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DE CARROS SEM MOTORISTA A MAMADEIRAS INTELIGENTES

18/02/2015

O conceito da casa conectada um lar semelhante ao da família Jetson sem as naves espaciais é cultivado há bastante tempo, sem muito avanços significativos até agora. Talvez porque, como requer qualquer casa, é necessária uma fundação sólida para sustentar as paredes. Agora, a situação parece prestes a mudar. Os maiores fabricantes de eletrônicos do mundo, e muitas companhias novatas, vão mostrar na Consumer Electronics Show (CES) uma série de dispositivos e sistemas que podem tornar mais concreta a ideia da casa digital.

E a base para essa nova onda é a internet das coisas. De modo simplificado, internet das coisas é a conexão entre objetos de qualquer tipo por meio da internet. Isso se dá por meio de sensores e chips embutidos nesses equipamentos. Não há intervenção humana nessa comunicação, mas o objetivo é facilitar a vida do consumidor.

Na CES, que começa oficialmente hoje em Las Vegas, companhias do porte da Intel e da Samsung vão apresentar seus planos para a internet das coisas. A exposição tornou-se a principal referência do setor na área de consumo. A expectativa é que a edição deste ano vá receber 160 mil visitantes até sexta-feira. O público acompanhará o lançamento de 20 mil produtos de 3,6 mil empresas.

A BMW vai apresentar um carro que estaciona sozinho. Trata-se de uma versão modificada do i3, um modelo elétrico da montadora de luxo alemã. Segundo a fabricante, o automóvel pode ser acionado por um smartphone. O motorista não precisa se preocupar em encontrar vaga no shopping lotado. Basta parar no estacionamento e deixar que o carro faça o resto sozinho. Outras fabricantes de automóveis vão participar da CES, como GM, MercedesBenz

e Toyota. Isso poucos dias antes do Salão de Detroit, o que mostra a importância crescente da internet das coisas em outros segmentos da indústria que não a tecnologia da informação.

Utilidades domésticas que não teriam muitos motivos para participar de uma exposição tecnológica estarão nos estandes por conta das novas conexões. A iKettle, concebida pela britânica Smarter, é uma chaleira que pode ser programada por um aplicativo de celular. Para os pais de bebês, a francesa Slow Control vai mostrar o suporte para mamadeira Baby Glgl. Depois de medir quanto de leite o bebê está mamando e com que velocidade, o dispositivo armazena um histórico dos dados. Também sugere qual o melhor ângulo para posicionar a criança e, dessa forma, evitar cólicas. A Slow Control é a mesma empresa que já apresentou na CES um garfo que conta o número de garfadas e dá um sinal quando o usuário está comendo rápido demais.

Nem o jardim foi esquecido. A Parrott vai mostrar um vaso controlado por dispositivos móveis que permite regar a planta automaticamente, uma boa sugestão para quem mora em São Paulo e está passando pela crise da água.

O design é o apelo de novidades como o Axxess CE Air 2. A caixa de som, que funciona com tecnologia sem fio Bluetooth, levita sobre sua base. Outros produtos que serão mostrados na CES estão voltados às novas formas de entretenimento, como o 3D Rudder, uma base na qual os usuários podem acionar um controle para jogos e interagir com a realidade virtual com o uso dos pés.

Acompanhar a CES não é uma tarefa fácil. Com cinco mil profissionais de jornais, revistas, TVs e blogs de todo o mundo, a quantidade de informação é tão grande que fica difícil selecionar o que é mais importante. A tarefa é igualmente complicada para os visitantes, que não tem tempo para ver tudo o que é mostrado. A CES não é aberta para o público comum. Só entra quem de alguma forma atua na área de tecnologia. Uma das dificuldades é que a feira não é concentrada em um único local. Está espalhada por hotéis, restaurantes e cassinos de Las Vegas. Ou seja, é preciso andar muito para obter uma visão geral. A baixa umidade do ar (cerca de 11%, nível considerado como calamidade em cidades como São Paulo) torna o "passeio" ainda mais desconfortável.

Mas a exposição tem um passado histórico. Já foi palco de lançamentos como o VHS, a primeira geração do console de videogame Xbox, da Microsoft, e as TVs 3D todos mostrados em primeira mão em Las Vegas.

Para manter-se relevante, a CES procura se renovar constantemente. Em anos recentes, a estratégia consistiu em ampliar a abrangência da feira, passando a incluir não só os fabricantes de eletrônicos tradicionais, mas também empresas iniciantes, desenvolvedores de software etc. Para a edição deste ano, foi criada uma programação especial para profissionais de marketing e mídias digitais debaterem os rumos da publicidade na internet. A produção de conteúdo também ganhou espaço. Na lista de executivos que farão palestras na feira estão nomes de companhia como CBS, Walt Disney, Condé Nast e Fox Networks. A Netflix também estará presente na feira.

Além da internet das coisas, outros temas em destaque neste ano são a impressão 3D, robôs, drones, computadores de vestir e TVs com resolução ultraalta (4K e 8K). Nessa última categoria, a coreana LG vai apresentar modelos de TV com uma tecnologia batizada de "quantum dot". Trata-se de uma evolução dos atuais equipamentos de LED, que já tinham alcançado seu nível máximo de aproveitamento. A fronteira seguinte seria o

OLED, que ainda é muito caro. Para preencher essa lacuna, a LG espera popularizar a nova tecnologia.

Os computadores pessoais, que já não causam surpresa no público, continuam sendo alvo de lançamentos, o que mostra sua viabilidade comercial. Nesta edição da feira, fabricantes como a chinesa Lenovo e a americana HP vão mostrar novidades.

Com tanto movimento, quem se sentir cansado pode testar o Melomind, da myBrain. O equipamento mede as ondas cerebrais e cria melodias sob medida para reduzir o nível de estresse. Isso, sim, é "música cabeça".

Matéria publicada no jornal Valor em 06 de janeiro por Gustavo Brigatto e João Luiz Rosa.