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O TETO QUE NOS PROTEGE

06/02/2015

A terceira passagem de Shigeru Ban pelo Brasil foi meteórica. No dia 23, entre a chegada de Paris e o embarque para Tóquio, o arquiteto japonês laureado com o Prêmio Pritzker em 2014, o mais importante da arquitetura mundial, ficou pouco mais de 12 horas em solo paulistano. Para que pudesse fazer sua palestra como convidado do Arq.Futuro, foi transportado de helicóptero do aeroporto de Guarulhos para o Auditório Ibirapuera. Ali, uma plateia lotada estava à sua espera. No evento da semana passada, o Arq.Futuro, plataforma de discussão sobre o futuro das cidades, abordou a crise da água; na terça-feira, realiza outro debate, agora sobre os parques do Brasil.

Mesmo cansado, o arquiteto parece tirar de letra agendas carregadas como essa. "Não tenho lazer nem tempo livre, trabalho o tempo todo. Fins de semana e férias não existem para mim", disse Ban em entrevista ao Valor. Ele mantém três escritórios: em Tóquio, Nova York e Paris. O principal fica na capital japonesa e emprega 30 pessoas, mas o de Paris, onde trabalham 45, cresceu tanto que o faz viver na França a maior parte do tempo. Fora isso, também dá aulas na Kyoto University of Art and Design e se dedica a trabalhos humanitários. No Brasil, há a possibilidade de o arquiteto realizar um projeto em parceria com o governo para construir postos para visitantes e pesquisadores nos parques nacionais amazônicos, além de escolas e torres de observação.

Além de obras monumentais, como o Centro Pompidou-Metz, na França, Ban é conhecido por trabalhar com tubos de papelão reciclável e pelas construções temporárias em socorro a vítimas de desastres naturais e conflitos políticos. De 1995 para cá, desde que projetou uma igreja católica para substituir a que fora destruída pelo terremoto de Kobe, no Japão, o arquiteto tem marcado presença em situações de emergência mundo afora. Prestou socorro às vítimas do tsunami de Sri Lanka (2004), aos desabrigados de Nova Orleans depois da passagem do furacão Katrina (2005) e esteve em quase todos os países que sofreram terremotos nos últimos anos.

Os projetos são sempre erguidos com ajuda de voluntários e contemplam um conceito amplo de necessidades essenciais, que podem variar de um campo para refugiados em Ruanda (1999) a uma escola elementar em Sichuan, na China (2008), e uma sala de concertos em Áquila, na Itália (2011).

O Aspen Art Museum, projeto de Shigeru Ban inaugurado em agosto na estação de esqui mais rica do Colorado (EUA), foi considerado por moradores grande demais para a cidade
Por esse trabalho solidário, houve quem considerasse que a entrega do Pritzker a Ban foi uma vitória do politicamente correto. Já ele diz que devota parte da vida a projetos humanitários por "uma questão de responsabilidade pessoal". Nada mais. "Historicamente, nós, arquitetos, temos trabalhado para pessoas que têm dinheiro e poder e que querem construir monumentos para se tornarem visíveis", afirma. "Nossos clientes são privilegiados e não tenho nada contra isso. Eu também faço monumentos e acho que eles atraem turistas e se tornam o orgulho de uma cidade. Mas também temos que olhar para os desastres e estar lá. Acontece que, em geral, não temos tempo para isso porque estamos trabalhando para os privilegiados."

Ainda que Ban seja conhecido internacionalmente como o "arquiteto do papel", os trabalhos com tubos de papelão representam apenas 10% de sua produção. Suas pesquisas sobre o material datam de meados dos anos 80, quando buscava algo reciclável para substituir a madeira. Os primeiros tubos que guardou eram de fax e, ao testar o material, percebeu que era muito mais forte do que imaginava.

