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ENQUANTO A CLASSE MÉDIA SOFRE, RICOS MOVEM OS MERCADOS DOS EUA

04/02/2015

Há cinco anos, a empresa imobiliária Quadrant Homes buscou atrair consumidores preparados para comprar seu primeiro imóvel com casas a partir de US$ 259 mil e o slogan “Mais moradia, menos dinheiro”. Mas com a classe média americana cada vez mais endividada e com o aumento dos preços de terras, a Quadrant decidiu trocar aqueles compradores da primeira casa por clientes que não têm problemas de crédito e estão dispostos a gastar.

Agora, a empresa constrói casas com tetos abobadados e cozinhas de luxo que foram vendidas no ano passado por um preço médio de US$ 420 mil. “Fizemos muita pesquisa de mercado para descobrir que nosso modelo não ia funcionar”, disse Ken Krivanec, diretor-presidente da Quadrant.

O surgimento de uma economia dividida nos Estados Unidos, na qual as famílias mais ricas continuam prosperando, enquanto os americanos de classe média e baixa ainda enfrentam dificuldades, está reconfigurando todo tipo de mercado, de imóveis a roupas, passando por alimentos e cerveja.

“É um conto de duas economias”, diz Glenn Kelman, diretor-presidente da Redfin, corretora imobiliária de Seattle que opera em 25 Estados. “Há um mercado de alto padrão que está florescendo. E então existe a classe média, que não tem expectativa de um aumento de salário.”

A recessão causou erosão nas finanças de todas as famílias americanas e pôs fim a um período de várias décadas de crédito fácil para a classe média.

Os padrões americanos de consumo depois da recessão revelam por que muitas das empresas americanas estão se reorientando para atender consumidores de alta renda, diz Barry Cynamon, economista da regional de St. Louis do Federal Reserve, o banco central americano, que estudou o assunto.

A média de gastos por domicílio entre os 5% das famílias americanas com maior renda — ajustada pela inflação — subiu 12% entre 2009 e 2012, segundo os dados mais recentes. No mesmo período, os gastos das demais famílias caíram 1% por domicílio, segundo Cynamon, acadêmico visitante do Centro para Estabilidade Financeira das Famílias do Fed, e Steven Fazzari, da Universidade Washington, de St. Louis, que publicaram os resultados da pesquisa no ano passado.

A recuperação do consumo depois da recessão “parece ter sido, em grande parte, provocada por consumidores de alta renda”, disse Cynamon. Ele e Fazzari descobriram que os 5% das famílias mais ricas dos EUA representaram cerca de 30% do consumo em 2012, em comparação com os 23% registrados em 1992.

Não é de se estranhar, então, que os varejistas que se concentram na classe média, como J.C.Penney, JCP +1.88% Sears e Target, estejam em dificuldades. “O consumidor não voltou com a confiança que estávamos esperando”, disse o diretor-presidente da Macy’s, M +2.96% Terry Lundgren, a investidores no ano passado.

Já o varejo de luxo atravessa uma fase de bonança. “Nossos clientes estão confiantes e são otimistas sobre a economia em geral e, especificamente, sobre suas finanças”, disse, em dezembro, Karen Katz, diretora-presidente da rede de lojas de departamentos Neiman Marcus Group. A empresa registrou receita de US$ 4,8 bilhões em 2014, comparado com US$ 3,6 bilhões em 2009.

Matéria publicada no jornal The Wall Street Journal Americas por Nick Timiraos e Kris Hudson em 30 de janeiro de 2015.