante daria para construir 200 fundações Iberê Camargo. Em 2014, o museu porto-alegrense desenhado pelo português Álvaro Siza foi escolhido por um júri internacional melhor obra das Américas entre 2000 e 2008.

ARENA

Qual seria o mais significativo prédio brasileiro de 2014? Sem contradição, digo que é uma arena. Para confundir mais, lembro que foi desenhada pelas estrelas que criaram a Allianz Arena e o Ninho do Pássaro, símbolos da Copa da Alemanha e das Olimpíadas de Pequim, respectivamente.

Localizada em um bairro pobre de Natal, a Arena do Morro é uma quadra poliesportiva coberta idealizada pelos suíços do escritório Herzog & de Meuron.

Enquanto detalhavam o Complexo Cultural da Luz, projeto paralisado em março por Geraldo Alckmin (prova de descaso com a qualidade arquitetônica), eles receberam a encomenda potiguar, financiada por uma fundação suíça.

O ponto alto é o uso inovador de dois elementos típicos do modernismo brasileiro, reinterpretados pelos europeus: a cobertura, que sombreia a quadra como se fosse uma árvore, e os elementos vazados, que definem espaços fluidos.

Entre os projetos públicos brasileiros, o mais significativo de 2014 é um conjunto habitacional em Heliópolis, em São Paulo, concebido pelo escritório Biselli Katchborian autor de um extraordinário desenho de ampliação do aeroporto de Guarulhos, jogado no lixo pelo governo Dilma em troca do medíocre terminal inaugurado às pressas.

A obra da favela integra um grupo de dezenas de projetos de qualidade, geridos na gestão Kassab, que se notabilizou em abandonar projetos-padrão valorizando autores como Marcos Acayaba, MMBB ou Base 3. A atual gestão, que merece aclamação pela aprovação do Plano Diretor progressista, apostou em um projeto urbano mamute, denominado Arco do Futuro, mas, infelizmente, paralisou a maioria das urbanizações de favelas (pois não se enquadram no Minha Casa, Minha Vida).

Verdade seja dita: o programa federal de habitação é um desastre do ponto de vista urbanístico e arquitetônico, a urgência da demanda não justifica construir guetos periféricos, sem se preocupar com qualidade de vida, de desenho, e integração de usos e rendas.

GOURMET

Em 2014, enquanto a classe média continuou se deliciando com varandas gourmet em condomínios-clube anti-urbanos, avançou a valorização da arquitetura em edifícios sofisticados, sobretudo em São Paulo, tanto de apartamentos, como os de Marcio Kogan, Isay Weinfeld ou Grupo SP, quanto de escritórios, como o Edifício Corujas, do FGMF.

Destacaram-se também iniciativas isoladas, de usos diversos, como um centro de estudos (de Reinach Mendonça), uma passarela móvel sobre o canal do rio Pinheiros (Loeb Capote) e uma instituição cultural (RoccoVidal P+W).

Os muros, por trás dos quais estão 95% da melhor produção nacional, alimentam a anedota corrente entre críticos estrangeiros, que dizem que a arquitetura contemporânea brasileira é especializada em paraísos e infernos.

Espelhando as desigualdades do país, os projetistas locais atuam, em alto nível, em extremos, da reurbanizações de favelas a projetos cinematográficos para elite. Respondendo à insegurança, essas duas pontas se encastelam, deixando uma enorme vala entre elas: o espaço público, terra de ninguém. Para o bem da cidadania, além de combater o crime mazela que deveria ser enfrentada com o mesmo vigor dedicado à inflação, os setores público e privado, com ajuda dos arquitetos, precisam encontrar meios de produzir o espaço coletivo no país.

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 04 de janeiro de 2014 por Fernando Serapião.