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ABU DHABI RETOMA CONSTRUÇÃO DE MUSEUS

19/02/2015

ABU DHABI, Emirados Árabes Unidos — O local onde será erguido o museu Guggenheim de Abu Dhabi hoje é ermo —apenas terra árida e estacas de concreto que se projetam sobre uma península na ilha de Saadiyat, ao norte do centro urbano da cidade. Mas a expectativa é que o local vire uma atração turística internacional dentro de três anos, quando está prevista a inauguração do edifício projetado por Frank Gehry —um amontoado de gigantescos blocos de plástico e cones azuis translúcidos.

O museu de US$ 800 milhões terá 42 mil metros quadrados, ou seja, 12 vezes a superfície do Guggenheim de Nova York, projetado por Frank Lloyd Wright, e exibirá arte dos anos 1960 até hoje. O acervo está sendo montado por curadores do Guggenheim.

O Guggenheim Abu Dhabi é um de três museus em construção que estão sendo financiados pelo governo de Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos. Uma filial do Louvre, projetada por Jean Nouvel, será inaugurada em 2015. O Museu Nacional Zayed, em homenagem a um ex-governante, deve abrir suas portas em 2016. O projeto é de Norman Foster, e o museu terá consultoria do Museu Britânico.

“Temos que começar em algum lugar”, comentou Zaki Anwar Nusseibeh, assessor cultural do Ministério de Assuntos Presidenciais dos Emirados. “Sabemos que não podemos criar cultura da noite para o dia, então estamos estrategicamente construindo museus que, com o tempo, vão formar nosso próprio pessoal. A esperança é que dentro de 20 ou 30 anos tenhamos nossa própria elite cultural, para que nossos jovens não precisem ir a Londres ou a Paris para aprender sobre arte.”

Ainda na década de 1950, Abu Dhabi era pouco mais que algumas plantações de tâmaras e um grupinho de vilarejos habitados por pescadores, caçadores de pérolas e beduínos nômades. Foi apenas com a chegada da produção petrolífera, na década de 1960, que o emirado ganhou suas primeiras estradas pavimentadas; mais tarde foram construídos hospitais e escolas.

Abu Dhabi anunciou a construção dos museus oito anos atrás, mas temores econômicos e a instabilidade política congelaram os trabalhos em 2012. “Toda a estacaria já tinha sido colocada, e então tudo parou”, comentou Gehry. Ele contou que um ano atrás foi procurado por um novo grupo na construtora que estava determinado a levar a obra adiante.

Recentemente, a região esteve no centro de um escândalo sobre exploração de trabalhadores, ligado especialmente ao campus da New York University em Abu Dhabi, que foi construído por operários migrantes. O grupo Gulf Ultra Luxury Faction liderou vários protestos no museu Guggenheim de Nova York.

Frank Gehry contou que antes mesmo dos protestos foi procurado pela organização Human Rights Watch. “Conversei com as autoridades”, disse o arquiteto. “Elas também estão preocupadas com esse problema. Vamos nos certificar de que tudo seja feito corretamente.”

Pessoas próximas ao museu dizem que ele conta com um orçamento aproximado de US$ 600 milhões. Já foram adquiridas cerca de 250 obras de arte.

Mais ou menos 10 milhões de turistas foram à região no ano passado. O aeroporto local está passando por uma grande ampliação. A ideia é que até 2017 possa receber estimados 45 milhões de passageiros por dia vindos de África, Ásia, Índia e Paquistão.

Richard Armstrong, diretor da Fundação Solomon R. Guggenheim, disse que, para atender a essa variedade de culturas, ele e seus curadores estão sendo obrigados a se “afastar da bipolaridade de enxergar a história da arte pela ótica da América e da Europa”. Em lugar de descrever o museu como global, eles o classificam como transnacional, para refletir “a rica tessitura de informação que é compartilhada entre culturas no Oriente Médio”.

O museu terá quatro níveis, sendo o primeiro voltado ao acervo permanente e os outros dedicados a exposições especiais. O edifício também terá tipos diferentes de espaços, incluindo grandes cones externos que garantirão sombra.
Gehry disse que idealizou os cones depois de passar algum tempo no Oriente Médio. “Percebi que, apesar de fazer calor, os homens tendem a passar tempo ao ar livre, porque o ar condicionado é muito forte.” Seu sistema de cones, um pouco como uma tenda indígena norte-americana, solta o ar quente pelo topo. Com o tempo, disse Gehry, os curadores pretendem encomendar obras de arte que serão criadas especificamente para ser expostas nos cones.

Os curadores incluíram no acervo grandes nomes da arte norte-americana contemporânea: Warhol, Rauschenberg, Richard Prince, Frank Stella, Donald Judd, Jeff Koons e James Rosenquist. Mas também estarão presentes artistas do Oriente Médio e da Ásia que são em grande medida desconhecidos dos visitantes americanos e europeus.

Foi aberta no mês passado, em Manarat, uma mostra de 19 obras de arte que devem ser expostas no novo museu. A exposição explora o uso que os artistas fazem da luz.
Entre as obras estão uma das “Infinity Rooms” de Yayoi Kusama (uma galáxia enegrecida de água e espelhos iluminada por luzes LED minúsculas), uma bola pendurada de luz de Otto Piene e uma escultura de bronze da artista plástica egípcia Ghada Amer.

“Queremos lançar um olhar sobre a cultura popular através do tempo e do espaço”, disse Valerie Hillings, que lidera a equipe de curadores. “Esses são diferentes pontos de referência, mas cada um deles é universal.”

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo em 20 de dezembro de 2015 por Carol Vogue.