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CULTURA DO DESIGN AJUDA A REVITALIZAR MIAMI

06/02/2015

Será que o design pode regenerar uma cidade? Ou mesmo fazer deslanchar uma única região urbana? De Berlim a Pequim, cidades têm tentado usar o design para fortalecer bairros decadentes ou dar mais visibilidade a novos projetos imobiliários. Mas há, por enquanto, muito poucas provas de que o design tenha sido, em algum momento, realmente suficiente.

A metrópole do design mais conhecida é Milão, uma cidade que construiu sua fama em torno da inovação visual, desde a moda até a mobília. Mas Milão é especial. É uma capital da moda com uma bem sucedida feira comercial de design que está no centro de uma indústria mundial. Londres, Barcelona e outras tentaram aproveitar a percebida sofisticação do setor para instalar bairros criativos, mas cada uma delas teve de ir além do design, precisando, muitas vezes, atrair empresas de tecnologia e "startups" para dar sustentação aos imóveis de aluguel e à densidade. A cultura do design pode iniciar a revitalização (e sua consequência, a gentrificação), mas tem dificuldade em concluir a tarefa por si só.

E sua aparência agrada. Uma nova praça (Palm Court) envolve a reconstrução do Fly's Eye Dome de Buckminster Fuller (projetado originalmente em 1965 como uma casa) e apresenta um prédio deslumbrante, em camadas de vidro azul, de Sou Fujimoto (o arquiteto do Serpentine Pavilion de Londres em 2013). O escritório de arquitetura

Aranda/Lasch entrou com uma estrutura estonteante com inflexões art déco em metal brilhante pregueado. No caminho até lá vê-se um projeto elegante de prédio de esquina de tijolo aparente do escritório K/R o "R" provindo de Terence Riley, que anteriormente

Pode-se argumentar que o idealizador e fomentador do Design District, Craig Robins, fez tudo certo. Ele criou um bairro atraente, adequado ao percurso a pé, arquitetonicamente diferenciado, que emana uma sensação autenticamente urbana numa cidade conhecida pelo esgarçamento de seu tecido.

Pode-se argumentar que o idealizador e fomentador do Design District, Craig Robins, fez tudo certo. Ele criou um bairro atraente, adequado ao percurso a pé, arquitetonicamente diferenciado, que emana uma sensação autenticamente urbana numa cidade conhecida pelo esgarçamento de seu tecido.

Assim, será que isso poderia se tornar um modelo de uma revitalização capitaneada pelo design em todo o mundo? Para responder a essa pergunta precisamos examinar a história do Design District, em seus sucessos indiscutíveis, mas também em algumas das dúvidas que lança sobre a viabilidade de o design transportar a revitalização em seus próprios ombros elegantes, embora um tanto frágeis.

Na primeira década da Design Miami/, o Design District se desenvolveu cada vez mais, com os showrooms de móveis, cozinhas e pisos e azulejos ganhando vida com cada edição da feira realizada inicialmente no Moore Building , para depois recair num tipo de elegante hibernação contínua.

Mas Robins estava trabalhando arduamente. Os arquitetos que ele contratou eram brilhantes e os prédios são incomensuravelmente superiores ao padrão da maioria das construções contemporâneas americanas, com sua escala mantida deliberadamente íntima e sua linguagem arquitetônica variada e cuidadosamente articulada. É um prazer absoluto ver prédios como o Plummer Alley, com sua arcada elegante, dos escritórios Cure & Penabad e Khoury & Vogt, ou a loja Hermès de Miesian, do K/R, com seus pisos superiores esculturalmente decorados com discos de vidro tirados de condutores elétricos. O paisagismo de Nathan Browning cria uma superfície compartilhada suave, de forma que a calçada faz a transição suave para uma superfície de rua, e isso dá a sensação de que se trata de um lugar em que os pedestres têm vantagem sobre os motoristas.

Além disso, Browning trouxe árvores maduras para substituir as palmeiras originais, um tanto pequenas e arqueadas, e o resultado é um dossel verde que faz com que o conjunto pareça uma cidade consolidada, e não uma obra em andamento. De forma intrigante, suas construções baixas e áreas verdes lembram não tanto uma cidade americana, e sim um bairro latino americano, como os Jardins em São Paulo.

O sinal mais seguro de sucesso é a construção de prédios de apartamentos em torno do limite do bairro. O prédio elegantemente lapidado do Studio Gang vai contribuir muito para inscrever a presença do bairro no tecido da cidade, enquanto uma garagem de estacionamento excepcional, com fachadas de cinco arquitetos diferentes

(abarcando desde o barroco até o estilo de ficção científica e apresentando a obra de Jürgen Mayer H e Nicolas Buffe), promete criar um notável outdoor. Ali ao lado de tudo isso está o Wynwood, o bairro-galeria de arte coberto de grafite.

O maltrapilho Wynwood, decadente e ainda semi-industrial, mantém a aparência tosca da conhecida revitalização pela arte mas tem também seus pontos positivos. Seus terrenos vazios e suas estruturas abandonadas depreciam sua civilidade, mas corporificam a ideia de potencial e surpresa. Já estão sendo demolidos prédios de menos de dez anos de idade no Design District. É um sintoma de seu sucesso e da rapidez de seu desenvolvimento.

Mas há, também, um problema, visível em todas as fachadas de lojas: as marcas. As lojas que no passado eram ligeiramente sonolentas, embora fossem lojas sofisticadas de design e showrooms de móveis, abrigam agora as onipresentes marcas de luxo bolsas,

relógios e vestidos de todos os selos, todos que se possa imaginar. Será que a moda cara e requintada é design? Ou seria outra coisa, completamente diferente?

Uma incorporadora tem suas razões para encher quarteirões com Chanel, Prada, Louis Vuitton todas estão aqui (a LVMH é até coproprietária do bairro). Mas isso significa que o Design District está se tornando uma coisa totalmente diferente uma zona de compras refinada. As lojas de design ainda estão lá, mas espalhadas aqui e ali em torno dos limites do bairro, e sua mudança a partir do centro ilustra a condição do design na economia real(em contraposição à economia idealizada).

Miami está em pleno furor da arquitetura estrelada. Norman Foster, BIG, Zaha Hadid, Herzog & De Meuron e Frank Gehry construíram ou estão construindo, em parte graças à promoção, feita por Craig Robins, da cidade como um destino do design, um lugar que leva a arquitetura a sério. O Museu de Arte Contemporânea de Miami acaba de anunciar que também vai se mudar para o Design District.

O toque melancólico é que, em seu sucesso, o design parece condenado a fazer as vezes de uma oferenda piedosa, um verniz de sofisticação destinado a atrair as grandes marcas que acabarão por expulsálo. Desde o SoHo de Nova York a Clerkenwell ou Hoxton de Londres, não há nada de novo nisso, é o desenvolvimento natural das cidades. A pergunta é: um bairro de design impecável ainda pode ser considerado um bairro do design?

Matéria publicada no jornal Valor em 29 dezembro de 2014 por Edwin Heathcote.