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CURADORA PREPARA ABERTURA DA MAIOR FEIRA DE ARTE DA FRANÇA EM LOS ANGELES

04/02/2015

"Pareço cansada?", pergunta Aurélia Chabrillat, no Mini Palais, o restaurante do museu parisiense Grand Palais, onde a Feira Internacional de Arte Contemporânea, a Fiac, acabava de abrir e vendas corriam a todo vapor. Ela vestia calça jeans, uma jaqueta preta e tentava ajeitar o cabelo desarrumado. "É uma loucura tudo isso."

Loucura é também o tamanho e a ambição da operação que Aurélia, 42, está conduzindo. Ela é a diretora do braço norte-americano da Fiac, uma das maiores feiras da Europa, que pretende inaugurar uma franquia em Los Angeles focada em galerias da América Latina.

Com look meio teenager e um rosto lívido, que lembra as esculturas hiper-realistas do artista australiano Ron Mueck, Aurélia está distante da imagem de uma megaexecutiva e vai precisar de traquejo para implantar a tradicional feira parisiense em solo americano.

No concorrido mercado da arte, a expansão da Fiac é uma grande notícia que acompanha uma tendência recente. No ano passado, a poderosíssima Art Basel, que já tinha feiras em Basileia e Miami, decidiu se estender até Hong Kong, e a Frieze, de Londres, abriu um entreposto em Nova York. Na esteira das rivais, a Fiac decidiu reagir e se reproduzir para não morrer solitária na Europa, apostando no poder de uma marca que há 41 anos tem prestígio no mercado europeu. Num mundo em que feiras de arte são inauguradas em cada esquina, esse é mais um sinal de que uma grife forte, como Art Basel, Frieze e Fiac, nunca teve tanto peso.

"Nossa ideia é transportar o DNA da Fiac para Los Angeles", diz Aurélia. "É o momento perfeito para construir esse novo projeto." Ou quase perfeito. Antes do encontro da Serafina com ela, um diretor da Reed Exhibitions, grupo que controla a Fiac e mais de 500 feiras de outros ramos ao redor do mundo, dizia ter certeza de que a operação americana seria deficitária nos primeiros anos -não surpreende, aliás, que já tenham adiado sua estreia de março do ano que vem para janeiro de 2016 a pedido de galeristas nervosos com a ideia de mais um evento no calendário.

Entre essas galerias, muitas são brasileiras e latino-americanas. Nomes fortes no Brasil, como Fortes Vilaça, Raquel Arnaud, Luciana Brito e Mendes Wood DM, já participam da feira em Paris e poderão testar a força de sua filial americana. Uma das estratégias da Fiac Los Angeles, aliás, é se tornar uma alternativa à Art Basel Miami Beach, a maior feira dos Estados Unidos e ponto nevrálgico do mercado latino-americano. "Sei que as galerias do continente estão todas envolvidas com Miami, mas acredito que Los Angeles pode se tornar um novo centro global", diz. "É uma nova base nos Estados Unidos, de onde poderemos também estabelecer uma ponte com as galerias da Ásia."

Essa visão de tabuleiro de War que a executiva tem do mercado global da arte não surgiu do nada. Antes de ser escalada neste ano para comandar a expansão da feira parisiense, que passou por maus bocados e se reergueu nos últimos anos sob direção da australiana Jennifer Flay, Aurélia dirigiu o ateliê da fotógrafa americana Nan Goldin em Paris e coordenou as operações da casa de leilões Christie's, uma das maiores do mundo, em Hong Kong e Xangai.

Passou a viver na ponte aérea entre Paris e China logo depois do estouro da bolha do mercado de arte asiático, há cinco anos. Ou seja, sua missão foi apagar um grande incêndio, de preços em queda vertiginosa na China, enquanto grandes galerias e casas de leilão ocidentais adentravam aquele mercado. "Foi interessante porque peguei o reajuste do mercado depois que a bolha inflacionária estourou por lá. Vivia em Paris, mas trabalhava o tempo todo em Hong Kong e Xangai, onde havia um potencial muito grande ainda. Foi uma aventura oriental."

Em sua nova aventura, a francesa diz que a experiência no front asiático, aliada ao desafio de lidar com a polêmica Nan Goldin -que tem fama de surtar e agredir assistentes, e que ela chama apenas de "intensa"- vão ajudar na construção de uma nova base para o mercado da arte.

Ela já fez as contas e gosta de repetir que a Califórnia seria a oitava economia global, se fosse um país. "É o momento de canalizar todas as minhas experiências anteriores."

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 30 de novembro de 2014 por Silas Martí.