Ao ganhar a concorrência para o Centro Pompidou- Metz (foto), na França, Ban pediu autorização para montar estúdio temporário na cobertura da matriz
O fato de Ban possuir um trabalho focado em problemas emergenciais, que corre paralelo a uma obra convencional, é o que o distingue da maioria de seus colegas, observa Fernando Serapião, arquiteto e editor da revista "Monolito". "Desde jovem, Ban chama atenção no circuito internacional. Seja pela obra original ou pelos materiais pouco usuais de seus projetos. É raríssimo um arquiteto da estatura dele se voltar para esse lado social. Acredito que essas duas facetas de sua obra tenham contribuído para o merecido Pritzker. Resta saber se o prêmio iria para alguém com foco apenas no social."

Ban estava em Tóquio quando recebeu o telefonema de Marta Thorne, diretora executiva do Prêmio Pritzker para comunicá-lo de sua conquista. Ele começa a rir ao lembrar o diálogo. "'Você é o vencedor!', ela disse. Achei que era brincadeira! Só acreditei quando ela começou a ler o comentário de cada um dos membros do júri." Com a fisionomia risonha, diz que não se achava tão especial nem tão conhecido. Hoje se dá conta do quanto o assédio aumentou após o prêmio.

Se essas diferenças em relação à dedicação ao trabalho são claras para os brasileiros, Ban considera cada vez mais tênues as fronteiras entre Ocidente e Oriente. "Você consegue me dizer o que é o Oriente e o que é o Ocidente?", pergunta. E responde: "Eu não sei. O Japão é Oriente ou Ocidente? Acho que não temos mais divisões. Há diferenças, mas não um caminho separado para cada um dos lados". Diz que a vida urbana parisiense não traz nenhuma sensação de não pertencimento ou estranhamento. "Quando ando pelas ruas, não [se sente estrangeiro]. Só me sinto estrangeiro porque não falo francês", diz.

Primeiro condomínio residencial de Ban nos EUA, o Metal Shutter House (2011), em Nova York, permite que o interior e o exterior entrem em contato, uma vez que a parede de vidro é móvel
Durante seis anos, Ban manteve um escritório no terraço do Centro Georges Pompidou, em Paris. Ao ganhar a concorrência para a extensão do Pompidou-Metz, pediu ao diretor se podia criar um estúdio temporário na cobertura. A resposta foi positiva, desde que o espaço ficasse aberto ao público. "Desfrutei a vista mais linda de Paris sem pagar aluguel. O único inconveniente é que todos tinham que comprar ingresso para me visitar."

Entre suas obras mais recentes está o polêmico Aspen Art Museum, inaugurado há poucos meses na estação de esqui mais rica do Colorado (EUA). O prédio dá vista para as montanhas e é recoberto por uma treliça, que cria luz e sombra e um diálogo entre interior e exterior. Muitos moradores acharam seu tamanho grande demais para a pequena cidade histórica de casas vitorianas. Ban se mostra indiferente às críticas: "É normal, as pessoas têm o direito de ter opiniões diversas. Nada agrada a todo o mundo".

Esse jeito fleumático parece adquirir um ar mais grave pelo fato de estar sempre vestido de preto, com camisas de mangas compridas e colarinho abotoado. Só usa roupas pretas? "Sim", responde com uma gargalhada. "Antigamente eu vestia Issey Miyake. Hoje quem me veste é minha mãe, uma estilista profissional."

Mas não é ele quem escolhe as roupas. "Visto o que ela faz. A designer é ela." Seu apreço pela moda se resume a dois nomes: "Issey Miyake e minha mãe. De ninguém mais". Para sapatos, não dá a mínima: compra qualquer um, de qualquer marca. Declara-se "zero consumista" e pouco gastador. Dinheiro? "Não estou interessado em acumular. Meus sócios é que cuidam do valor dos projetos, em geral nem sei o preço deles. Nos projetos humanitários, trabalho como voluntário." Seus pequenos prazeres se limitam à boa comida e aos bons vinhos. Gosta de "comida local" e de toda a diversidade que há na cozinha japonesa.

Matéria publicada no jornal Valor em 03 de outubro de 2014 por Maria da Paz Trefaut.